Mundo de ficçãoIniciar sessãoDeixo a garota mais bonita que já vi parada em frente à faculdade, ainda meio atordoada, mas consciente.
Não digo meu nome. Deixei ela curiosa. Imagino ela imaginando nomes para mim. Um leve sorriso surge quando lembro da ordem curiosa das perguntas dela: primeiro minha idade, depois o que eu fazia da vida… só então, por último, meu nome. Diferente. Interessante. E, pelo jeito, um pouco atrapalhada também. Bárbara. O nome ecoa na minha cabeça enquanto me afasto. Dirijo até em casa com uma sensação estranha no peito. Não é culpa. Não é arrependimento. É… curiosidade. E isso não é comum pra mim. Estaciono o Aston Martin na garagem e entro. Assim que atravesso a porta da sala, dou de cara com meu irmão jogado no sofá… com a pequena Alice no colo. Paro no meio do caminho, cruzando os braços. — Vou trocar as fechaduras. Falo em tom seco, mas com um leve humor escondido. Ele nem se dá ao trabalho de reagir. — Cara… preciso da sua ajuda. Solto um riso sem graça. — Sério mesmo? Me conta uma novidade. Ele apenas sorri, cansado. E esse sorriso diz tudo. Meu irmão está em uma fase péssima. Processo de separação, discussões constantes, e o pior… a filha no meio disso tudo. Alice. Que não tem culpa de nada. — Titio! — a vozinha doce me chama. E pronto. Qualquer tensão desaparece. Caminho até eles e a pequena praticamente se j**a nos meus braços. — Oi, princesinha do tio… A abraço com cuidado, sentindo o cheiro suave de criança. Inocente. Pura. Olho para meu irmão. — O que está acontecendo? Ele passa a mão pelo rosto, visivelmente esgotado. — Preciso que você fique com a Alice. Tenho uma reunião importante… vou fechar o contrato do shopping. Eles amaram seu projeto. Um sorriso surge automaticamente. — Claro que amaram. Eu sou o melhor no que faço. Ele ri de leve. — Convencido. — Realista. Dou de ombros. Esse projeto… é grande. Muito grande. Bilionário. — Vamos precisar contratar mais gente — ele completa. Assinto. — Eu sei. Falo com o RH ainda hoje. Ele pega as chaves, me lança um olhar agradecido e sai. E, de repente… a casa gigante fica silenciosa. Só eu… e a Alice. Minha casa é um triplex enorme. Quando comprei, fazia sentido. Eu e Gabi. Casamento. Família. Hoje? Só eco. Caminho até a varanda do último andar com a Alice no colo. Dali, tenho uma visão ampla da vizinhança. E meus olhos param no chalé ao lado. Um aperto surge no peito. Dona Maria. Faz um mês que ela se foi. E desde então, o chalé — que antes parecia vivo — está vazio. Triste. A grama já começa a crescer sem cuidado. As flores perderam o brilho. Ela cuidava daquele lugar com tanto amor… parecia uma casa de boneca. Quantas vezes cheguei do trabalho e ela me chamou para um chá. Ou quando precisava de ajuda com alguma coisa. Ela sempre estava ali. Presente. Sinto falta disso. — Titio… vovó Malia... biscoito. Dou uma risada baixa. — Você lembra, né, princesa? Alice gostava tanto quanto eu dos biscoitos da Dona Maria. — Ela virou uma estrelinha… — digo, mais para mim do que para ela. Dou um beijo na cabeça da pequena. — Mas o tio vai dar biscoito pra você. Não são tão bons… mas quebram o galho. Na cozinha, coloco alguns biscoitos recheados em um potinho. Ela devora tudo. Literalmente. Limpo seu rostinho sujo de chocolate, rindo. Depois a levo para o quarto de hóspedes. — Hora de dormir. Ela resmunga um pouco, mas logo apaga. Fico alguns segundos observando. E então volto para a