Parada mó estranha, meu. A mina ficou toda esquisita só de eu chegar perto, fingiu que não me conhecia de nada, mas eu já entrei no joguinho dela. Uma hora ou outra eu pego ela sozinha, e aí a gente conversa direito.
Só fiquei com ela uma única vez na vida, mas foi o suficiente para não tirá-la da minha cabeça durante todos esses anos. Pensei que nunca mais fosse ver o rosto dela, nunca mais fosse saber nem se estava viva. Como o mundo é pequeno, cara...
Uns anos atrás, tinha um baile rolando na favela que o meu pai comanda. Foi lá que eu a vi pela primeira vez. Quando ela entrou na quadra, o meu olhar bateu no dela na mesma hora, foi algo que não sei explicar. Ela era linda, tinha um brilho que chamava atenção por onde passava, mesmo sem querer. E hoje, olhando ela ali na minha frente, vejo que o tempo só fez bem: ficou mais mulher, mais bonita, está ainda melhor do que eu lembrava.
Fiquei lá, de longe, olhando ela por horas. Estava completamente encantado com o sorriso dela, com o jeito dela, com tudo. Já estava ficando maluco só de olhar. Aí, quando começou o rojão e os fogos foram lançados, o povo saiu correndo para todo lado. Eu só pensei em tirá-la dali, em chegar perto. Desci do camarote correndo para tentar alcançá-la, mas com a confusão toda, acabei perdendo ela de vista no meio da multidão.
Corri aquela favela inteira, não me importei com os tiros que estouravam para todo lado, nem com o perigo. A minha única vontade era encontrá-la de novo. Quando avistei o vulto dela, percebi logo o desespero no jeito que ela andava. Entrei num beco apertado que dava saída para a rua, e por sorte, ela entrou lá em seguida, quase batendo de cara comigo. O corpo dela se chocou contra o meu, e ela ficou parada, me olhando, tão em choque quanto eu. Na hora, segurei no braço dela e saí puxando-a, rápido, até um barraco pequeno que eu tinha ali perto, que só eu sabia onde era.
Lá dentro, vi que ela era uma mulher muito à vontade, falava pelos cotovelos, contava tudo o que vinha na cabeça. E o engraçado é que eu gostei daquilo, de ouvir a voz dela. Deixei rolar, e para vocês terem ideia do quanto aquilo foi diferente para mim, eu dei o meu nome verdadeiro. Isso mesmo: Guilherme. Só os meus pais e o LK sabem o meu nome de verdade, o resto do mundo me conhece só como Grego.
Foi uma parada mó estranha o que eu senti com ela naquele dia. Tive a melhor transa da minha vida, sem exagero nenhum. Nossos corpos se encaixavam perfeitamente, parecia que a gente já se conhecia há anos. Cada vez que eu tocava ela, sentia o meu corpo todo vibrar em resposta, uma coisa que nunca senti por nenhuma outra mulher. Hoje, quando olhei ela ali na minha frente, senti a mesma coisa, o mesmo fogo subindo. Nunca fiquei assim com ninguém, não é possível... essa desgraçada deve ter me jogado algum feitiço, macumba, coisa assim. Só pode ser.
Depois daquela noite, fiquei dias procurando ela por tudo quanto é canto, perguntando para todo mundo. Mas a única coisa que eu sabia era o primeiro nome: Vitória. Conforme os dias foram passando, fui vendo que era impossível encontrá-la. Não tinha endereço, não tinha telefone, nem foto, nem nada. Só o nome, que é o mais comum que existe. E por ironia do destino, hoje ela aparece aqui, do nada, sete anos depois, só para fuder com o meu psicológico de vez.
Saio dos meus pensamentos quando os manos começam a falar alto demais, me tirando do transe.
— Cê é louco, cara? Cês viram a novata que chegou ali com o LK? — diz o Rato, um dos soldados de confiança.
— Mó gata, hein... — comenta o Carioca, com aquele sorrisinho de canto.
— É mó cara de quem vem de outro mundo, parece ser até médica, pelo que o povo está falando. Esquece, vocês acham que uma mina daquelas vai dar moral para nós, que vivemos de guerra? — fala outro, duvidando.
— Ah, para com essa cara de otário... cê sabe muito bem que elas gostam mesmo é de quem não presta, de quem tem poder. E outra: com aquela aí, eu até casava, nem pensava duas vezes — diz o Guto, todo convencido.
