Mundo ficciónIniciar sesión— Vítor… — chamei com a voz fraca, olhando em seus olhos, como se encarasse um estranho que nunca conheci.
Nós três fomos abandonados no mesmo orfanato. Eu tive a sorte de ser adotada por uma família rica e amorosa, mas os anos se passaram, e Adelina e Vítor nunca foram adotados. Mas eu nunca os esqueci e os ajudava com tudo o que podia. Assim que Vítor terminou o ensino médio, implorei aos meus pais que o patrocinassem. Vítor sempre foi inteligente e engenhoso, então eles pagaram uma bolsa na melhor universidade do país, impondo apenas uma condição: que ele fosse sempre grato e cuidasse de mim. Naquela época, ele se ajoelhou aos meus pés, segurou minhas mãos e me encarou com devoção, jurando que me protegeria contra tudo e todos, que me serviria para sempre. Eu, em minha ingenuidade romântica, pedi apenas uma coisa: que ele fosse meu noivo. Ele aceitou sem hesitar, com um sorriso que julguei ser de pura alegria. Levantou-se e selou meus lábios em nosso primeiro beijo. Após a formatura, ele foi alçado ao cargo de diretor-geral da empresa, tratado por todos como o futuro genro e herdeiro perfeito. Eu nunca fui boa nos negócios, e meu pai via nele seu sucessor, como um segundo filho, aquele que cuidaria da empresa e de sua filha. Mas, como um cão ingrato, ele mordeu a mão que o alimentou por anos. Deu um golpe nos meus pais, esvaziou todos os cofres da empresa e usou esse dinheiro para comprar nossos bens e propriedades confiscados. E agora ele estava ali, parado diante de mim, admitindo cada crime com um cinismo que me causava náuseas. — Agora, pegue suas coisas e saia daqui! Vítor ordenou, com a voz desprovida de qualquer vestígio de afeto. — A partir de hoje, a legítima senhora desta casa é a Adelina. As lágrimas que eu tanto segurava caíram, enquanto meu corpo tremia de raiva e ódio. — Por quê? — foi a única pergunta que consegui formular. — Por que você está fazendo isso comigo? Eu amei você, fiz tudo por você, implorei aos meus pais para ajudarem você… Por que está fazendo isso?! — Você é realmente tão burra ou simplesmente uma tonta sem noção? — Vítor perguntou, irritado. — Eu sempre amei a Adelina! Desde o orfanato, sempre foi ela! Se você não tivesse se atravessado no nosso caminho, ela teria sido adotada pelos Fuentes. Ela seria minha noiva, e nós teríamos desfrutado da vida perfeita que você nos roubou! — Amor, já chega. Pega leve com ela… afinal, ela acabou de perder os pais, deve estar arrasada — Adelina disse, fingindo uma voz doce, enquanto me lançava um sorriso perverso. — E daí? Ela viveu uma vida inteira de luxo, e você, uma vida inteira de sofrimento. Quem aqui não perdeu os pais? E, se eles morreram, a culpa é toda dela! — Vítor voltou a me encarar com frieza. — Se eles fossem os pais da Adelina, nada disso teria acontecido. Então, se quer culpar alguém pela morte deles, culpe a si mesma! — VÍTOR! — gritei, sentindo meu peito rasgar de dor. — Eu dei tudo a você! Meu amor, meu dinheiro, a confiança dos meus pais! E é assim que você me paga?! Meus pais estão mortos porque você os arruinou e os empurrou para o abismo! Como consegue ser tão cruel com pessoas que só deram o melhor a você? Seu desgraçado! Em um surto desesperado, agarrei um vaso de porcelana e o joguei na direção deles. — Você é um monstro! Seu canalha! Imbecil! Continuei arremessando qualquer objeto que minhas mãos alcançavam, transformando a sala em um caos. Vítor envolveu Adelina com o próprio corpo para protegê-la, mas um pequeno estilhaço voou e atingiu de leve sua têmpora, um corte minúsculo que sequer chegou a sangrar. — Ai! Vítor, dói muito! Meu rosto está arruinado! — Adelina choramingou. Vítor olhou para ela, preocupado, e depois se virou para mim, me encarando com fúria. Eu o vi se aproximar e, antes que pudesse reagir, senti um tapa seco, pesado e violento no rosto, forte o suficiente para me arremessar ao chão, sobre os cacos que cortaram minha pele. Fiquei estática, incrédula com o que ele havia feito, sentindo minha face queimar. — Chega desse escândalo! Ponha-se no seu lugar! Quem você pensa que é para dar chiliques nesta casa? Agora você não é nada! Ninguém mais precisa aturar seus surtos de menina mimada — muito menos eu, que nunca suportei você! Ele gritou com desdém, me encarando de cima. — E é melhor rezar para que o rosto da Adelina não fique marcado, ou eu mesmo vou desfigurar o seu! Ele pegou Adelina no colo e voltou a me encarar. — Quando eu voltar, não quero encontrar nenhum rastro seu aqui. Pegue os cadáveres dos seus pais e desapareça… ou mando jogar os três em um lixão de onde você nunca deveria ter saído. Vítor saiu, batendo a porta. E eu permaneci ali, jogada no chão como algo descartado e inútil, molhando o mármore frio com minhas lágrimas e sangue, sentindo-me a criatura mais patética e miserável do mundo. Eu deveria ter percebido. Fui uma idiota por não notar as intenções dele. Desde o orfanato, ele sempre favoreceu Adelina, em cada briga nossa, ele sempre ficava do lado dela, mas a tonta aqui estava cega demais para enxergar. E agora, por culpa da minha burrice e estupidez, meus pais estavam mortos... Subi as escadas arrastando meu corpo até o quarto dos meus pais, caminhei até a cama, e me deitei entre os corpos deles, tal como fazia quando tinha pesadelos quando criança. Abraçei seus corpos frios, buscando algum conforto naqueles que eram meu único porto seguro. Mas agora, eu tinha voltado a ficar sozinha e abandonada, como uma órfã sem ninguém. Entre as lágrimas, olhei para o frasco âmbar no chão, onde ainda havia parte do líquido. E naquele momento, um pensamento que nunca havia passado em minha mente me invadiu. Eu não tinha mais nada nem ninguém, Talvez... Eu devesse ir com eles... Antes que eu pudesse me afundar naqueles pensamentos, meu celular tocou, como um sinal, uma última esperança de me tirar daquele abismo.






