Mundo de ficçãoIniciar sessãoNesse instante, o sorriso de Melissa se transformou. Tornou-se genuíno, quase infantil, como se uma centelha de alegria tivesse acendido dentro dela.
Ela lançou um olhar rápido para o relógio na parede, sete horas em ponto. O tempo parecia conspirar a seu favor. Se virou. Seus passos eram ágeis, mas calculados, como os de uma dançarina que conhece bem o palco, cada movimento carregando uma precisão quase ensaiada. Ao passar pela porta, deixou para trás não apenas o quarto, mas também o aroma do perfume envolvente que parecia dançar no ar. O aroma se espalhava, como uma lembrança persistente, capaz de manter viva a sensação de que ela ainda estava ali. Assim que Melissa chegou à sala de estar, seus olhos encontraram Edward. Ele estava sentado com reverência junto à imponente mesa de jantar. A mesa, uma peça de mármore branco com veios cinzentos, coberta por um pano vinho de cor vibrante, que caía em pregas pesadas até quase tocar o chão. Estava arrumada com esmero: talheres de prata polida, taças de cristal alinhadas com precisão, guardanapos dobrados em formas delicadas. No centro, um arranjo de flores silvestres em tons de carmim e dourado exalava um perfume discreto. O corpo de Edward parecia relaxado, mas a postura permanecia imponente, como se cada gesto fosse calculado para transmitir domínio. O jovem vestia um impecável terno azul-marinho, cuja costura revelava a precisão de um alfaiate experiente. A gravata preta, perfeitamente alinhada, parecia selar sua figura com sobriedade. Seus cabelos ondulados, bem nutridos e penteados com discrição, refletiam a luz suave do lustre. No pulso, um elegante relógio preto de luxo marcava o tempo com firmeza silenciosa, como se cada segundo fosse calculado. Os sapatos, tão polidos que refletiam como espelhos, capturavam fragmentos da sala, o brilho dourado das molduras, o contorno da taça que ele segurava, o movimento discreto das cortinas ao fundo. Na mão direita, repousava uma taça de vinho tinto. O líquido, profundo e rubro, dançava sob a luz cálida do abajur, projetando reflexos que lembravam brasas vivas. Ao notar sua presença, Edward virou o rosto lentamente, como se saboreasse cada segundo antes de vê-la. Quando seus olhares se cruzaram, o tempo pareceu suspenso. — Nossa... — murmurou Edward, os olhos percorrendo seu corpo com respeito. — Essa é uma das suas filhas, Roberto? — continuou, levando a taça aos lábios e tomando um gole demorado. Roberto, ao seu lado, apenas assentiu com um leve movimento de cabeça. O gesto era contido, mas seus olhos voltados para Melissa, revelavam orgulho e cautela, como se estivesse consciente da força silenciosa que emanava dela. O olhar de Edward permanecia preso nela, como se cada detalhe de sua presença merecesse ser degustado com a mesma intensidade que o sabor encorpado da bebida. Mas sua admiração não passava de respeito. Havia fascínio, sim, o tipo de fascínio que nasce da elegância e da postura impecável, mas não havia desejo, nem amor. Seus olhos refletiam curiosidade e apreço, jamais paixão. Era como observar uma chama distante: bela, intensa, mas incapaz de aquecer. Melissa, por sua vez, não se aproximou da mesa de imediato. Permaneceu imóvel, sobre o último degrau da escadaria. Seus olhos castanhos estavam fixos nele com uma intensidade quase desafiadora. Não piscavam, não vacilavam, como se quisessem aprisioná-lo naquele instante, obrigando-o a reconhecer sua presença. O que sentia era o oposto de Edward: uma mistura de amor e desejo que queimava em silêncio dentro dela. Seu coração batia cada vez mais rápido, cada pulsar ecoando em seus ouvidos. O calor subia pelo corpo, deixando suas mãos inquietas, mas ela as manteve firmes, escondendo a ansiedade sob uma postura ereta e orgulhosa. A respiração vinha curta, quase ofegante, como se o ar ao redor tivesse se tornado mais denso, pesado, difícil de atravessar. Mas, de repente, Edward inquieto, olhou para o lado, depois para o outro, como se procurasse algo, ou alguém. Seus olhos, intensos, percorreram o ambiente com a precisão de um caçador experiente, mas havia uma suavidade em seu olhar, uma curiosidade. — Mas, não vejo a sua outra filha... — disse, com a voz baixa, quase sedosa. — Onde ela está, Roberto? Roberto riu, um som seco, quase sem humor, como se debochasse de Celeste. O riso não trazia alegria, trazia uma ponta de crueldade. — Não