####CAPÍTULO 02

DECISÃO ESTRATÉGICA

Julie entrou na sala logo após a saída de Oliver, fechando a porta atrás de si como se aquele espaço ainda fosse um território seguro para ambos.

— O silêncio que pairava na atmosfera, após a leitura do testamento, trazia um peso significativo; entretanto, ela parecia imune a essa pressão, demonstrando apenas curiosidade.

— E então? Como foi? Você herdou tudo?

Charles soltou uma risada curta, marcada pela irritação.

— Nada. E para piorar, ainda preciso me casar.

Surpresa, Julie ergueu as sobrancelhas.

— Sério?

— Sério. Se você não fosse casada, poderíamos resolver isso facilmente, não é?

Ela se aproximou, envolvendo os braços ao redor dele de forma íntima, como se essa conexão pudesse suavizar as dificuldades à sua frente.

— Você sabe que estou com o Oliver só por causa do dinheiro. Quem eu amo é você. Quando você herdar tudo, eu peço o divórcio e nos casamos.

Segurando-a pela cintura, Charles a olhou fixamente, sua expressão uma combinação de determinação e desespero.

— Por enquanto, terei que arranjar alguém para casar.

— Já tem alguém em mente?

Ele esboçou um sorriso frio, como se uma ideia arrepiante estivesse por vir.

— Tenho um plano melhor. Estou embarcando hoje para o Brasil, em Fernando de Noronha.

— Vou encontrar uma pobretona por lá, iludí-la e trazê-la como minha esposa.

Julie riu, divertindo-se com a frieza dele, mas a gravidade da situação a atingiu como um raio. — Você é cruel.

— Não sou cruel, sou pragmático, é como escolher a rota mais rápida para um destino: se a herança só vem com o casamento, então vou unir o útil ao agradável.

Ambos riram juntos, aproximando-se mais e se beijando sem qualquer receio, ignorando que a porta não estava completamente fechada.

— A secretária, ao se aproximar, testemunhou a cena e hesitou por um instante, balançando a cabeça em desaprovação silenciosa.

Lembrou-se de Oliver, mas não teve coragem de expressar algo que pudesse custar seu emprego.

Decidiu agir como se nada tivesse visto e bateu na porta com firmeza.

— Senhor Charles, sua viagem… O doutor Oliver está lhe chamando para discutir a reunião de hoje à tarde.

Charles afastou-se de Julie de maneira descontraída, como quem não se preocupa com a tempestade que se forma ao seu redor.

— Tudo bem, já estou indo até ele. E cancele todos os meus compromissos. Estarei fora por cerca de dois meses.

A secretária hesitou por um momento, como se uma nuvem de surpresa tivesse coberto seu rosto ao ouvir sobre a repentina mudança nos planos.

— Dois meses fora?

— Sim. Estou indo buscar minha noiva. Prepare o jato particular com destino a Fernando de Noronha. Avise ao piloto e à equipe que precisam estar prontos imediatamente. E faça a reserva na Pousada Maravilha.

— Sim, senhor.

Ele saiu sem olhar para trás, deixando Julie sozinha na sala, como um barco que navega distante de uma costa familiar. Assim que a porta se fechou, ela cruzou os braços, observando a direção para onde a secretária havia ido.

— Será que ela viu?

Charles manteve o ritmo acelerado, sem desacelerar o passo.

— Não. Você não percebeu que ela bateu antes de entrar?

Julie, sem conseguir encontrar uma resposta, fixou o olhar nele enquanto se afastava. Charles seguiu em direção à sala de Oliver, adentrando sem pedir permissão, um hábito típico seu.

— Não participarei da reunião, pois estou viajando para o Brasil.

Oliver levantou os olhos dos documentos que analisava, sem pressa aparente.

— Viajando para o Brasil? Até agora, nada estava agendado.

— Estou indo buscar minha noiva. Ficarei cerca de dois meses lá, resolvendo o visto e toda a documentação. Quando eu voltar, voltarei casado.

Oliver apoiou-se na cadeira, examinando Charles com interesse.

— Não sabia que você estava noivo.

— Na verdade, você não está por dentro de muita coisa. Eu só namoro essa brasileira, mas prometi que a buscaria. E é exatamente isso que vou fazer agora.

Um silêncio breve, mas carregado de avaliação mútua, encheu a sala.

— Então você não participará de nenhuma reunião nesse período?

— Não. Você resolve tudo. Só estou avisando.

Oliver assentiu, nada surpreso com a decisão de Charles.

— Então, envie o jato assim que chegar. Em três dias, preciso estar na Alemanha e não usarei meu próprio avião para isso. O jato da empresa é mais prático.

Charles já se virava para sair, a convicção em seu passo evidente.

— Não se preocupe. Assim que eu chegar, o jato volta.

Sem esperar resposta, deixou a sala com determinação, seu passo firme como o de um maestro que controla uma orquestra, convencido de que tudo estava em harmonia.

Para ele, a situação parecia estar perfeitamente sob controle, como um avião em voo tranquilo, seguindo seu curso planejado.

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