Essa conversa já está me enchendo o saco, sério. Estou quase explodindo de raiva com cada palavra que sai da boca deles.
— Pago para vocês ficarem aí sentados igual mulher à toa, é? Arrumem o que fazer, cambada! — meto logo um serinho para acabar com o assunto, mas o Rato não se toca.
— Porra, chefia, mas cê viu a gostosa que apareceu aqui na favela? Que mulherão da porra...
— Rato, na moral, vai para o seu posto, cumpre a sua função. Hoje eu não estou com saco para conversa mole, não.
Logo em seguida o LK chega perto, e já sei que a conversa vai render mais, e que eu vou me irritar ainda mais.
— Aí, o gostosão de Paraisópolis chegou, para alegria das meninas e desespero dos inimigos — ele zomba, chegando todo solto.
— LK, apresenta essa gostosa direto para nós, aí... — provoca o Marquinho.
— Ih, mermão, aquela mina ali não é para o seu bico, não. Pode ir tirando o cavalo da chuva.
— Qual é, LK? Está me zuando, é?
— Você viu o mulherão? Ainda por cima é formada, médica, inteligente... cê acha que ela vai dar moral para um zé-ninguém como você? Para de sonhar, menino.
— Porra, mano, desenrola essa fita aí para nós, arruma um jeito...
— Se não fosse ela ser amiga da Lavínia, e uma mulher de respeito, até eu tentava investir. Mó gata, papo da hora, inteligente... mas já era, não vou fazer feio.
Já deu para mim, na moral. Melhor cortar logo esse papo antes que eu perca a linha de vez.
— Vamos, cambada! Ou é atividade ou é desconto no pagamento de vocês. Sumam daqui!
Só assim para fazer esses fuleiros pararem de falar besteira. Eles saem reclamando, mas obedecem. Fico só eu e o LK, que me encara calado, esperto como sempre. Sei muito bem que ele percebeu o clima estranho que ficou lá no restaurante do seu Zé.
— Está assim, calado e emburrado, por quê? — ele pergunta, direto ao ponto.
— São umas paradas aí que eu tenho para resolver, nada não.
— Vai, mano, solta a voz. Eu vi que você estava quase pegando fogo com o que os menor estavam falando. Te conheço não é de hoje, irmão... cê estava soltando fogo pelas ventas, parecia que ia queimar todo mundo ali.
— É ela... — falo baixo, e ele me olha sem entender nada. — A mina da invasão, a do baile de anos atrás. É a mesma.
— Cê é louco, cara?! Por isso ela ficou daquele jeito, pálida, tremendo? Juro que pensei que a mina ia infartar ali mesmo.
— Eu estava me segurando para não falar nada na frente de todo mundo. Você sabe que procurei por ela mó tempo, né? Quase enlouqueci atrás de pista.
— E como sei, irmão... nunca te vi daquele jeito por mulher nenhuma. E aí? O que vai fazer? Vai chegar junto, falar com ela?
— Pô, nem sei... mas uma coisa eu tenho certeza: eu preciso trocar uma ideia com ela, preciso entender essa história toda.
— Ela tem duas crias, cê viu, né? Um menino e uma menina. Não sei se ela é casada ou tem alguém, a Lavínia não me contou nada sobre isso, só disse que ela veio para cá para trabalhar.
— Vou descobrir essa fita aí, de um jeito ou de outro.
— É nós, mano. O que precisar, pode contar.
Sempre foi assim: eu por ele, e ele por mim, desde pequenino. Os meus pais criaram o LK como filho, de verdade. Os pais dele morreram quando ele tinha só sete anos, foram executados na frente dele, numa traição suja que até hoje me dá nojo. Com apenas dez anos, ele mesmo caçou e matou os envolvidos, todos... só faltou um. Há anos que a gente corre atrás do Rex, que na época era braço direito do meu pai. Tudo isso por inveja da amizade que o meu pai tinha com o pai do LK, o Mathias, que era um homem trabalhador, honesto, que não se metia com nada de errado. Só descobrimos quem foi o mandante porque o LK escapou com vida, para contar a história.
Por esse cara, eu mato e morro. Aqui é irmandade, sangue, ele sempre será o meu irmão, mais do que muitos que têm o mesmo sangue que eu.