Cheguei na transportadora mais tarde do que devia, mas não consegui me culpar. Depois da manhã que tive com a Laura, qualquer coisa parecia pequena perto da paz que senti ao lado dela. Estacionei a caminhonete e entrei na fábrica, passei pela produção, a Camila ainda não estava na recepção então caminhei até o escritório, ajeitando a gola da camisa enquanto pensava na quantidade de pendências que me esperavam. Quando empurrei a porta de vidro, dei de cara com o Diogo sentado na minha cadeira, os braços cruzados, o semblante carregado. — Estava te esperando. Imaginei que a Laura não viria hoje. — Ele disse, sem rodeios. Arqueei uma sobrancelha, curioso. — É mesmo? — Perguntei, entrando e fechando a porta atrás de mim. — Sim — ele assentiu, soltando um suspiro cansado. — Vi um teste de gravidez nas coisas da Lena ontem à noite. Mais um, pra variar. Acho que ela fez hoje cedo… e deve ter dado negativo. Meu estômago se revirou. Na pressa para sair de casa, eu não tinha nota
A confusão na sala começou a diminuir. A Lena soluçava baixinho, enquanto minha tia Helô tentava acalmá-la, oferecendo palavras doces que mal eram ouvidas. O Diogo, derrotado, continuava sentado, com o rosto afundado nas mãos. Eu fiquei de pé, sem saber direito o que fazer. Olhei para a Laura, que estava ao lado da Lena, firme e silenciosa. Ela me lançou um olhar cheio de tristeza — não de julgamento, mas de pura compaixão pela dor da Lena. Então a Lena ergueu o rosto, os olhos ainda marejados, mas a voz saiu surpreendentemente firme: — Diogo… eu quero que você saia daqui. — Ela falou, encarando-o sem desviar. O silêncio que tomou a sala foi quase palpável. Diogo ergueu a cabeça lentamente, como se tivesse levado mais um golpe. — Lena… — ele começou a dizer, mas ela levantou a mão, cortando qualquer argumento. — Por favor. — pediu, a voz embargada, mas decidida. — Eu preciso de espaço. De paz. Vai embora. Vi o Diogo hesitar, como se buscasse uma brecha, um argumento para
Os dias que se seguiram foram estranhamente silenciosos. Lena não disse mais uma palavra ao Diogo desde aquela noite. Ela não chorava mais na frente de ninguém, mas seu silêncio era carregado de dor. Passava boa parte do tempo no quarto, ora com minha tia Helo, ora sozinha. Às vezes a encontrava no jardim, cuidando das plantas, como se cavar a terra com as próprias mãos pudesse livrá-la da mágoa. Diogo, por sua vez, parecia um fantasma dentro de casa. Andava pelos corredores com os ombros curvados, o olhar perdido. Tentava se aproximar, mas Lena o evitava. Eu o via abrir a boca, como se fosse dizer algo, e então desistir no meio do caminho. Aquilo me partia o coração — não como mulher, mas como alguém que viu um laço forte se desfazer diante dos próprios olhos. E no meio de tudo isso, havia Bernardo. Ele não me cobrava nada, e talvez fosse exatamente isso que me prendia a ele de um jeito que eu não sabia explicar. Às vezes, ele apenas encostava a testa na minha e ficávamos assim p
Bernardo se aproximou um pouco mais, e sua mão deslizou lentamente pela minha cintura até descansar na base das minhas costas. Eu ainda estava observando o quarto, absorvendo os detalhes que diziam tanto sobre ele, mas ao sentir o toque, virei o rosto para encará-lo. — É estranho estar aqui — confessei. — Não de um jeito ruim… só parece que estou descobrindo uma nova parte sua. Bernardo sorriu de canto, me observando com aquele brilho divertido nos olhos. — Você não tem noção do quanto a minha versão adolescente desejava ter uma mulher gostosa aqui no meu quarto. — disse, com aquele tom malicioso que só ele sabia usar. Soltei uma risada, surpresa pela sinceridade desajeitada, mas encantadora. — Coitado desse adolescente. Mal sabia ele que um dia teria uma mulher adulta, cansada da viagem e de moletom, sentada na cama dele. — provoquei, erguendo uma sobrancelha. — Exausta e de moletom, mas ainda assim absurdamente linda e gostosa. — Ele rebateu sem pensar, com uma sinceridade qu
