Mundo ficciónIniciar sesiónO trajeto de volta para o hotel onde estava hospedada com a amiga foi feito em um silêncio tenso, mas a mente de Manuela trabalhava em rotação máxima. Quando ela finalmente cruzou a porta do quarto, não teve tempo sequer de fechar a fechadura antes de ser bombardeada.
— Manu! Graças a Deus! Aonde você estava? — Clara avançou na direção dela, com os olhos arregalados, enchendo a amiga de perguntas sem dar espaço para respirar. — Eu já estava indo na polícia! Manuela fechou a porta com as costas, soltando uma longa lufada de ar. Ela jogou a bolsa em cima de uma poltrona e desamarrou o roupão, cansada do peso daquela peça que nem era sua. — Não exagera, Clara — pediu Manuela, caminhando até a mala para procurar uma muda de roupa limpa. — Não exagera? — Clara rebateu, gesticulando com as mãos para o alto, indignada. — Estávamos apostando nos cassinos e, de repente, você sumiu! Eu achei que você tinha voltado para o hotel. Como eu já estava alta por causa da bebida, só cheguei e fui dormir. Mas quando acordei, você não estava na sua cama! Quer que eu reaja como, sua maluca? Manuela parou o que estava fazendo, segurando uma calça jeans e uma camiseta simples contra o corpo. Ela olhou bem para a amiga, respirou fundo e soltou a bomba de uma vez só, sem anestesia. — Eu cometi a pior loucura da minha vida. E vou precisar da sua ajuda para descobrir como eu fui parar em uma capela com um desconhecido, assinar uma certidão de casamento e acordar no quarto dele com o chute do pai dele, que invadiu o quarto e agora acha que eu sou a norinha querida dele. Clara piscou uma, duas vezes, processando o turbilhão de informações absurdas. As pernas dela pareceram perder as forças e ela caiu sentada novamente na cama, olhando para Manuela como se ela tivesse criado três cabeças. — O que você fez, sua maluca? — a voz de Clara saiu quase num fio. — Eu não lembro como eu me casei com um desconhecido — Manuela confessou, sentando-se na beirada da outra cama, cobrindo o rosto com as mãos. — O que você lembra? Me conta do começo. — Eu me lembro de termos ganhado no jogo. Você foi pegar mais fichas e eu resolvi pegar mais bebidas no bar. Aí eu esbarrei com um homem. Começamos a beber e, depois disso, as coisas ficam totalmente nubladas. Aparecem imagens de eu assinando um papel, indo para dentro de um táxi rosa... É tudo muito confuso, Clara. Minha cabeça parece que vai rachar ao meio. Clara franziu o cenho, assumindo uma postura protetora instantaneamente. O lado racional da amiga falou mais alto. — Vamos para o cassino agora mesmo. Vamos pedir as imagens de segurança e falar que você foi roubada, que te deram um golpe. Isso não vai ficar assim. Manuela assentiu. Ela precisava de respostas reais antes de arrumar as malas para o outro lado do oceano. Ela se arrumou rapidamente, colocou uma roupa confortável e as duas desceram, cruzando a famosa avenida de Las Vegas de volta ao suntuoso cassino da noite anterior. Ao chegarem lá, Manuela pediu para falar diretamente com a gerência. Com uma postura firme, explicou que precisava verificar os registros da madrugada porque suspeitava de uma abordagem indevida. O gerente, demonstrando a habitual polidez e discrição dos grandes estabelecimentos locais, as levou até a sala de segurança, um ambiente repleto de monitores de alta definição que cobriam cada centímetro quadrado do salão de jogos. O operador buscou o horário exato indicado por Manuela. Na tela, ela viu claramente a cena se desenrolar: Clara se afastava para trocar as fichas no caixa, enquanto Manuela caminhava em direção ao bar. Foi exatamente ali que o esbarrão aconteceu. O homem das imagens era ele, Diogo. As câmeras mostraram os dois conversando. No início, pareciam dois desconhecidos dividindo um balcão, mas logo estavam bebendo juntos e rindo. O monitor seguinte mudou o ângulo, mostrando os dois em uma mesa mais afastada. A fita não tinha som, mas a linguagem corporal dizia tudo: Manuela gesticulava muito, e em dado momento, começou a chorar copiosamente. Diogo, em vez de se afastar, segurou firme nas mãos dela, parecendo consolá-la. Pouco depois, os dois se levantaram e saíram juntos do cassino, caminhando lado a lado de forma voluntária. Não havia sinais de coação, ameaça ou violência. O gerente do cassino, que observava a gravação por cima dos ombros delas, soltou um suspiro aliviado e olhou para Manuela com estranheza. — Eu não acredito que esse cliente te roubou. Ele é um dos meus melhores e mais exclusivos clientes: Diogo Falconi. Se você precisa de ajuda para descobrir quem tirou algo de você, ele é o homem que pode te ajudar. Ele tem muita influência. Manuela revirou os olhos, sentindo uma mistura de vergonha e irritação. — Obrigada por sua ajuda — ela disse ao gerente, cortando o assunto antes que o homem fizesse mais perguntas. Ela e Clara saíram da sala de monitoramento e caminharam até uma área mais reservada do saguão do cassino. Clara