CAPÍTULO 3

Com uma última esperança tola de que talvez fosse Vítor, para se desculpar e dizer que tudo não passou de uma brincadeira de mau gosto, peguei o celular, e vi o nome na tela.

"April"

Todos os meus amigos tinham parado de me atender e até me bloqueado quando a notícia da falência da minha família saiu. Mas April estava no exterior; com certeza ainda não sabia.

O medo de ser desprezada por ela também me fez hesitar, mas, ainda assim, atendi.

— Evelyn, como você está? — a voz do outro lado soou preocupada.

— April! — chamei, tentando segurar o choro.

April era minha melhor amiga e, certamente, a única com quem eu podia contar.

— Amiga, eu recebi seu recado. Soube do que aconteceu... Como você está? Onde você está?

— Meus pais... eles morreram, April! — voltei a desabar em lágrimas, ainda incrédula com aquela realidade. — Eu perdi tudo. Eles levaram tudo. Eu não tenho dinheiro nem para o funeral dos meus pais!

— Amiga, eu sinto muito. Eu estou indo para aí.

Olhei à volta: a casa vazia, os objetos quebrados, etiquetas judiciais por todos os lados.

Aquela que outrora fora uma mansão grandiosa agora parecia o cenário de um filme de tragédia.

Eu não queria que ela visse aquilo. Não queria que ninguém visse.

— Não precisa! — respondi, interrompendo-a. — Me mande seu endereço, eu vou até você.

— Claro. Eu estou com o pessoal, não se preocupe. Vamos todos apoiar você nesse momento. Vou mandar o endereço.

— Muito obrigada, April. Eu não sei o que faria sem você.

— Amigas são para isso. Venha logo.

Assim que a ligação se encerrou, senti meu coração se encher de esperança. Talvez eu não estivesse tão sozinha quanto pensava.

Rapidamente me levantei, olhei para os corpos dos meus pais e deixei um beijo na testa deles.

— Eu volto logo. Não importa como, vou conseguir dinheiro e dar um enterro digno a vocês.

Cobri seus corpos com o lençol, ajeitando os travesseiros como se pudessem sentir conforto.

Saí de casa e peguei um táxi com as últimas notas que me restavam.

Em alguns minutos, o táxi parou no endereço, e ao olhar pela janela, senti um frio no estômago.

Moon Light Club. O clube noturno da mais alta elite, frequentado apenas pela nata da sociedade; um lugar que eu costumava frequentar muito.

Mas agora, com minha reputação de herdeira caída, eu tinha medo de entrar ali. Medo de ser reconhecida. Medo de passar por uma situação constrangedora.

Suspirei, tentando me acalmar.

"Você não tem tempo para pensar no seu orgulho agora Evelyn. É só entrar, falar com a April e sair."

— Evelyn! — ouvi a voz de April e sorri ao vê-la se aproximar.

— April!

Nós nos abraçamos, e ela me confortou com palavras gentis, tudo de que eu precisava.

April olhou para mim, e segui seu olhar, notando como eu estava uma bagunça: rosto vermelho e inchado, cabelo desarrumado, roupas amarrotadas e manchadas de lágrimas e sangue.

— Venha, vamos ao banheiro dar um jeito em você. Eu sei que está passando por um momento difícil, mas não pode deixar ninguém te ver assim. Afinal, você é a Evelyn Fuentes de Castilho.

Disse ela com voz animada, tentando me animar.

Forcei um sorriso e a segui para dentro do clube, indo direto para o banheiro. Porém, por estar distraída, acabei esbarrando em alguém.

Levantei a cabeça para me desculpar, mas todo o meu corpo paralisou ao encontrar aqueles olhos negros, profundos e frios me encarando.

De todas as pessoas... eu tinha que encontrá-lo justo no meu estado mais deplorável e miserável?

Definitivamente, aquele não era o meu dia.

Dante Franconi.

O herdeiro da família principal dos Franconi, uma família que, por algum motivo que nunca entendi direito, sempre foi rival da minha.

