Mundo de ficçãoIniciar sessão
O primeiro prato voou sem aviso.
Passou rente ao meu rosto e explodiu na parede da cozinha, espalhando cacos brancos pelo chão de pedra. — Olha o que você me obriga a fazer, Elara! — a voz de Selene ecoou pela casa, firme, autoritária, como tudo nela. — Sempre trazendo vergonha para esta família! Ela estava impecável, como sempre. Postura ereta, queixo erguido, o olhar afiado de uma loba que nunca duvidou do próprio lugar. Forte. Altiva. Respeitada na alcateia Luar de Ferro. Eu, ao contrário, estava parada no meio da cozinha, as mãos cerradas, o coração batendo alto demais para um corpo que já tinha aguentado coisa demais. — Vergonha? — perguntei, sentindo minha loba rosnar baixo dentro do peito. — Vergonha é fingir que eu não existo todos os dias. Outro objeto veio. Um jarro de cerâmica. Me abaixei por reflexo. Ele se partiu atrás de mim. — Cala a boca! — Selene gritou. — Você acha que tem o direito de falar comigo nesse tom? — Eu tenho o direito de falar a verdade! Iria tentou se colocar entre nós, os olhos marejados. — Mãe, por favor, para… — Saia da frente — Selene empurrou-a com força. — Isso não é assunto seu. — Não encosta nela! — Kael segurou o braço da mãe, os dentes cerrados. — Já chega! Ela se soltou com um puxão violento. — Esta casa é minha! — rosnou. — E eu não admito ser desrespeitada por uma ômega inútil! Meu sangue ferveu. — Não é sua! — avancei um passo. — Nunca foi só sua. E você sabe disso! O tapa veio rápido. Minha cabeça virou para o lado. O gosto de sangue encheu minha boca. A cozinha ficou em silêncio por um segundo longo demais. Então… eu ri. Não de humor. De ruptura. — Você b**e como vive — cuspi. — Fraca por dentro e cruel por escolha. O rosto de Selene se contorceu de ódio. — Você ousa me chamar de fraca? — ela riu, sem humor. — Você é igual à sua mãe, Elara. Uma ômega quebrada, arrastando vergonha por onde passa. Meu peito apertou violentamente. — Não ouse falar da minha mãe — rosnei. — Você nunca chegou aos pés dela. — Maelis se matou porque era fraca demais para viver! — Selene gritou. — E você vai acabar igual se continuar fingindo que é alguma coisa! Algo dentro de mim explodiu. Empurrei a mesa com força. Ela caiu com estrondo, pratos e talheres se espalhando. — Eu aguentei você a minha vida inteira! — gritei. — Aguentei seus olhares, suas humilhações, você me tratando como um erro todos os dias! — Porque você é! — Selene respondeu, fria. — Você é o erro que Bram cometeu antes de encontrar sua verdadeira companheira! Meus irmãos choravam agora, tentando me puxar para trás. — Elara, por favor… — Chega — disse uma voz dura. Meu pai estava parado à porta. Bram, o Beta da alcateia Luar de Ferro, braços cruzados, expressão fechada. Forte. Respeitado. E completamente distante. — Isso já foi longe demais — ele disse. Olhei para ele, o coração implorando por algo que nunca vinha. — Ela me bateu — falei. — Ela insultou a mamãe. — Você provocou — Bram respondeu, sem hesitar. Foi ali que algo morreu dentro de mim. — Eu provoquei… por existir? Ele suspirou, impaciente, como se eu fosse um problema mal resolvido. — Elara, você tem dezenove anos. Já é adulta. A alcateia pode sustentar você fora daqui sem dificuldade. Engoli em seco. — Está me expulsando? — Estou dizendo que não há mais espaço para você nesta casa — ele disse. — Nem no esquadrão que eu comando. Meu coração afundou. — Nem no seu esquadrão… — Peça transferência — Bram continuou. — Não misturo conflitos pessoais com liderança. Atrás dele, Selene sorriu. Vitória pura. — Pai, não faz isso — Kael implorou. — Ela não fez nada — Iria chorava. — Chega — Bram ordenou. — Elara, arrume suas coisas. Fiquei ali por um segundo, sentindo o peso de cada palavra esmagar meu peito. — Então é isso — murmurei. — Você escolhe ela. Ele não respondeu. E o silêncio foi a resposta. Virei as costas. Cada passo para fora daquela casa arrancava algo de mim… mas também deixava algo para trás. Quando cruzei a porta, ouvi Selene dizer, doce como veneno: — Finalmente. Não chorei. Só quando a noite me engoliu inteira. E, enquanto a Lua subia no céu da Luar de Ferro, eu soube: Eu tinha acabado de perder minha família. E ainda não fazia ideia de que aquela seria apenas a primeira queda.






