Odeio Roberto

Continuei correndo. As pernas pesavam. Cansaço tomava os músculos. Visão embaçando nas bordas. Tropecei em uma raiz. Caí. Roberto me carregou nas costas. O corpo dele quente e forte sob o meu. O mundo girava. Sons da batalha ficavam distantes. Perdi os sentidos. Acordei desmaiada no chão da sede, corpo todo dolorido, ombro latejando, boca seca.

Acordei com o corpo inteiro latejando. O ombro esquerdo queimava onde as garras da raposa haviam rasgado a pele. O sangue seco grudava no curativo improvisado. A luz fraca da manhã entrava pela janela do quarto na sede da matilha. Meu pescoço doía de ter dormido no chão frio da sala principal. Tentei me levantar. As pernas fraquejaram e eu caí sentada novamente. O peito subia e descia rápido. A boca estava seca, língua áspera.

Roberto entrou no quarto batendo a porta com força. O som ecoou nas paredes de madeira. Seus olhos amarelos queimavam de raiva. O corpo musculoso estava tenso, punhos fechados ao lado do corpo. Sangue seco ainda marcava o braço dele da batalha da noite anterior. Parou a dois metros de mim, respirando pesado.

— Sua irresponsabilidade quase nos matou ontem, Lina! — A voz dele saiu grave e alta, vibrando no meu peito. — Você parou no meio da luta como se fosse um passeio. Uma raposa quase te pegou. Se eu não tivesse voltado, Logan teria levado você!

Meu sangue ferveu. Levantei com dificuldade, ignorando a dor no ombro. O chão de madeira gelado sob os pés descalços.

— Eu não pedi para estar aqui! Não pedi para correr com vocês! Vocês me sequestraram, me trancaram, me jogaram nessa guerra que eu nem entendo! — Minha voz saiu alta, rouca. O coração batia forte contra as costelas. As mãos tremiam de raiva. Senti calor subindo pelo rosto e pescoço.

Ele deu um passo à frente. O cheiro de suor, sangue e terra dele invadiu o espaço.

— Seu pai confiou em mim! E você age como criança mimada que não consegue seguir uma ordem simples. Quase perdi três lobos por causa da sua distração!

As palavras acertaram fundo. Meu estômago revirou. A raiva subiu pela garganta como bile. Olhei ao redor. Na mesa lateral havia uma faca pequena usada para cortar frutas. Peguei ela com a mão direita. O cabo de madeira era frio e liso. Avancei sem pensar. A lâmina cortou o antebraço dele em um movimento rápido. Sangue quente jorrou imediatamente, escorrendo pela pele bronzeada e pingando no chão de madeira.

Roberto rosnou alto. O som vibrou no ar. Me prensou contra a parede. Minhas costas encostaram forte. O ar saiu dos meus pulmões de uma vez. Dor explodiu na coluna. Ele pressionou o corpo contra o meu, prendendo meus braços acima da cabeça. O sangue dele manchava minha camisa.

— Sua vadia ingrata! — cuspiu as palavras perto do meu rosto. A respiração quente batia na minha pele. — Eu arrisquei minha matilha por você e você me apunhala? Devia ter te deixado com Logan ontem. Ele que aguente essa sua loucura.

As palavras cortaram mais fundo que a faca. Meu peito apertou. Lágrimas de raiva queimaram meus olhos, mas não deixei cair. Tentei chutar as pernas dele. Ele pressionou mais, o corpo pesado me imobilizando. Senti cada músculo dele contra o meu. O ódio puro nos olhos amarelos fez meu estômago gelar.

— Me solta! Eu te odeio! — gritei. A garganta doía. — Você e essa proteção maldita. Preferia estar com Logan do que presa aqui com você!

Ele riu baixo, sem humor. Soltou meus braços de repente. Dei um passo para o lado, ofegante. O ombro ferido latejava mais forte agora. Ele pressionou a mão no corte do braço. Sangue escorria entre os dedos. O olhar que me deu era de puro desprezo.

— Então vai. A porta está aberta. Corre para o Logan e vê se ele te trata melhor. Mas saiba que ele só quer usar você como troféu. Nove caudas não significam que ele tem coração.

Fiquei parada, respirando rápido. O corpo tremia de adrenalina e dor. Ele saiu do quarto batendo a porta. O som reverberou. Sentei na cama. As mãos suavam frio. Toquei o ombro ferido e senti pontadas agudas. O ódio queimava no peito como fogo lento. Ao mesmo tempo, uma sensação estranha de vazio apareceu na barriga. Odiava admitir, mas a presença dele, mesmo raivoso, trazia uma segurança que agora parecia distante.

Nos dias seguintes a disputa só aumentou. Roberto mal falava comigo. Quando falava, eram ordens secas e ofensas baixas.

— Não saia do quarto. Não quero ter que salvar sua pele de novo. — Eu respondia com silêncio ou olhares cheios de ódio. Evitava cruzar com ele nos corredores da sede. Quando acontecia, o ar ficava pesado. Meu coração acelerava. A pele formigava de raiva e de algo mais que eu não queria nomear.

À noite, deitada na cama, o ombro ainda doendo, eu relembrava o momento da faca. O sangue quente dele na minha mão. A força do corpo dele me prendendo. O ódio era real. Pulsava nas veias. Mas o sono demorava a vir. O corpo inteiro permanecia tenso, atento aos passos dele no corredor. A matilha sussurrava. Sentiam a tensão entre o Alfa e eu. Ninguém se aproximava.

Roberto passou a me vigiar de longe. Olhos amarelos sempre presentes. Cada olhar carregava desprezo misturado com algo feroz. Eu o provocava de propósito agora. Deixava a porta aberta. Saía para o pátio quando ele havia mandado ficar dentro. Queria ver até onde aquele ódio ia. Meu corpo doía, mas a raiva me mantinha de pé. A guerra com Logan continuava lá fora, mas dentro da sede a batalha entre mim e Roberto queimava mais forte.

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