A rixa entre os Franconi e os Fuentes era do conhecimento de todos, e a mídia adorava colocar lenha na fogueira sempre que podia. Rivais declarados tanto nos negócios quanto na vida pessoal.

Porém, apesar de todo o fogo que a mídia alimentava, eu e Dante não poderíamos ser mais indiferentes. As palavras que já trocamos um com o outro não enchiam num palmo. Apenas nos cruzávamos casualmente em eventos e trocávamos saudações em meio aos outros, virando as costas logo em seguida.

Mesmo com os nomes Franconi e Fuentes sempre ligados, nós dois não poderíamos ser mais distantes.

Ele lançou aquele olhar frio e indiferente de sempre para mim e apenas passou, sem dizer uma palavra.

— Dante Franconi, Céus, esse homem consegue ser mais bonito do que nas fotos. Pena que não dá nem bom dia... porém, é essa arrogância que dá um charme final nele!

Olhei para April após ouvir suas palavras, e ela coçou a garganta.

— Esquece o que eu falei. Vamos logo, todos já estão nos esperando.

Após alguns minutos no banheiro, com April me ajeitando, saímos em direção à sala onde os outros estavam, e pelo corredor, ouvimos a conversa de duas funcionárias que acabavam de sair de uma sala VIP.

— Dizem que o Dante Franconi é frio e indiferente, mas encheu toda essa sala com flores e presentes para pedir a namorada em casamento.

— Eu ouvi dizer que homens aparentemente frios são os mais românticos... e parece que é verdade!

— Ela é tão sortuda! Queria eu receber uma proposta de um homem desses!

— Vai sonhando, nem em mil encarnações.

As duas funcionárias passaram por nós e, por curiosidade, olhei pela porta entreaberta. Vi a sala toda decorada com flores brancas, frescas e naturais, um amontoado de presentes e uma grande faixa escrita: "Vivianne, casa comigo!"

Senti meu peito apertar, lembrando-me do pedido de casamento que Vítor fez para mim na entrada da universidade, anos atrás.

Eu o pedi em casamento primeiro, mas ele fez questão de fazer o pedido publicamente, para preservar minha imagem. Pelo menos era isso que ele dizia, e eu acreditava.

Limpei a lágrima que escapou pelo meu rosto, lembrando das palavras duras e cruéis que ele havia dito horas antes, percebendo que aquele homem que amei talvez só existisse na minha cabeça iludida.

Eu não podia mais chorar por ele. Não devia. Ele não merecia.

— Amiga, vamos. Os outros já devem estar à nossa espera! — April me despertou, e logo a segui para outra sala.

April entrou primeiro e manteve a porta aberta para mim, com um largo sorriso que pareceu estranho. Ainda assim, entrei.

Porém, todo o meu corpo paralisou ao ver aqueles rostos ali.

Todos pararam o que faziam e olharam para mim com expressões que variavam entre deboche, julgamento e desprezo. Rostos conhecidos do meu círculo social.

Mas meus olhos se fixaram nas duas pessoas sentadas no centro, aquelas que carregavam o maior ódio no olhar.

Adelina e Vítor.

Apertei a alça da minha bolsa e me virei para April.

— April, o que é isso?

Ela continuou sorrindo ao responder, de forma simples:

— Adelina e Vítor convidaram o pessoal para vir aqui dar uma forcinha para você. Você disse que estava precisando de dinheiro, não disse?

Meus olhos se encheram de lágrimas enquanto eu a encarava, com dor e decepção, percebendo que ela estava junto deles. Todos ali estavam contra mim.

— Evelyn — Adelina começou, aproximando-se de mim. — Já que você perdeu tudo e está precisando de dinheiro, eu convenci o Vítor, e juntos, conseguimos um emprego para você.

Ela estendeu a mão, e uma das garotas lhe entregou uma sacola.

Adelina enfiou a mão ali dentro, tirou o uniforme das funcionárias do clube e o jogou no chão, com um sorriso malicioso e perverso.

— Nos sirva esta noite. Seja nossa empregada VIP... e nós pagaremos pelo funeral dos seus pais.

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