se preocupe, Edward... deve estar trancada no quarto. — disse Roberto, sem encará-lo, a voz calculista. — Provavelmente, lendo um de seus livros românticos e dramáticos. Enquanto falava, seus dedos tocaram a travessa de cristal. As frutas vermelhas repousavam como joias vivas, exalando um perfume doce. Roberto escolheu uma maçã de vermelho intenso. A casca reluzia, quase artificial. Ergueu-a e mordeu com firmeza. O estalo seco rompeu o silêncio como um disparo. Só então seus olhos se fixaram em Edward, penetrantes, quase desafiadores. — Celeste vive num conto de fadas... e nunca amadurece de verdade. — concluiu. Edward, por sua vez, deixou escapar uma risada baixa, suave, que se espalhou pelo ar como uma nota musical. O som tinha algo de doce e irônico, revelando que, ao contrário de Roberto, ele não via imaturidade, mas encanto. — Há, então você tem uma filha que gosta de ler, Roberto? — perguntou, com serenidade, erguendo a taça com a leveza de quem domina os rituais da alta sociedade. — Eu amo isso. Para mim, é uma ótima forma de amadurecer... Edward deu outro gole, pausado, saboreando não apenas a bebida, mas também a lembrança que suas palavras evocavam. E então, deixou escapar a frase: — Mas, por favor, mande chamá-la, Roberto... — sugeriu, a voz carregada de intenção sutil. Seus olhos inquietos se desviaram para seu relógio de pulso, o ponteiro avançando com precisão implacável. E com serenidade concluiu: — Para que saiba que já estou aqui. — Não. Não é necessário mandar chamá-la, Edward... — Adiantou-se Melissa, com naturalidade, sua voz aveludada, contrastando com o brilho gélido em seus olhos. Roberto, surpreendido pela intervenção, conteve o impulso de responder, limitando-se a observar em silêncio, enquanto Edward mantinha o cálice suspenso, intrigado pela súbita autoridade que Melissa impunha. Melissa se aproximou, com passos lentos e graciosos, quase flutuando sobre o chão. Os olhos de Edward a acompanhavam com atenção, percorrendo gestos, as inclinações sutis do corpo dela. Mas sua postura não vacilava, permanecia imponente, que deixava claro: Não se deixaria enfeitiçar. Seu olhar com respeito, mas também com vigilância. — Celeste não precisa ser chamada. Sempre se atrasa. — disse Melissa, cada palavra marcada por uma cadência lenta. — Ela virá quando sentir que deve. — murmurou, puxando a cadeira com elegância; o som suave deslizou pelo piso como uma nota discreta no silêncio. Sentou-se com uma graça estudada ao lado do pai, cada gesto preciso, como de uma atriz que domina o papel. Ao cruzar as pernas, o movimento foi coreografado: o tornozelo repousando sobre o joelho oposto, o tecido do vestido ajustando-se com perfeição, revelando a sutileza de sua postura. Suas mãos repousaram no colo com delicadeza, dedos entrelaçados em uma posição que transmitia tanto controle quanto uma feminilidade. E seus olhos penetrantes, de cílios longos e firmes, não deixavam o rosto dele, como se cada traço fosse uma peça de um enigma que precisava ser decifrado. Com uma entonação que oscilava entre admiração e provocação ela disse: — Você é exatamente como eu imaginei, Edward... Seu olhar, atento, e com um brilho que parecia arder em chama, se desprendeu do rosto dele, e percorreu com lentidão e desejo todo seu corpo. O movimento não era apressado, mas calculado, como se cada detalhe observado fosse uma confirmação de uma fantasia antiga, cuidadosamente alimentada em silêncio. Melissa inclinou a cabeça, e um sorriso quase imperceptível surgiu em seus lábios, revelando uma confiança ousada. — Bonito, perfeito... e sábio. Como nenhum outro homem — completou. Edward permaneceu imóvel, mas sua expressão se alterou. A sobrancelha erguida denunciava surpresa, e por um instante ele sentiu como se estivesse sendo atravessado por aquele olhar, despido não apenas de sua aparência, mas também de suas certezas. Roberto, com as mãos entrelaçadas sobre a mesa, observava a cena com um sorriso tênue, quase imperceptível. Seus olhos percorriam os dois com calma, atentos a cada gesto, registrando cada nuance para depois pesar os significados. O brilho em seu olhar continha uma expectativa velada, uma torcida discreta para que Edward se aproximasse dela. Com a voz sem hesitação, Edward rompeu o silêncio: — Melissa, obrigado pelos elogios. Mas vamos com calma... ainda não nos conhecemos... direito. Você compreende?






