Mundo de ficçãoIniciar sessãoNarrado por Theo
São Paulo tem dois rostos.
O que sorri nas avenidas largas, nos cafés gourmet e nos prédios com guarita.
E o que sangra nas vielas, nos barracos apertados e nas bocas que calam por medo.
Eu cresci vendo os dois. Mas foi nas vielas que me formei. Não em universidade, mas na escola da sobrevivência.
Helena me acompanhava em silêncio no banco do passageiro. A mão dela estava firme no colo, mas eu percebi: os dedos tremiam. Ainda assim, não reclamou. Não pediu pra voltar. Não olhou o celular. Ela estava ali. Por inteiro.
— Quando chegarmos, fica perto de mim. — avisei. — E não fale com ninguém, por mais que queira. Certas pessoas veem bondade como fraqueza.
Ela assentiu, mas eu sabia: dentro dela, já estava formulando mil perguntas. Professora até nos ossos.
Estacionei o carro duas ruas antes da viela. A polícia não era bem-vinda ali. Nem de farda, nem de civil. Os olhos da rua viam tudo.
E julgavam.
Caminhamos em silêncio. O sol já se escondia entre os prédios, e a noite paulistana se espalhava como um aviso. Eu mantinha a mão no coldre por reflexo. Helena seguia ao meu lado, passos curtos, mas firmes.
— É aqui. — murmurei, parando diante de uma entrada estreita entre dois muros pichados.
No chão, um caderno velho. Rasgado. Com marcas de barro e sangue seco na capa.
Abaixei e peguei. O nome escrito em letra cursiva: Lucas Oliveira da Silva.
Abri com cuidado. As páginas estavam cheias de desenhos. Não monstros ou armas, como a polícia espera encontrar. Mas mapas. Percursos. Esquemas. E frases soltas:
"Eles mandam. A gente obedece."
"Tenho medo de que minha mãe nunca saiba quem eu sou."
"O policial de jaqueta preta sabe demais."
— Meu Deus... — Helena murmurou atrás de mim.
Antes que eu pudesse dizer algo, ouvi o barulho.
Passos rápidos. Três. Quatro.
— Fica atrás de mim! — puxei Helena com o braço e virei de costas para a parede, protegendo-a com o corpo.
Três caras saíram da sombra. Um deles com um canivete na mão. Eram jovens. Muito jovens. O mais velho devia ter vinte. Mas o olhar... era de quem já viu o inferno e fez morada lá.
— Tá perdido, polícia? — o do canivete disse, com um sorriso torto.
— Só vim buscar o caderno. — levantei uma das mãos, mantendo a outra no cabo da arma. — Não quero confusão.
— Esse moleque aí mexeu onde não devia. Se sumiu, foi porque mereceu.
Senti o corpo da Helena enrijecer atrás de mim.
— O que vocês fizeram com ele? — ela perguntou, antes que eu pudesse impedir.
— Aí, professorinha, cuidado com a boca. — o outro respondeu. — Você não conhece as regras daqui.
Dei um passo à frente.
Apontei direto pros olhos dele.
— E você não conhece a minha paciência. Ou recua, ou vai aprender o que acontece quando ameaça alguém que tá comigo.
Silêncio.
Longo. Tenso.
Então, como num acordo mudo, os três recuaram. Um deles cuspiu no chão.
— Vaza daqui, polícia. E leva a professorinha com você.
Antes que vire estatística também.
Voltamos pro carro em silêncio. Só quando Helena entrou, soltou o ar preso.
— Você ia atirar neles, não ia?
— Se encostassem em você, eu não pensaria duas vezes.
Ela me olhou.
Longamente.
Como se quisesse decifrar algo em mim.
— Isso assusta. Mas também... me faz confiar em você.
Eu não soube o que responder.
Ela virou o rosto para a janela, mas disse, quase num sussurro:
— Eles acham que o Lucas viu algo. Algo grande. Talvez uma execução. Talvez um envolvimento policial. A frase "policial de jaqueta preta"... significa algo pra você?
Meu estômago revirou.
Significava.
E mais do que ela imaginava.
Eu sabia de quem ela estava falando.
Um sargento veterano. Ricardo “Negão”. Um dos mais antigos. Sempre de jaqueta preta. Respeitado e temido. Já tinha sido investigado mais de uma vez por envolvimento com grupos de extermínio. Nunca deu em nada. Provas desapareciam. Testemunhas também.
Se o Lucas viu algo...
Ele estava em perigo.
E agora, nós também.
Olhei para Helena, que ainda encarava a cidade lá fora, como se buscasse respostas nos faróis.
Ela não fazia ideia da tempestade que estávamos prestes a enfrentar.
Mas uma coisa era certa:
Agora não era mais só pelo Lucas.
Era pela verdade.
Pela justiça.
E, de algum jeito estranho, por nós dois também.







