Mundo de ficçãoIniciar sessãoA noite estava silenciosa na sede da matilha quando decidi sair dali. O relógio marcava duas e quarenta da manhã. Meu ombro ainda latejava baixo, mas a dor não era mais tão forte. Levantei da cama devagar. O chão de madeira gelado tocou a sola dos meus pés descalços e subiu um arrepio pelas pernas. O coração batia acelerado no peito. Peguei uma jaqueta escura e calcei os sapatos. Abri a janela do quarto com cuidado. O ar frio da floresta entrou, carregado de cheiro de pinho úmido e terra molhada. Não havia lua cheia. A escuridão era quase total.
Desci pela janela. Meus braços tremiam enquanto me segurava na borda. Pulei. Os joelhos absorveram o impacto na terra fria. Dor aguda subiu pelas pernas. Fiquei agachada por alguns segundos, ouvindo. Nenhum som de alerta. Comecei a correr entre as árvores. Galhos baixos arranhavam meus braços e rosto. Cada corte queimava. A respiração saía ofegante, quente no ar gelado. Meus pulmões ardiam. O suor escorria pelas costas e molhava a camisa. O chão irregular fazia meus pés tropeçarem em raízes e pedras. Caí duas vezes. As mãos raladas doíam. Corri por quase quarenta minutos. As coxas queimavam de cansaço. As panturrilhas pareciam pedra. Parei atrás de uma árvore grossa para recuperar o fôlego. O peito subia e descia rápido. Olhei para trás. Nenhuma luz da sede. Um sorriso de alívio começou a se formar no meu rosto. Foi nesse momento que senti o golpe. Algo pesado acertou minha nuca. Dor explodiu na cabeça. A visão escureceu nas bordas. Tentei gritar, mas uma mão cobriu minha boca. Um pano com cheiro forte de ervas foi pressionado contra meu nariz. Meus braços fraquejaram. As pernas perderam força. O corpo inteiro amoleceu. Caí nos braços de alguém. O mundo girou e apagou. Acordei com dor de cabeça latejante. Estava sentada em uma cadeira de madeira polida. Meus pulsos estavam amarrados atrás das costas com cordas grossas que apertavam a pele. Os tornozelos também presos. A sala era grande, paredes de pedra clara, chão de mármore escuro. Incenso queimava em um canto. O cheiro doce e forte invadia minhas narinas. Toquei o chão com os pés. Estava quente. Luzes suaves vinham de lanternas penduradas. A porta de madeira pesada se abriu. Logan entrou. Cabelos escuros longos até os ombros, brilhantes sob a luz. Corpo robusto, peito largo, braços musculosos visíveis sob a camisa preta aberta no colarinho. Calça escura marcava as pernas fortes. As nove caudas douradas moviam-se lentamente atrás dele, quase hipnóticas. Seus olhos verdes fixaram em mim. Um sorriso largo se abriu no rosto dele. Os dentes brancos apareceram. Ele se aproximou devagar. Cada passo ecoava no chão de mármore. Parou na minha frente. Abaixou o corpo até ficar na altura dos meus olhos. A mão grande tocou meu queixo com cuidado. Os dedos eram quentes. Senti um formigamento na pele onde ele tocava. Meu coração acelerou. Medo e uma confusão estranha apertaram meu estômago. — Finalmente você está aqui — disse ele. A voz era suave, grave, quase carinhosa. — Esperei tanto tempo. Seu cheiro me trouxe direto para você. Tentei puxar o rosto. Ele segurou firme, mas sem machucar. Os olhos dele brilhavam de satisfação. Levantou e caminhou ao redor da cadeira. As caudas roçaram de leve no meu ombro. Senti um calor estranho passar pela pele. Meu corpo tremeu. Parte de mim queria recuar, outra parte notava o tamanho dele, a força evidente nos músculos dos braços e ombros. Logan parou atrás de mim. As mãos grandes descansaram nos meus ombros. Apertou de leve. A pressão enviou ondas de calor pela minha coluna. — Roberto não soube te proteger. Eu soube te encontrar. Aqui você vai ter tudo. Comida quente, roupas boas, liberdade dentro da minha fortaleza. Só precisa aceitar que é minha. Meu peito apertou. Raiva misturada com medo subiu pela garganta. — Eu não sou de ninguém. Me solta. — Minha voz saiu rouca. A boca seca. Ele riu baixo. O som vibrou perto da minha orelha. Deu a volta e se ajoelhou novamente na minha frente. Segurou minhas mãos amarradas. Os dedos dele eram fortes, mas o toque era quente. — Você vai mudar de ideia. Vi como Roberto te trata. Com raiva. Com desprezo. Eu vejo seu valor. Uma companheira forte para um líder de nove caudas. Ele deu ordem para soltarem minhas amarras. Dois homens entraram e desataram as cordas. Meus pulsos latejavam onde as marcas vermelhas apareciam. Logan me ajudou a levantar. Minhas pernas ainda estavam fracas. Ele segurou minha cintura com um braço. O corpo dele era quente e sólido contra o meu. Senti o cheiro dele: madeira, incenso e algo selvagem. Meu estômago revirou. Tentei me afastar. Ele não deixou. — Venha. Vou te mostrar seu novo quarto, Lina. — Me guiou pelos corredores largos de pedra. As nove caudas balançavam atrás dele. Cada movimento mostrava poder controlado. O quarto era luxuoso. Cama grande com lençóis escuros, janelas altas com vista para a floresta, banheiro de mármore. Ele me deixou entrar sozinha, mas fechou a porta por fora. Sentei na cama. O colchão macio afundou sob meu peso. Toquei o pulso dolorido. O coração ainda batia forte. Pensava em Roberto. Na raiva dele. Uma parte de mim sentia alívio por estar longe daquela tensão constante. Outra parte sentia um vazio estranho no peito. Logan parecia feliz de verdade em me ver. O sorriso dele não saía da minha cabeça. Os dedos quentes no meu queixo ainda formigavam. Deitei na cama. O teto de madeira trabalhada girava levemente na minha visão. O corpo exausto, mas a mente alerta. Medo, confusão e uma curiosidade perigosa se misturavam dentro de mim. Lá fora, ouvia os sons da matilha das raposas. Uivos diferentes dos lobos. Mais agudos. Mais rápidos. Fechei os olhos. O sono demorou a chegar.