estava com os olhos brilhando, uma reação totalmente oposta ao plano de vingança de minutos atrás. — Vamos perguntar para esse homem, nós já temos o nome dele! — Clara sugeriu, empolgada. — Esse homem é o meu marido — Manuela soltou, categórica. Clara soltou um assobio baixo, cobrindo a boca com a mão. — Uau... Que marido, hein? Convenhamos, bem diferente do ridículo do Maurício. Você viu o porte dele naquela tela? Os braços dele e aqueles olhos? — O ego dele é tão grande quanto os braços — Manuela resmungou, cruzando os braços, irritada com o elogio da amiga ao sujeito. — Eu saí com aquele homem e fui, pelo visto, pelas minhas próprias pernas e de boa vontade. Ninguém me obrigou a nada, eu só estava bêbada e deprimida por causa do casamento arranjado no Brasil. — E como vai ser para anular o casamento? É só acionar um advogado e provar que vocês não sabiam o que estavam fazendo. As coisas não eram tão simples. Manuela olhou para os dois lados do saguão, checando se não havia ninguém por perto, lembrando-se do exército de soldados que vira mais cedo. — O cara é herdeiro de uma máfia italiana — Manuela explicou, baixando o tom de voz para um sussurro. — O pai dele acredita que somos casados realmente, e vai deserdar ele se esse casamento não for real. Ele me propôs ficarmos casados por um tempo, até ele assumir o poder total da organização deles, e depois ele me libera com um divórcio amigável. — Isso seria quanto tempo? — Clara perguntou, franzindo a testa, preocupada. — Não faço a menor ideia — Manuela admitiu, dando de ombros. — Mas tem um lado bom nessa história maluca toda. Clara soltou uma risada sarcástica, incrédula. — E tem lado bom em virar esposa de um mafioso do nada, Manuela? — Pensa comigo: casada com um mafioso italiano, eu não preciso me casar com o desgraçado do Maurício que o meu pai escolheu. Meu pai nunca vai conseguir me forçar a voltar para o Brasil estando legalmente casada com alguém de uma família que parece controlar metade da Europa. E tem mais: esse idiota do Diogo não vai poder me tocar, me trair ou me proibir de fazer algo. Foram as condições exatas que eu impus para aceitar tudo isso. Ele aceitou termo uma relação puramente de fachada. Clara olhava para a amiga, chocada com a velocidade com que Manuela conseguia virar o jogo a seu favor, mesmo nas piores situações. — E a condição mais importante de todas — Manuela continuou, segurando as mãos de Clara com firmeza, olhando-a nos olhos. — Você vai comigo. Eu não vou sozinha passar essa aventura sem você de jeito nenhum. Já avisei para ele que você é o pacote completo. Clara abriu um sorriso imenso, os olhos marejados de emoção. — Ah, pensei que você ia se esquecer de mim e me deixar aqui em Las Vegas. — Jamais! Eu nunca vou esquecer da minha irmã. Você sabe que é mais minha irmã do que a minha própria irmã de sangue. — Eu sei disso — Clara respondeu, puxando-a para um abraço rápido e apertado. Ao se afastar, ela notou um brilho diferente na expressão de Manuela. — Espera aí. Tem mais alguma coisa, não tem? — Ainda tem mais — Manuela sorriu de canto, uma expressão genuinamente travessa surgindo em seu rosto. — Ainda tem mais? O que foi? Manuela enfiou a mão na bolsa de couro, tateou o fundo e tirou o cartão preto e dourado que pertencia ao patriarca dos Falconi. Ela o segurou entre os dedos e balançou diante dos olhos de Clara, como se fosse um troféu de guerra. — Sim. O pai dele está totalmente ao meu lado. Se o Diogo fizer qualquer coisa fora da linha, ou fizer algo que me desagrade, eu posso pedir ajuda diretamente para o meu sogro. O velho praticamente me deu passe livre e disse que me apoia acima de tudo porque conhece a peça que tem como filho. Clara soltou uma gargalhada alta, chamando a atenção de algumas pessoas que passavam pelo corredor do cassino. Ela balançou a cabeça, olhando para o cartão com uma mistura de respeito e diversão. — Meu Deus, Manu... Estou com pena desse pobre coitado. Você vai tripudiar nesse casamento, não vai? — Digamos que vai ser interessante — Manuela comentou, guardando o cartão de volta no lugar seguro com um estalo satisfeito. — Ainda mais depois de ele se achar a última bolacha Trakinas do pacote. Ele pode ser até bonitinho, mas vir insinuar que eu me aproximei dele por interesse, que eu o obriguei a se casar por causa da aparência, do dinheiro ou da posição dele? Ah, por favor. Ele se acha muito. Vai ser bom abaixar a crista daquele herdeiro mimado. Clara pegou o braço de Manuela, guiando-a de volta na direção da saída do cassino. O clima de pânico havia sumido por completo, dando lugar a uma sensação de cumplicidade e adrenalina pura. — Vai ser divertido. Viva a Itália! — Clara exclamou quando chegaram ao café do hotel, erguendo um copo de suco de laranja que estava sobre a mesa que escolheram para sentar. Manuela sorriu, erguendo seu copo de água, os olhos brilhando com o desafio que a aguardava do outro lado do mundo. — Viva.






