Mundo ficciónIniciar sesión— Quem ela pensa que é? — Diogo sibilou para as paredes vazias da suíte presidencial, o silêncio do quarto apenas destacando o eco da sua própria indignação.
Ele caminhou até a mesa de cabeceira, pegou o papel timbrado com força e leu o nome impresso pela décima vez, fixando cada letra em sua mente: *Manuela Garcia*. O documento parecia queimar seus dedos, mas ele recusava-se a desviar o olhar. A audácia daquela brasileira havia quebrado qualquer resquício de sua paciência. — Me chantagear... Ah, Manuela Garcia, você vai pagar caro por essa ousadia — Diogo murmurou, os nós dos dedos ficando brancos ao amassar levemente a borda da certidão. — Como assim eu não sou o seu tipo? Eu sou o tipo de mulher que eu quiser. Qualquer uma. E com você não vai ser diferente. Um sorriso arrogante e perigoso começou a desenhar-se em seus lábios. Diogo não aceitava rejeição, muito menos de uma desconhecida que havia acordado em sua cama usando o nome de seu pai como escudo protetor. O desafio estava lançado, e sua mente competitiva já arquitetava o contra-ataque. — É isso... — ele disse para si mesmo, jogando o papel de volta na mesa de mogno. — Vou te deixar perdidamente apaixonada por mim. Quero ver se depois disso você vai querer ir embora. Se meu pai quer herdeiros para garantir o legado dos Falconi, eu vou dar esses herdeiros a ele. Mas nos meus termos. Não vai demorar nem trinta dias e Manuela Garcia vai estar completamente rendida, implorando pela minha atenção. Ele não perderia aquela disputa de egos. Decidido a tomar as rédeas da situação, Diogo pegou o telefone criptografado de cima da cama e discou um número internacional, direto para o seu principal especialista em inteligência na Europa. — Flaco — Diogo ordenou assim que a ligação foi completada, o tom de voz cortante. — Investigue Manuela Garcia. Ela é brasileira. Quero tudo o que você puder descobrir sobre ela. Família, posses, histórico, passados... e, principalmente, os pontos fracos. Quero o relatório completo na minha mesa ainda hoje. Não me falhe. Desligou sem esperar uma resposta formal. Flaco sabia que quando o herdeiro dos Falconi pedia algo com aquela urgência, o mundo parava até que a informação fosse entregue. Poucos minutos depois, o telefone em sua mão vibrou. Desta vez, era Matteo, o chefe da escolta que ele havia colocado no encalço de Manuela pelas ruas de Las Vegas. — Fale, Matteo — Diogo atendeu, caminhando até a imensa janela de vidro que dava vista para a avenida principal. — *Signor* Diogo, a sua esposa e a amiga acabaram de sair da sala de segurança do cassino principal — Matteo relatou, mantendo a voz profissional ao fundo do barulho do tráfego de Vegas. — Pelo que nossos homens conseguiram apurar com os funcionários internos, elas solicitaram as imagens das câmeras de monitoramento da noite anterior. Estavam tentando refazer os passos da madrugada. Diogo soltou uma risada ríspida, o peito subindo e descendo com o divertimento cínico da situação. — Cassino... Interessante — ele comentou. — Continue seguindo as duas e fazendo a segurança de perto. Se notar qualquer movimentação estranha ou se achar necessário, peça reforços para a filial local. Não deixe que absolutamente ninguém se aproxime delas de forma suspeita. Ela agora é a minha esposa, Matteo, e eu não quero escândalos no meu nome ou no nome da minha família. — Entendido, senhor. Manteremos o perímetro fechado ao redor delas — Matteo garantiu antes de encerrar a chamada. Diogo guardou o aparelho no bolso da calça, cruzando os braços enquanto observava o movimento distante lá embaixo. — Então a minha esposinha está querendo descobrir o que aconteceu na noite passada... — ele sussurrou, achando graça da óbvia tentativa de Manuela de encontrar uma saída jurídica ou uma prova de que fora enganada. Para tirar qualquer dúvida