Mundo de ficçãoIniciar sessão
Dahlia
“Querido, vamos!” falo com pressa. “Já estamos atrasados e não posso tomar outra advertência do meu chefe.”
Leo dá uma corridinha com suas pernas ágeis e segura com firmeza a minha mão.
“Por que o seu chefe é tão duro com você, mamãe?” Leo pergunta curioso.
Porque ele é um velho gordo imprestável que fez a minha escala de trabalho uma merda só para me ver sofrer.
“Eu não sei, meu anjo. Mas vamos, já estamos chegando na sua escola,” respondo ofegante.
Atravessamos a rua e, assim que chegamos na frente do portão, ajeito melhor o uniforme do Leo e o seu cabelo.
“Agora se comporte, está bem? Nada de arrumar confusão. Preste atenção direitinho na professora,” peço com a voz dócil.
“Pode deixar, mamãe,” Leo responde entusiasmado.
Despeço-me dele com um beijo em sua testa. Observo-o passar pelo corredor e, quando já estou para ir embora, a professora dele surge no portão.
“Dahlia, precisamos conversar,” ela diz, séria.
“Sinto muito, já estou muito atrasada para o meu trabalho,” respondo com pressa. “Prometo que conversaremos quando eu vier buscá-lo.”
Não dou tempo para ela me responder, já me afasto do portão com passos rápidos.
Assim que chego ao meu serviço, respiro aliviada por ver que meu chefe não está e só me atrasei cinco minutinhos.
“Onde ele está?” pergunto, ofegante, para minha colega de trabalho.
“Reunião com os fornecedores, mas ele perguntou de você também,” ela responde com humor.
Reviro os olhos e ajeito meu uniforme no corpo.
“Esse cara não larga do meu pé,” reclamo. “Pedi inúmeras vezes para ele colocar meu horário meia hora mais tarde. É muito difícil conseguir chegar a tempo quando tenho que levar o Leo para a escola.”
“Você sabe o que precisa fazer para conseguir essa meia hora, Dahlia,” minha colega responde com malícia na voz. “E se fizer direito, até pode ganhar um aumento.”
“Prefiro morrer do que me deitar com aquele homem,” respondo com uma careta.
“Você é mãe, deveria pensar no Leo. Além do mais, uma dica...” minha colega diz com a voz mais baixa. “É só você imaginar que é um homem gostoso na hora H. Pense em algum ex-namorado seu que sabia transar bem.”
Sinto minhas bochechas queimarem com suas palavras. Sou mãe do Leo, mas não porque eu o concebi do meu ventre. Minha irmã Liliane é a mãe biológica. Quando Leo tinha pouquíssimos meses de vida, ela o largou comigo e foi embora. Eu tinha dezessete anos na época.
Cuidar de um recém-nascido quando se tem dezessete anos não deu margem para me envolver com ninguém. E agora, oito anos depois, com um emprego que paga mal, é ainda mais difícil ter tempo para namorar.
“Nem se eu imaginasse o homem mais gostoso do mundo, eu faria isso,” retruco com uma risada.
Não irei perder minha virgindade por causa de meia hora e uma merreca de aumento. Tenho princípios e bom senso.
O trabalho ocorre normalmente e evito, durante todo o expediente, as investidas do meu chefe. Porém, no fim do expediente, ele me encurrala para conversarmos a sós.
“Preciso que você chegue mais cedo amanhã, preciso que você cubra o turno de uma funcionária,” ele diz com firmeza.
“O quê? É impossível! Preciso levar Leo para a escola,” respondo decidida.
“Tudo é impossível para você, Dahlia. Chegar no horário é impossível. Ficar mais tarde é impossível. Chegar mais cedo é impossível,” ele rebate com acidez. “Parece impossível para você trabalhar aqui. Talvez seja melhor eu te mandar embora, o que acha?”
Sua ameaça gela o meu coração. Preciso do emprego. Preciso muito.
“Não, não. Não será necessário isso. Eu venho mais cedo amanhã,” respondo contrariada.
Meu chefe abre um sorriso malicioso que revira o meu estômago.
