Capítulo 4

Celeste não se intimidou. Seus olhos ainda faiscavam com firmeza, brasas que resistiam à ventania da provocação.

Sua voz escorreu como mel sem açúcar, suave na cadência, mas carregada de acidez e força interior.

— Olhar? — repetiu, com ironia, arqueando uma sobrancelha como se a pergunta fosse ridícula.

— E quem disse que quero que ele olhe pra mim?

Melissa arregalou os olhos, surpresa com a resposta inesperada, mas logo soltou uma risada alta, seca, amarga, que reverberou como o estalar de vidro prestes a se despedaçar.

— Mas é óbvio... — disse Melissa, cada palavra escorrendo como veneno.

Ela avançou um passo, o salto ecoando no chão como um aviso, sem deixar o olhar de Celeste escapar.

— Ousa acreditar que Edward sentiria algo por você? Nunca. Ele jamais perderia tempo com uma garota tão... tola.

A voz de Melisa cortou o ar como uma lâmina.

Celeste riu, com escárnio, quase sem humor.

— Pode estar certa. Mas olha pra você... — disse, percorrendo o corpo da irmã com o olhar, dos pés à cabeça, carregado de receio e julgamento.

— Ousa acreditar que Edward iria se encantar por uma mulher arrogante, má e cruel... do seu tipo?

Cada sílaba saiu firme e calculada.

A raiva de Melissa se intensificou, inflamando o calor em seu peito. Ela fechou os punhos com tanta força que as unhas deixaram marcas vermelhas na pele. As provocações de Celeste queimavam sua paciência.

— Cruel? Arrogante? — repetiu, sua voz tremeu, não de medo, mas de ódio contido.

— Sua... como ousa falar assim comigo?

Celeste não recuou. O olhar firme, quase triunfante, permanecia fixo na irmã.

— Só disse a verdade. — rebateu, cada palavra medida, como quem sabe que a flecha atingiu o alvo. — E você sabe disso.

Melissa estreitou ainda mais o olhar e avançou um passo. O gesto não foi apenas físico, mas simbólico, como se estivesse reivindicando o centro da cena.

Sua voz cortou o silêncio em tom de escárnio:

— A verdade? — repetiu.

— Quer saber de outra verdade, Celeste? — disse, pausando de propósito, para que o nome soasse como uma sentença.

Ela inclinou levemente o corpo para frente, os olhos fixos nela, como se quisesse atravessar sua resistência.

— Mesmo que não queira, você não nasceu pra se casar com um herdeiro... merece um comerciante de tecidos... ou, quem sabe, um viúvo entediado que só busca companhia para seus dias cinzentos.

As palavras foram lançadas como dardos, cada imagem escolhida para reduzir Celeste a algo banal, sem brilho, sem futuro grandioso.

— É mesmo? Você fala como se pudesse decidir meu destino... — exclamou Celeste, a voz embargada pela indignação, enquanto seus punhos se cerravam discretamente ao lado do corpo. — Mas...

Antes que pudesse continuar, Júlia e Roberto se aproximaram. E ao se posicionarem ao lado de Melissa, ergueram uma muralha invisível contra Celeste, uma barreira feita não de armas, mas de presença e desprezo.

Júlia cruzou os braços lentamente, como quem se arma para um duelo. Sua voz, cortante, rasgou o silêncio com crueldade:

— Celeste, sua irmã não está errada... — disse, com uma calma que doía mais do que gritos.

— Você não passa de uma sombra, um erro... é alguém tão insignificante.

O impacto das palavras foi imediato. Roberto não precisou falar; seu olhar bastava. Fixo e impiedoso, reforçava a sentença de Júlia, como se cada gesto fosse um tijolo a mais na muralha que sufocava Celeste, enquanto Melissa mantinha o semblante firme, satisfeita com o golpe desferido. Celeste, porém, não recuou, respirou fundo, mantendo a calma, mas sentindo o peso da hostilidade se acumular ao seu redor.

De repente, a chama da curiosidade ascendeu na mente de Melissa. Ela inclinou levemente a cabeça, os olhos semicerrados, e olhou para Roberto ao lado, rompendo o silêncio com uma pergunta carregada de expectativa:

— Mas... quando o Edward virá?

Roberto imóvel, não respondeu de imediato, avançou dois passos, seu olhar percorreu a sala antes de fixar-se em Melissa, e com a voz grave, carregada de tradição e poder, respondeu:

— Pois bem... amanhã mesmo, durante o jantar às sete, ele estará aqui.

Seu olhar percorreu o rosto das duas filhas, lento e pesado, como se medisse o destino de ambas.

— E então... veremos qual será sua escolha...

O silêncio que se seguiu foi denso. Melissa ergueu o queixo com confiança, Júlia manteve-se impassível, e Celeste, calada, sentiu dentro de si uma chama discreta, mas firme, crescer, como se o destino imposto fosse apenas o início de algo maior.

No dia seguinte, o sol se despediu, tingindo o céu com tons dourados e alaranjados, como pinceladas suaves encerrando um capítulo.

A noite especial, finalmente chegou com delicadeza. A lua cheia, prateada e intensa, pairava no céu como uma guardiã silenciosa.

Sua luz escorria pelas calçadas, refletia nos carros, e subia pelas fachadas dos prédios, tingindo de cobre as janelas.

Às seis horas, invadia, tímida, o quarto de Celeste, como se pedisse licença para participar daquele instante íntimo.

No silêncio do quarto, Celeste não estava sozinha; ao seu lado permanecia a jovem empregada, cuja presença discreta e atenciosa preenchia o quarto com uma atmosfera de cuidado e devoção.