da sua própria mente, Diogo ligou para outro de seus soldados de confiança no hotel, um especialista em rastreamento digital e rotinas. — Quero o meu relatório completo das últimas vinte e quatro horas — Diogo exigiu. — Passos, pagamentos, locais e, principalmente, o nível de consumo de álcool no bar do cassino. Quero saber exatamente como fomos parar naquela capela. O soldado trabalhou rápido, cruzando os dados dos recibos do cartão de Diogo com os horários de circulação no Bellagio. Quando o relatório detalhado foi enviado para o celular de Diogo, o herdeiro leu cada linha com atenção redobrada. Não havia armadilhas, não havia terceiros envolvidos e, para o seu próprio espanto, nenhuma substância ilícita havia sido colocada nas taças. Foi apenas coincidência. O destino, em uma jogada bizarra, colocou duas pessoas desesperadas por liberdade no mesmo balcão de bar. Ambos beberam além da conta, dividiram suas frustrações familiares e cometeram a estupidez monumental de assinar um compromisso real diante de um imitador de Elvis. Diogo jogou o corpo para trás no sofá de couro, soltando uma gargalhada genuína que ecoou pelo quarto luxuoso. — Parece que o destino foi muito bom comigo no final das contas — ele admitiu para si mesmo, o humor mudando drasticamente. — Me enviou uma esposa sob medida, sem eu ter o menor trabalho de procurar ou aguentar os jantares chatos que meu pai planejava na Itália. Ele se levantou, a dor de cabeça agora completamente esquecida, substituída pela adrenalina do planejamento. Se Manuela achava que ditaria as regras daquele casamento de fachada, ela estava redondamente enganada. Ele usaria a teimosia dela a seu favor. Diogo abriu a porta da suíte e chamou um de seus guardas mais próximos que fazia o plantão no corredor. — Santino — chamou. — Sim, *signor* Diogo — o soldado deu um passo à frente, endireitando a postura. — Procure por Matteo imediatamente. Descubra o nome completo da amiga da minha esposa, aquela que está hospedada com ela. Preciso que prepare o passaporte e a documentação de viagem para as duas. Amanhã à noite, impreterivelmente, nós voltaremos para a Calábria. — Providenciarei isso agora mesmo com os nossos contatos no consulado, senhor — Santino assentiu, anotando mentalmente as ordens. — E tem mais uma coisa — Diogo completou, a voz firme de quem já visualizava os próximos passos no continente europeu. — Ligue para a administração da nossa propriedade na Calábria. Mande prepararem uma residência confortável perto da nossa vila principal. A amiga da minha esposa vai morar conosco na Itália, e quero que ela tenha uma estrutura própria para que Manuela se sinta confortável... e sem desculpas para querer voltar. — Será feito, senhor. Mais alguma ordem? — Por enquanto é só. Vá. Santino fez um breve aceno com a cabeça e se retirou pelos corredores do hotel para cumprir as funções. Diogo voltou para o interior do quarto, caminhando até a mesa e pegando novamente o cartão dourado da família Falconi que seu pai costumava usar como símbolo de poder absoluto. Ele girou o objeto entre os dedos, o metal frio contrastando com a determinação quente que corria em suas veias. Manuela Garcia achava que tinha uma carta na manga por ter ganho a simpatia de Vitório Falconi. Ela achava que suas regras de não ser tocada ou proibida de fazer algo durariam muito tempo em território calabrés. Mas Diogo conhecia as regras daquele jogo muito melhor do que ela. Ele a traria para o seu mundo e, dentro daquela fortaleza, mostraria quem realmente ditaria o ritmo das coisas. — Manuela Garcia... — Diogo sorriu de canto, um brilho predatório surgindo em seu olhar enquanto guardava a certidão de casamento no bolso interno do paletó. — Você teve o azar de cruzar o meu caminho na noite passada. E, se depender de mim, você talvez nunca mais consiga sair dele.