sala. Me jogo no sofá. E, sem perceber… Apago. E sonho. Com ela. Bárbara. Como se minha mente tivesse decidido não me dar descanso. O rosto dela surge primeiro. Delicado. Angelical. Perfeito. Aquele contraste absurdo entre inocência e provocação. No sonho, ela sorri pra mim. Um sorriso lento… quase malicioso. Depois, ela está dançando. Em um pole dance. O corpo se movendo com uma sensualidade hipnotizante. Controle. Provocação. Sexy. Meu corpo reage. Meu cérebro sabe que é um sonho. Mas parece real demais. Ela desliza pelo pole. Desce. Se aproxima. E então… leva as mãos até o próprio corpo. Quando começa a tirar o sutiã… — Acorda, porra! Abro os olhos de uma vez. — Filho da puta! — rosno, passando a mão no rosto. — Eu estava no meio de um sonho! Meu irmão está parado na minha frente, sorrindo como um idiota. — Imagino. Reviro os olhos. — Fechei o contrato. Vamos sair pra comemorar. Ele cruza os braços. — E aí? Vai amarelar? Ergo uma sobrancelha. — Você vai mesmo ou vai dar pra trás? Ele sorri. — Eu vou. Ele pega a Alice — ainda dormindo— e se despede. E eu fico ali. Sentado. Pensando. Nela. O resto do dia passa… mas minha mente não sai do mesmo lugar. Bárbara. À noite, volto à boate. O mesmo lugar. Mesma música. Mesma energia. Mas ela… Não está. Meu irmão percebe minha inquietação. — Tá procurando alguém? Solto um suspiro. E conto tudo. Desde o começo. Ele escuta em silêncio. Quando termino, ele me encara como se eu fosse um completo idiota. — Você não pegou o número dela? — Eu ainda estou noivo — respondo, seco. Ele ri. Sem humor. — Que noivo, Marco? Esse relacionamento já acabou faz tempo. Silêncio. Porque ele tem razão. Mas ainda existe algo pendente. Algo mal resolvido. — Você precisa terminar isso — ele continua. — Antes que vire um desastre igual ao meu. Assinto devagar. Mas meus pensamentos voltam para Bárbara. — Amanhã eu vou atrás da garota! No dia seguinte, estou na frente da faculdade. Determinado. Vou até o segurança. — Você conhece uma garota chamada Bárbara? Dou suas características. Ele pensa por um segundo. — Conheço. Dormitório B, quarto 302. Um sorriso surge. Perfeito. Vou até a recepção. — Bom dia, estou procurando a Bárbara do quarto 302. O porteiro me olha. Com uma expressão… estranha. — Ela foi embora. Franzo a testa. — Como assim? — Se mudou hoje. Levou tudo. Foi para outro estado, ela se formou e foi. Sinto como se tivesse levado um soco. — Não… — Sinto muito. Fico parado por alguns segundos. Sem reação. Então viro. E saio. Dirijo até a empresa no automático. Minha mente… longe. Quando entro, escuto vozes alteradas. Meu irmão. E Morgana. A futura ex-esposa dele. Eles estão discutindo no meio do escritório. Paro na porta. — Vocês podem ter o mínimo de respeito pela empresa? Minha voz sai firme. Fria. — Discutam isso na casa de vocês. Morgana me lança um olhar irritado e sai batendo a porta. O silêncio que fica é pesado. Meu irmão passa a mão pelo cabelo. Exausto. Derrotado. Ele me olha. E fala baixo: — É isso que você quer pra você? Sinto o impacto da pergunta. — Porque se não for… termina antes de acabar igual a mim. Respiro fundo. Ele está certo. De novo. Sem dizer nada, vou até minha sala. Abro a porta. E chamo: — Joana. Minha secretária aparece. — Sim, senhor? — Compra uma passagem pra Milão pra mim. Pra daqui três dias. Ela assente e sai. Volto meu olhar para meu irmão, que ainda está parado ali. — Vou resolver minha situação...






