Mundo ficciónIniciar sesiónLEITURA DE TESTAMENTO
— Oliver, o que você está fazendo aqui, na leitura do testamento do meu pai? A pergunta saiu carregada de impaciência assim que atravessei a porta do escritório e o encontrei ali, sentado com aquela calma irritante de sempre, como se tivesse todo o direito de ocupar aquele espaço. Meus olhos percorreram rapidamente os empregados mais antigos da mansão, reunidos em silêncio, cabisbaixos, quase servindo de moldura para a cena. — Estavam ali como testemunhas discretas, prontos para agradecer qualquer migalha que meu pai tivesse decidido deixar. Mas Oliver… Oliver era outra história, os empregados eu entendia; meu pai sempre gostou de bancar o generoso diante de quem o servia. — Agora, Oliver está ali, sentado como se fosse parte da família principal, isso eu não estava disposto a aceitar com naturalidade. Ele levantou os olhos para mim sem demonstrar o menor incômodo com o meu tom. — Sei tanto quanto você — respondeu, com a serenidade que sempre me pareceu uma provocação. A tranquilidade dele me irritou ainda mais. — Os empregados, tudo bem, mas você… eu não estou entendendo. Oliver descruzou as mãos devagar, mantendo a postura serena que parecia ensaiada. — Assim que o advogado chegar e começar a leitura, nós vamos descobrir, porque eu também não sei. A resposta me arrancou um riso curto, frio, sem humor, sempre daquele jeito controlado, sempre posando de homem ponderado, equilibrado, como se nunca tivesse se beneficiado do fato de ter sido criado dentro da minha casa, de ter recebido do meu pai uma atenção que muitas vezes pareceu maior do que a que me era dada. Antes que eu dissesse qualquer outra coisa, a porta se abriu e o advogado entrou com uma pasta de documentos nas mãos e a expressão profissional de quem não estava ali para medir ânimos. — Estão todos presentes? — perguntou, lançando um olhar rápido pelo ambiente. Olhei ao redor com ironia. — Até os empregados estão aqui, meu pai, pelo menos depois de morto, resolveu fazer caridade. Alguns deles abaixaram a cabeça imediatamente, constrangidos, como se o simples fato de respirarem no mesmo cômodo fosse uma afronta, nenhum ousou responder. — O advogado, abriu a pasta e iniciou a leitura com a solenidade de quem sabia que, dali em diante, cada palavra pesaria mais do que qualquer gesto de luto. Primeiro vieram os empregados, meu pai, em sua eterna necessidade de parecer justo e magnânimo, havia destinado quantias consideráveis a alguns dos funcionários mais antigos da casa e das propriedades. — Valores suficientes para garantir aposentadorias confortáveis, além de pequenos imóveis para dois deles, que serviam desde antes da morte da minha mãe. Houve emoção contida, olhos marejados, cabeças inclinadas em gratidão silenciosa. — Eu permaneci ali, suportando aquilo com paciência cada vez mais desgastada, esperando que finalmente chegássemos ao que realmente interessava. Quando o advogado passou aos bens da família, endireitei a postura. — A mansão principal seria minha, assim como alguns apartamentos, uma quantia elevada em dinheiro que correspondia à parte da herança materna e duas empresas lucrativas, embora não fossem as joias mais valiosas do grupo. — Até ali, tudo parecia minimamente aceitável. Era menos do que eu esperava, mas ainda era o reconhecimento óbvio de que eu era filho. — O problema começou quando o nome de Oliver surgiu de maneira muito mais robusta do que deveria. As três maiores empresas, os ranchos e a administração plena da parte mais sólida do império seriam entregues a Oliver Chamberlain Blackouts. — Além disso, ele receberia a mesma quantia em dinheiro que me fora destinada, como se estivesse sendo tratado não como sobrinho, mas como herdeiro direto, em igualdade comigo. — Meu maxilar se contraiu tanto que por um instante achei que fosse esmigalhar os dentes. — Era só o que me faltava — murmurei, com veneno escorrendo pela voz. Oliver virou o rosto lentamente em minha direção. — Era só o que te faltava o quê? Soltei uma risada seca, amarga. — Além de fazer caridade e deixar pequenas fortunas para os empregados, ele ainda está dividindo a minha herança com você. Oliver sustentou meu olhar sem pressa, sem se alterar, como se já esperasse exatamente aquela reação. — O titio não está dividindo nada comigo, ele apenas está devolvendo o que já era meu. Diferente de você, que precisa dessa herança porque nunca gostou de trabalhar, eu trabalho. — E tenho muito mais dinheiro do que essa herança que ele está deixando para mim, que era dos meus pais e que ele apenas administrou durante todas essas décadas. O modo como disse aquilo, sem elevar a voz, sem perder a compostura, foi ainda pior do que se tivesse gritado. — Era aquela superioridade tranquila que sempre me deu vontade de arrancar do rosto dele com as próprias mãos. Mas Oliver nunca precisou se exaltar para vencer uma disputa; bastava lançar os fatos sobre a mesa e agir como se estivesse acima de qualquer conflito. — Foi exatamente o que fez ao se levantar logo em seguida, ajeitando o paletó com a calma irritante de sempre. — Tenho mais o que fazer, vou para minha sala, tenho muito trabalho. Não pediu licença. Não esperou resposta. Simplesmente saiu, como se já tivesse dito tudo o que precisava dizer e nada naquele escritório merecesse mais o tempo dele. — A porta se fechou atrás dele, e pela primeira vez desde o início da leitura, o ambiente pareceu realmente apertado. O advogado então voltou a atenção para mim e fechou parte dos documentos antes de falar num tom mais direto, como se o que vinha a seguir não devesse ser dito diante de todos. — Há mais uma cláusula, senhor Charles. Meu olhar se fixou nele. — Seu pai determinou que, dentro de sessenta dias, o senhor deve estar casado. Além disso, esse casamento deverá ser mantido até completar um ano. Caso o senhor não cumpra essa exigência, perderá tudo, exceto o dinheiro já depositado em sua conta. Fiquei imóvel por alguns segundos, não por falta de compreensão, mas porque até eu precisei de um instante para absorver o grau de controle que meu pai ainda pretendia exercer sobre a minha vida, mesmo depois de morto. O advogado prosseguiu, sem suavizar nada: — Nesse caso, os bens materiais, inclusive as duas empresas destinadas ao senhor, passarão para Oliver, que já administra não apenas as empresas que seu pai lhe confiou, mas também o que já era dele por direito. Passei a língua pelos dentes, sentindo o gosto amargo da humilhação subir pela garganta. — Até isso… eu vou ter que casar. As palavras saíram baixas, carregadas de incredulidade e raiva, enquanto eu encarava os documentos diante de mim como se ainda houvesse alguma chance de aquilo ser um erro grotesco de interpretação. Mas não era, meu pai havia encontrado um jeito de continuar me impondo condições mesmo do túmulo.






