A pista privada estava banhada pela chuva fina de São Paulo, um espelho cinzento que refletia as luzes do jato. Pedro estava parado ao pé da escada, as mãos nos bolsos, a postura rígida. Ele parecia um monumento à relutância.
Eu me aproximei dele, o meu casaco de trincheira preto a proteger-me do frio. — Você parece que está prestes a demitir o piloto para impedir que o avião decole — brinquei, tentando aliviar a tensão que irradiava dele.
Ele não riu. Tirou as mãos dos bolsos e segurou o meu rosto, os seus polegares a traçarem as minhas bochechas com uma intensidade que me fez prender a respiração. — Eu considerei comprar o aeroporto e fechar o espaço aéreo — admitiu ele, a sua voz rouca. — Mas o meu lado racional lembrou-me de que você me odiaria por isso.
— O seu lado racional é muito sábio — sussurrei, ficando na ponta dos pés.
O beijo dele foi faminto, possessivo, com um gosto de despedida que parecia exagerado para uma viagem de apenas três dias. Mas eu entendia. Desde aquel