Mundo ficciónIniciar sesiónTrevor
O dia já tinha começado um desastre antes mesmo das seis da manhã. Meu irmão mais novo, e completamente irresponsável, enviou uma foto da própria certidão de casamento “em Las Vegas”, com uma legenda curta e irritantemente confiante: “Sua vez, maninho. Ou a cadeira da presidência será minha até o verão.”
A cláusula no testamento do meu avô era uma piada de péssimo gosto. A diretoria, não. Dediquei cada minuto dos últimos dez anos àquele complexo hospitalar. Não deixaria um garoto que mal sabe administrar a própria conta bancária colocar as mãos no império da família.
E, como se isso não bastasse, a manhã resolveu piorar. Meu irmão me infernizando, uma atendente de uma cafeteria barata tentando me arrancar quinze dólares por um café que não valia nem nove… e, para completar, quase fui atropelado e derrubado pela mesma atendente que antes tentava me extorquir.
Não sou um homem que acredita em coincidências. Acredito em dados. E os dados sobre a mulher que me derrubou no asfalto eram simplesmente desastrosos.
Viro-me para meu segurança de maior confiança e digo:
— Quero saber tudo sobre aquela mulher. — Ele apenas acena com a cabeça e se afasta.
…
Estava sentado na minha poltrona na diretoria, ignorando a dor latejante em meu quadril e no joelho ralado. À minha frente, uma pasta parda continha a vida da tal atendente, ou o que restava dela. Ruby Prestes. Não concluiu o ensino médio, tem três empregos precários: atendente em uma cafeteria, atendente em um bar e faxineira em um escritório de contabilidade a cada 15 dias, vive em um apartamento que mal deveria passar na inspeção sanitária, pagando um valor de aluguel absurdo com base na decadência do lugar.
E havia uma criança. Esmeralda, com 7 anos, é paciente no hospital, mas na área da rede pública, conforme o acordo de cooperação para assistência social.
— O diagnóstico é vago, senhor Black — disse o Dr. Arantes, o chefe da pediatria, parado diante da minha mesa. — Suspeitamos de uma variação rara, uma doença autoimune. Ela precisa de exames genéticos que custam cinquenta mil dólares apenas para começar. A mãe… bem, a acompanhante, ela não tem nem cinquenta dólares.
— Ela não é a mãe. — Murmurei para mim mesmo, lendo a ficha de nascimento que meus investigadores conseguiram. Esmeralda e Ruby eram irmãs.
Ruby estava mentindo para todo mundo. Ela carregava aquela menina debaixo dos braços como se fosse dela, protegendo-a com uma ferocidade que eu nunca havia visto. Na cafeteria, ela me enfrentou por causa de cinco dólares. No asfalto, ela se jogou na frente de uma caminhonete para salvar um estranho que a tratou mal, imagina o que ela poderia fazer por essa criança.
Ela era a peça que faltava no meu tabuleiro.
Tayler, meu irmão, estava na mídia ostentando seu casamento de fachada com uma subcelebridade para ganhar a confiança do conselho. O testamento do meu avô era claro: o sucessor deveria demonstrar “estabilidade familiar e compromisso com o futuro”. Se eu aparecesse com uma esposa, estrangeira, especialmente uma que parecesse uma “heroína da classe trabalhadora” que cuida de uma filha/irmã doente, eu ganharia o conselho em um estalar de dedos.
O plano era frio, calculado e puramente comercial. Exatamente como eu.
— Transfira a menina para a suíte VIP da ala leste — ordenei, fechando a pasta. — Quero os melhores especialistas em cima dela. Agora.
— Mas, senhor Black, os custos… e a responsabilidade legal? A senhorita Prestes não assinou nada.
— Eu me responsabilizo. Vou resolver isso pessoalmente.
Saí da sala e caminhei pelos corredores assépticos do hospital. Eu sabia que ela estava na ala pública, naquela poltrona desconfortável, provavelmente contando moedas para comprar um sanduíche de máquina.
Parei diante da porta do quarto 402. Através do vidro, eu a vi. Ruby estava encolhida, segurando a mão da pequena Esmeralda, as lágrimas que ela tentou esconder de mim no pátio agora estavam lavando seu rosto. Ela parecia pequena. Frágil. Mas eu sabia que aquela fragilidade era uma ilusão; aquela mulher era feita de dinamite.
Ajustei meu terno novo e respirei fundo. Eu não ia entrar ali para ser um herói. Eu ia entrar para fazer um pacto.







