PEDRO
A viagem de volta foi um borrão.
Não me lembro de entrar no jato. Não me lembro da decolagem. Lembro-me apenas de ficar a olhar para as minhas mãos durante todo o voo.
Os nós dos dedos da mão direita estavam inchados, roxos, a pele rasgada em alguns pontos. O sangue de Arthur Sampaio Filho já tinha sido limpo, mas a sensação do osso dele a ceder sob o meu punho ainda vibrava nos meus nervos.
Não senti remorso. Senti apenas cansaço. Um peso antigo, de séculos, que parecia ter saído das minhas costas.
O jato aterrou em Congonhas de madrugada. São Paulo estava fria, coberta por uma garoa fina que parecia chorar pela cidade.
Marcus esperava-me na pista com o carro. Ele abriu a porta para mim, os olhos treinados a varrerem o meu corpo à procura de ferimentos. O olhar dele parou nas minhas mãos. Ele assentiu, um movimento quase imperceptível. Ele sabia.
— Para o hospital — ordenei, a voz rouca.
O hospital estava silencioso. O turno da noite é um mundo à parte, feito de passos