No guarda-roupa de Celeste, repousavam vestidos de diferentes cores e tecidos. Eram novos, mas de pouco valor, peças simples que pareciam esperar em silêncio por um momento que talvez nunca chegasse. Mas foi o fascinante azul bebê que chamou sua atenção.

Ao retirá-lo do cabide, Celeste sentiu o frescor do tecido entre os dedos, tão leve e macio que parecia deslizar como seda líquida.

A tonalidade lembrava as águas calmas e cristalinas do mar em um dia de verão, transmitindo paz e pureza.

Ao vesti-lo, o vestido abraçou sua silhueta com suavidade, a elasticidade na cintura realçando sua postura graciosa.

O comprimento, que caía até os pés, transmitia sobriedade e elegância, cada movimento fazia o tecido ondular como se imitasse o balanço tranquilo das ondas.

A intenção de Celeste não era de provocar olhares, apenas ser olhada com respeito e admiração.

Em sua postura havia uma dignidade silenciosa, e sua expressão transmitia a pureza de quem buscava ser lembrada não pela vaidade, mas pela essência.

Diante do espelho, aplicou nos lábios um batom rosa suave. Não quis maquiagem alguma, pois acreditava que a beleza natural era sua maior virtude.

Com paciência, a empregada, experiente, penteou os cabelos de Celeste com uma escova de cristal. O som das cerdas deslizando pelos fios era suave, quase como o farfalhar das folhas ao vento.

Em seguida, aplicou nas mãos um óleo de argan milagroso, espalhando-o por todo o cabelo da moça.

O brilho que surgia era tão intenso que parecia capturar a luz lunar, e por um instante, a empregada ficou encantada, como se estivesse diante de uma obra de arte viva.

Para finalizar, Celeste borrifou em volta do pescoço um leve perfume, de lavanda e frutas vermelhas. O aroma se espalhou pelo quarto, atravessando as cortinas e alcançando o jardim.

Era tão natural e envolvente que parecia despertar a própria natureza: abelhas e gaivotas se aproximavam, atraídos pela fragrância, como se Celeste fosse parte da harmonia que reinava ao redor.

Por fim, a empregada admirou a beleza de Celeste uma última vez, e com a voz doce disse:

— Como pode...? Como pode ser tão bela?

Celeste sorriu meigamente, e o brilho de seus olhos parecia refletir a luz da lua. Ela baixou o olhar, sentindo-se tímida, como se aquele elogio tivesse desnudado não apenas sua aparência, mas também sua alma.

Enquanto isso, no andar de cima, Melissa, preferia ser a sua própria companhia. Ela encarava o guarda-roupa como quem observa um espelho de possibilidades.

Seus dedos deslizavam pelos cabides com a precisão de quem escolhe uma armadura para uma batalha silenciosa. O som suave dos cabides rangendo parecia marcar o ritmo de sua respiração contida.

Não eram peças baratas, eram peças caras. Havia algodão macio, linho bem tramado, rendas delicadas que se desfaziam em desenhos minuciosos, cada fio era tecido com paciência e intenção. Mas nada bastava. Cada vestido, por mais perfeito que fosse, não conseguia traduzir o que ela buscava.

Ela desejava algo que falasse por ela, que revelasse o que sua alma calava. O coração acelerava, como se cada tecido fosse uma pergunta sem resposta, um reflexo de sua inquietude.

Então, seus olhos pousaram sobre um vestido preto, justo, de tecido acetinado.

Era uma peça que delineava cada curva com ousadia, como se tivesse sido moldada para ela. O decote profundo revelava mais do que pele, revelava coragem. A fenda lateral, ousada e elegante, cortava o tecido como uma promessa de liberdade.

Melissa não se importava com julgamentos. Pelo contrário, desejava-os. Queria ser o centro das atenções, não por vaidade, mas por afirmação. Queria que o mundo a visse, inteira, intensa, inegável.

Ao vestir o tecido frio contra a pele quente, sentiu-se poderosa, como se cada costura fosse um feitiço de autoconfiança.

Sentou-se à penteadeira e iniciou seu ritual. Aplicou a maquiagem com exagero meticuloso: sombras escuras que se espalhavam como véus de mistério, delineador espesso, e cílios longos como penas de corvo.

Nos lábios, desenhou com precisão um batom vermelho vibrante, incendiário, que reluzia sob a luz como uma lâmina recém-afiada.

Penteou os cabelos com paciência e cuidado, mecha por mecha, até que cada fio se alinhava como parte de uma melodia silenciosa.

Depois, prendeu uma rosa branca ao lado esquerdo da cabeça, contraste entre a delicadeza da flor e o brilho gélido dos olhos.

Melissa levantou-se e borrifou perfume no colo e nos pulsos. A fragrância amadeirada espalhou-se pelo quarto, densa e envolvente, com notas de cedro e sândalo que invadiam e permaneciam.

No espelho, Melissa se olhou uma última vez e sorriu. Não era um sorriso de doçura, mas de decisão. Aquela noite não seria apenas mais uma. Ela estava pronta para ser vista, ouvida, sentida.

De repente, o silêncio foi quebrado por três batidas discretas na porta, secas, mas respeitosas.

— Entre. — exclamou Melissa, sem desviar o olhar do espelho.

A porta se abriu, revelando uma jovem empregada de traços delicados. O uniforme impecável, leve e bem passado, refletia disciplina. Seus olhos verdes brilhavam com respeito e curiosidade, cada gesto contido para não perturbar a solenidade.

— Com licença, Melissa. — disse, inclinando-se levemente, a voz suave acompanhada de um sorriso doce. — O Edward está aqui.

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