“Ótimo, é isso que eu gosto de ouvir sair da sua boquinha linda,” ele diz.
Seguro a minha ânsia de vômito e saio de perto dele o mais rápido que consigo. Preciso encontrar um outro emprego o mais rápido possível. Não posso continuar nessa.
Mas que tipo de emprego eu conseguiria sem ter um diploma? Larguei a escola faltando pouco para me formar porque precisava cuidar do Leo.
Chego à escola do Leo alguns minutos atrasada. Encontro-o sentado em um banco perto do portão com a professora.
“Podemos conversar agora, Dahlia?” A professora indaga com a voz seca e dura.
Franzo o cenho para ela e afirmo com a cabeça. Percebo que meu filho está com o rosto cabisbaixo, olhando para o chão, constrangido.
“Meu anjo, fique aqui, está bem? Mamãe já vem,” digo com a voz suave.
Acompanho a professora para um canto mais reservado.
“Aconteceu alguma coisa, professora?” indaga, preocupada.
Ela solta um suspiro longo e pesado. Sinto meu corpo entrar no modo de alerta.
“Dahlia, Leo é um menino muito comunicativo. Sempre participou das atividades em grupo”, ela diz com a voz branda. “Mas ultimamente, ele tem demonstrado um comportamento mais agressivo. Hoje mesmo ele reagiu de forma violenta com um colega dele.”
Olho para ela, assustada com o relato. Giro o meu rosto para olhar para o Leo e não consigo associar o meu doce menino com um menino violento.
“Violento como? O que aconteceu?” questiono, preocupada.
“Um coleguinha dele pegou o estojo dele e jogou no lixo. Ficou implicando com Leo, coisas de crianças. A reação do Leo foi morder o menino e arranhá-lo. Tive que separá-los e levar o coleguinha na enfermaria”, a professora explica, aterrorizada.
Franzo o cenho para ela e o choque estampado em meu rosto.
“Se ele continuar com esses comportamentos, Dahlia, teremos que suspendê-lo e no ano que vem não poderemos aceitá-lo conosco,” a professora declara com firmeza.
“Por favor, não façam isso. Leo gosta muito dessa escola,” suplico com nervosismo. “Eu irei conversar com ele, prometo.”
Despeço-me da professora e pego o Leo pela mão. Todo o trajeto para casa, ele fica quieto, retraído.
“Quer me contar o que aconteceu na escola?” pergunto com a voz gentil.
Leo, por sua vez, nega com a cabeça, mantendo o olhar abaixado. Ele é um menino dócil de oito anos de idade. Não sei o que poderia estar acontecendo para ele reagir assim de repente.
Assim que chegamos na frente de casa, vejo na nossa caixa de correios novas correspondências, uma se destaca mais que as outras e isso acelera meu coração. Pego as correspondências e leio atentamente a carta vermelha.
Ordem de despejo por contas atrasadas.
“Está tudo bem, mamãe?” Leo pergunta curioso.
Balanço a cabeça, confirmando que sim. Preciso manter a calma e não surtar com ele por perto.
“Vai lá tomar banho e trocar de roupa enquanto preparo o seu jantar,” digo por fim.
Leo corre para o quarto e eu me sento na mesa da cozinha. Espalho as contas atrasadas e a carta de despejo. Como é que eu vou resolver isso tudo?
Organizo as contas mais urgentes para pagar e estou tão distraída com isso, que não ouço o Leo se aproximando.
“Mamãe,” ele me chama ao meu lado.
Tomo um susto que quase pulo da cadeira.
“Menino! Você quer matar sua mãe do coração? Como é que você chegou aqui sem fazer barulho?” questiono com o coração acelerado.
O chão de madeira sempre range quando andamos nele, é possível ouvir até mesmo do fundo da casa. Leo encolhe os ombros e seus olhos castanhos me encaram com uma tristeza que atinge a minha alma.
“Mamãe, por que eu não tenho um papai?”
Isso atinge o meu coração como uma flecha. Olho para Leo e não sei como respondê-lo de imediato.