Me viro na cama ao som insistente do celular. Atendo sem olhar quem é. — Alô? — Laura, desculpa te acordar. — A voz de Diogo ressoa do outro lado da linha. Meu cérebro ainda está despertando, mas algo no tom dele me faz sentar na cama, alerta. — O que aconteceu? — É a Helena… Você é psicóloga e nossa amiga. Eu preciso de você aqui. Estou vendo meu casamento desmoronar e não sei o que fazer. Minha mente ainda luta para processar as palavras. — Diogo, o que exatamente está acontecendo? — Vou viajar para a pecuária, e não quero deixar a Helena sozinha. A fazenda tem funcionários, claro, mas ela precisa de alguém próximo. Solto um suspiro, coço os olhos. Não faz sentido discutir pelo telefone. — Ok. Quando eu chegar, entendo melhor. — Obrigado, Laura. O silêncio se instala depois que a ligação é encerrada. Olho as horas no celular. 5h25. Muito cedo. Tento deitar novamente, mas o peso do pedido de Diogo não me deixa relaxar. Ele não é o tipo de pessoa que pede ajuda
Helena e eu decidimos ir conversar na varanda e aproveitar um pouco do ar fresco. Ela me falava sobre sua rotina na fazenda quando o som de um carro se aproximando chamou nossa atenção. O motor desligou, e em poucos segundos a porta do veículo se abriu. Diogo foi o primeiro a sair, ajeitando a aba do chapéu enquanto subia os degraus da varanda com a postura rígida de sempre. O olhar atento percorreu a cena diante dele antes de se fixar em mim. — Olha só quem resolveu aparecer — comentou, e sorriu - estou feliz que tenha vindo, Laura. A Lena sempre comenta o quanto sente sua falta. Antes que eu pudesse responder, a outra porta se abriu. E então eu o vi. O homem que desceu do carro tinha uma presença marcante, algo difícil de ignorar. Era alto, de ombros largos e porte elegante, mas sem a rigidez do irmão. Sua expressão trazia um ar de confiança descontraída, como alguém acostumado a ser notado sem fazer esforço. O cabelo escuro, ligeiramente bagunçado, dava a impressão de que
O tempo passou sem que eu percebesse. Depois de um banho revigorante e um tempo para me organizar, desci para o jantar, sentindo o aroma reconfortante da comida caseira se espalhando pela casa.A mesa estava posta na sala de jantar, e Helena conversava animadamente com Diogo sobre algum problema na fazenda. Bernardo, ao lado do irmão, participava ocasionalmente da conversa, mas parecia mais interessado na comida do que em qualquer outra coisa.— Você vai gostar do ritmo daqui, Laura. O Rio de Janeiro é muito barulhento — Helena comentou, lançando-me um olhar cúmplice.Dei de ombros, tentando manter a neutralidade.— Ainda estou me acostumando. Mas é um lugar agradável.— Não é a sua primeira vez aqui, Laura, mas acredito que será a primeira vez que passará mais do que um fim de semana com a gente. — Diogo comentou.Assenti levemente, pegando o copo d’água à minha frente.— Algumas coisas me lembram a fazenda do meu avô. Não é igual, claro, mas tem um clima parecido.Helena sorriu, sat
A casa ainda estava silenciosa quando desci para a cozinha. O sol mal tinha nascido, e um tom alaranjado banhava os móveis de madeira, criando um cenário quase acolhedor. O cheiro de café fresco preenchia o ambiente, e foi esse aroma familiar que me guiou até ali.Mas não era só o café que me esperava.Bernardo estava encostado no balcão, vestido com jeans e uma camisa de botões com as mangas dobradas até os antebraços. Era o tipo de descuido calculado que só alguém absurdamente confiante conseguia carregar.Ele ergueu os olhos ao me ver e sorriu de canto, daquele jeito preguiçoso que parecia provocar sem esforço.— Bom dia, dorminhoca. Achei que ia perder a gente saindo.Tentei ignorar a forma como aquele tom rouco soava mais intimista no silêncio da cozinha.— Não sou de acordar tão tarde — respondi, indo até a cafeteira. — Só não costumo ter motivos para madrugar.Peguei uma xícara e servi o café, sentindo o peso do olhar dele sobre mim. Bernardo observava de um jeito intenso, como