Na manhã seguinte, o clima na casa de Régis estava pesado.
Ele tomava café em silêncio, mexendo distraidamente na xícara, enquanto sua mãe observava.
— Você ainda tá pensando naquela menina, né? — disse ela, seca.
Antes que ele respondesse, a empregada apareceu na sala.
— Dona Marta, tem uma visita…
— Quem é? — perguntou, surpresa.
— Núbia.
A mãe de Régis abriu um sorriso.
— Núbia! Manda entrar!
Núbia entrou apressada.
Elegante, mas com pressa.
— Quanto tempo! — disse Dona Marta, abraçando — por que não avisou? Eu preparava algo melhor!
— Não posso ficar, tô indo trabalhar — respondeu — só passei pra falar com o Régis.
— Tô aqui — disse ele, levantando — e aí? Conseguiu?
Núbia assentiu.
— Consegui verificar a data que você me deu… ela pegou um ônibus pro Rio de Janeiro.
O coração dele acelerou.
— Tem certeza?
— Sim… e depois disso, não tem mais registro com o nome dela. Provavelmente ficou por lá… talvez com algum conhecido.
Régis negou com a cabeça.
— Ela não tem ninguém lá…
— Então tá por conta própria — respondeu Núbia.
Ele respirou fundo.
— Obrigado, de verdade.
Núbia se despediu rapidamente e saiu.
Assim que a porta fechou…
— Eu não acredito nisso — disse Dona Marta, irritada — você foi atrás dessa garota?
— Mãe…
— Se ela gostasse de você, tinha te procurado!
Régis ficou firme.
— Ela gosta… só tava passando por problemas.
— Problema seu — respondeu fria — se quiser ir atrás dela, vai sozinho.
Silêncio.
Mas naquele momento…
Ele decidiu.
No colégio, ele mal prestou atenção.
A cabeça só pensava em uma coisa:
Rafaela.
Na saída, pegou o celular.
— Tio? Sou eu… posso passar uns dias aí no Rio?
Na mesma noite…
Mala pronta.
Passagem comprada.
E uma decisão tomada.
Ele ia encontrá-la.
Enquanto isso…
Na boate…
Priscila entrou no quarto apressada.
— Rafa! Se arruma!
— O que foi? — perguntou, assustada.
— Hoje é o dia.
Rafaela congelou.
— Minha estreia?
— Sua estreia.
O coração disparou.
Diante do espelho, Rafaela respirava fundo.
Escolheu uma lingerie delicada… acompanhada de uma máscara que cobria parte do rosto.
Colocou um robe por cima.
As mãos tremiam.
— Vai dar certo… — sussurrou.
A casa estava lotada.
Homens bem vestidos.
Ricos.
Influentes.
O tipo de público que Lorrane queria.
Quando anunciaram…
Rafaela subiu.
As luzes se acenderam.
O silêncio veio por um segundo.
E então…
Ela fechou os olhos.
Respirou.
E começou.
No início… nervosa.
Mas aos poucos…
O corpo respondeu.
Os movimentos fluíram.
Elegantes.
Envolventes.
Hipnotizantes.
Era como se não houvesse ninguém ali.
Só ela.
E a música.
Quando abriu os olhos…
Os olhares estavam presos nela.
Homens fascinados.
Alguns se levantando.
Outros jogando dinheiro.
— Quanto pra ir pro quarto?! — gritou um deles.
— Ela não faz programa! — respondeu Lorrane, firme.
Alguns reclamaram.
Outros riram.
Mas o dinheiro…
Continuava caindo.
Nos bastidores, algumas garotas observavam… incomodadas.
Inveja.
Rafaela tinha roubado a cena.
Após a apresentação, ainda ofegante, Rafaela foi até o escritório.
Lorrane estava sorrindo.
— Eu sabia.
Abriu uma gaveta e entregou um envelope.
— Isso é seu.
Rafaela abriu.
Seus olhos se arregalaram.
— Seis mil e quinhentos?!
— Você ganhou mais — disse Lorrane — mas eu já tirei minha parte.
Rafaela ainda estava em choque.
— Abre uma conta… começa a guardar.
Ela apenas assentiu.
Ainda sem acreditar.
Ao sair do escritório…
Rafaela caminhava pelo corredor.
Até que viu.
Uma mesa.
Homens de preto.
Armas visíveis.
O clima… pesado.
Ela desviou o olhar rapidamente.
Mas já era tarde.
Eles perceberam.
Quando estava quase chegando ao quarto…
Alguém segurou seu braço.
Forte.
Ela se virou, assustada.
— Quem é você?!
O homem sorriu de lado.
— E você… quem é… que recusou minha proposta?
Rafaela puxou o braço.
— Eu não faço programa.
Ele se aproximou um pouco.
— Corajosa…
Seus olhos percorreram ela.
— Mas eu não costumo aceitar um não… sem pelo menos um beijo.
Rafaela deu um passo para trás.
O medo começou a surgir.
— Carlos… tá perdido?
A voz de Lorrane cortou o momento.
Ele virou, irritado.
— Eu pago o dobro.
— Ela não faz programa — respondeu Lorrane — posso te arrumar outras.
Ele respirou fundo, irritado… e saiu.
Lorrane olhou séria para Rafaela.
— Você … direto pro quarto depois dos shows. Sem andar por aí.
Rafaela assentiu.
Na manhã seguinte…
Priscila já estava lá.
— E aí?! — perguntou animada.
Rafaela abriu um sorriso.
— Eu ganhei seis mil e quinhentos!
— Eu soube! Você arrasou!
Rafaela então contou sobre o homem.
Priscila ficou mais séria.
— Aqueles ali… são mafiosos.
Rafaela gelou.
— Eles quase não aparecem… mas quando aparecem… é melhor nem olhar.
Mais tarde, saíram juntas.
Abriram uma conta para Rafaela.
Ela depositou o dinheiro.
Sentindo… que estava começando uma nova vida.
Depois passaram em uma loja.
Rafaela se encantou por um espartilho vermelho.
Comprou.
— Nossa… — disse Priscila — aquele tal de Carlos vai enlouquecer.
Rafaela ficou tensa.
— Para com isso…
— Relaxa… eles quase não aparecem.
Na boate…
Renata conversava com Lorrane.
— Aquele Carlos… perguntou da Rafaela.
Lorrane ficou em silêncio.
Pensativa.
Sabia muito bem…
Homens como ele…
Não desistiam fácil.
E sem saber…
Rafaela já tinha chamado atenção de alguém…
Que nunca aceitava perder.
Mas Lorrane não se prendeu em preocupação até porque Carlos só era um manda chuva.