Diante do Imperador

O território imperial continuava exatamente como Aria lembrava: impecável, controlado e frio. Cada guarda estava no lugar certo, cada movimento era calculado, e até o silêncio parecia planejado. Era o tipo de ambiente que intimidava naturalmente, mas Aria nunca foi o tipo de pessoa que se deixava afetar por isso. Caminhava pelos corredores com tranquilidade, os relatórios em mãos, como se estivesse atravessando o próprio território. Vera vinha ao seu lado, observando tudo com muito mais atenção.

As duas pararam diante da grande porta do gabinete. Os guardas trocaram um olhar breve antes de abrirem passagem, e Aria entrou sem hesitar. O espaço era amplo, organizado, carregado de autoridade. Mapas, documentos e decisões importantes ocupavam cada detalhe daquele lugar. E ele estava ali.

Kael Draven permanecia de pé, de costas, analisando algo sobre a mesa. Sua presença preenchia o ambiente mesmo sem movimento, como se o espaço inteiro respondesse a ele. Aria avançou alguns passos antes de falar.

— Kael.

A palavra saiu natural, sem formalidade, como se fosse a coisa mais comum do mundo. O silêncio que se seguiu não foi longo, mas carregava peso suficiente para qualquer um perceber a ousadia. Ele não se virou imediatamente, como se estivesse decidindo se aquilo merecia atenção. Quando finalmente o fez, foi devagar.

— Aria.

O nome dela saiu baixo, controlado… e completamente indiferente. Seus olhos passaram por ela apenas o suficiente para reconhecer, sem qualquer interesse além disso. Aria inclinou levemente a cabeça, analisando a reação dele.

— Continua educado como sempre.

Kael não respondeu. Apenas voltou a atenção para os documentos à sua frente.

— O que você quer?

A pergunta foi direta, sem espaço para rodeios. Aria caminhou até a mesa com calma, colocando os relatórios sobre a superfície.

— Relatórios do território do meu pai. Ou você prefere que eu invente algo mais interessante para te entregar?

Kael nem sequer olhou para os papéis.

— Se quisesse algo interessante, não teria chamado você.

Vera, ao fundo, prendeu a respiração. Já Aria… sorriu, como se aquilo fosse quase divertido.

— Ainda assim, você não me mandou embora.

Aquilo fez com que ele levantasse o olhar de forma direta dessa vez, frio e avaliador.

— Ainda.

O silêncio se instalou por um instante, mas Aria não recuou. Deu mais um passo, completamente à vontade naquele espaço que claramente não era dela.

— Você devia tentar ser menos previsível.

Kael estreitou levemente os olhos. — E você devia aprender limites.

— Eu conheço os meus — ela respondeu, cruzando os braços com calma. — Você que não gosta deles.

Por um segundo, houve algo diferente na expressão dele. Nada claro, nada emocional, apenas um reconhecimento silencioso. Ela sempre foi assim. Desde pequena. E nunca aprendeu a recuar.

— Terminou? — ele perguntou.

Aria inclinou a cabeça, um leve brilho provocador no olhar. — Já está com saudade?

Kael não respondeu, e aquilo foi resposta suficiente. Ela soltou um suspiro leve, quase teatral.

— Que decepção.

Se afastou um passo, mas seus olhos desviaram para a porta lateral do gabinete. — Ela está aí, não está?

— Está — Kael respondeu, sem interesse.

Aria não pediu permissão. Apenas virou e seguiu naquela direção, como se tivesse todo o direito de estar ali. E, de certa forma, tinha. Quando entrou na área mais reservada, o ambiente mudou completamente. Mais silencioso, mais acolhedor, mais vivo.

— Aria.

O sorriso veio antes mesmo do abraço. Ela se aproximou e envolveu a mulher com carinho, fechando os olhos por um breve instante.

— Eu senti sua falta.

— Eu também, querida.

O tom era diferente de tudo do lado de fora. Mais suave, mais humano. Quando se afastaram, a mulher a observou com atenção.

— Você cresceu tanto.

Aria sorriu de leve. — Eu tive que crescer.

— Sua mãe ficaria orgulhosa.

A menção não trouxe dor explícita, mas também não passou despercebida. Aria apenas assentiu, mantendo o sorriso mais contido dessa vez.

Do outro lado da porta, Kael observava em silêncio. Não o abraço em si, mas o que ele representava. Ele lembrava da noite em que tudo mudou. Dos renegados. Da perda do próprio pai… e da mãe dela. Talvez fosse por isso que o pai de Aria havia se fechado tanto. Talvez fosse por isso que ela não.

Seus olhos permaneceram nela por mais um instante, analisando como sempre fazia. Ela ainda era a mesma — insistente, ousada, incômoda. Nada havia mudado.

Kael simplesmente desviou o olhar e voltou aos documentos, como se ela nunca tivesse estado ali.

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