A Ausência dela

Na mansão, Arthur andava. De um lado para outro no escritório com aquela energia que não tinha destino — não era a agitação produtiva de quem está resolvendo algo, era a agitação de quem precisa que o corpo se mova porque ficar parado tornaria algo real que ainda estava sendo mantido à distância pelo movimento. Ele sabia agora, que ela o amava, e que se deixou ser enganado por Rebecca, ele viu agora o mal que havia feito, seu coração disparada abaixo daquele peito malhado, pela primeira vez ele se sentiu sem chão. Ele se permitiu duvidar do amor dela, ele achou que somente ela a amava e que dar todo o dinheiro da empresa dele era a forma de amá -la. A raiva dele estava em Rebecca, ela o enganou ela o usou, ela o iludiu...,mas uma voz no fundo da sua mente dizia, você também errou.

Rebecca havia tentado ficar. Havia entrado no escritório com aquela postura — que ele havia reconhecido, havia sempre reconhecido, havia simplesmente escolhido não examinar de perto — de quem acredita que o espaço ao redor lhe pertence.

— Arthur. — A voz dela havia tido aquela qualidade de quem está tentando reestabelecer um ritmo que perdeu o compasso. — Ela vai voltar. Você sabe como ela é.

Ele havia virado. E havia algo no olhar — ela percebeu, havia percebido, e havia ficado quieta antes que ele dissesse qualquer coisa — que era diferente de todos os olhares que havia recebido dele antes.

— Vá para casa — disse ele.

— Arthur...

— Eu disse para ir embora e não volte mais!

Rebecca havia saído. Sem a dignidade completa que havia entrado — havia saído com aquela rigidez de quem está contendo algo que não pode mostrar naquele momento, que precisará ser processado sozinha em outro lugar. Pela primeira vez desde o início de tudo aquilo, havia algo no rosto dela que não era confiança.

Arthur havia servido o uísque. Havia olhado para o copo por um longo momento ele fez questão de beber algo forte, ele precisava, mas ao servir, ele encarou o copo, não havia bebido. O copo permaneceu sobre a mesa com aquele líquido âmbar que havia ficado parado enquanto ele andava — de um lado para o outro, de volta, de um lado — com aquele peso específico de quem está num espaço que ficou subitamente grande demais.

A casa havia sempre sido grande. Havia sido um dos primeiros pontos de convergência entre eles — ela havia chegado àquela mansão com aquela eficiência prática de quem havia crescido sabendo que espaços grandes precisam ser habitados com intenção para não se tornarem apenas endereços, e havia feito aquilo. Havia colocado flores nos cantos que ficavam mortos. Havia escolhido a luz das salas com aquela atenção que tornava a diferença entre estar dentro de um ambiente e estar dentro de uma casa. Ele havia notado. Ele repassava os detalhes na mente dele, ela sempre esteve lá , presente, gentil, forte e feminia.

Havia notado sem comentar, que era uma habilidade que havia desenvolvido ao longo de anos e que havia, ao longo dos mesmos anos, se tornado um problema cujas consequências ele estava apenas agora começando a medir completamente. O silêncio era insuportável.

Não havia sido antes — havia passado noites naquela mansão em silêncio sem que o silêncio tivesse aquela qualidade. Mas havia algo diferente naquele silêncio específico. Era um silêncio com forma. Com o contorno exato da ausência de alguém. Ele smepre a amou, e só agora percebeu o quão tolo se deixou ser.

No hotel, Valéria entrou no banheiro. Abriu o chuveiro no máximo do quente.

E ficou debaixo da água por tempo indefinido — não lavando, não fazendo nada específico, apenas deixando a água cair com aquela qualidade da água quente que é o único calor disponível quando não há outro, ela só queria relaxar, e entender que agora estava livre da dor, do falso sorriso, ela sabia que não era ela a errada, e porque isso ainda doia?

As memórias chegaram. Não em ordem — as memórias raramente chegam em ordem quando se está debaixo de um chuveiro no máximo do quente num quarto de hotel no centro de São Paulo às onze da noite. Chegaram em fragmentos, sobrepostos, com aquela lógica emocional que não é cronológica mas é verdadeira.

O dia do casamento civil.Havia sido numa tarde de terça-feira — ela havia notado aquilo na época com aquela parte pragmática de si mesma que havia registrado "terça-feira" como informação. Arthur estava bonito com aquele terno escuro que havia escolhido com a atenção que ele dava a tudo que envolvia imagem. Distante com aquela distância que ela havia lido, na época, como reserva natural. Ela havia assinado os papéis dizendo a si mesma que seria um acordo. Mas eles sabiam que seria mais, já estava nascendo algo ali, e ela sabia, ele sabia. 

Havia sorrido real e verdaeira para ele — Nasceu como um contrato mas então. Bastaram alguns meses de café da manhã partilhado. Bastaram algumas conversas que haviam durado mais do que o necessário.

Bastaram alguns sorrisos raros — aqueles sorrisos que apareciam quando ele não estava gerenciando a impressão que causava, que chegavam antes da decisão de sorrir — para que a objetividade com que havia entrado começasse a encontrar rachaduras. Ela havia acreditado no impossível.

Havia feito aquilo com os olhos abertos, um contrato que virou amor,  havia feito sabendo o risco, havia feito assim mesmo porque havia algo naquele homem que chegava antes de qualquer análise racional e que ela havia escolhido, num ponto específico, parar de resistir.

E havia pago o preço. Saiu do banheiro. Vestiu o roupão com aqueles movimentos automáticos de quem está presente no corpo mas ausente de outra forma. O espelho devolveu um rosto. Ela ficou olhando por um momento longo, um rosto limpo, mas olhos inchados de tanto chorar em silêncio.

Exausta — havia exaustão ali, real e visível, a exaustão de um dia que havia custado mais do que a maioria dos dias custava. Mas havia algo mais. Havia aquela qualidade específica dos rostos que atravessaram algo difícil e que ficaram inteiros do outro lado — não ilesos, não sem marca, mas inteiros. Ainda reconhecíveis. Ainda o rosto dela. Isso, ela reconheceu com uma honestidade que a surpreendeu pela simplicidade, era suficiente por aquela noite.

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