Mundo ficciónIniciar sesiónValéria dirigiu sem destino por quase uma hora.
Não havia planejado fazer isso — havia saído da mansão com aquela urgência específica de quem sabe que precisa sair antes de não conseguir mais, antes que o peso do que havia visto se tornasse grande demais para ser carregado em movimento, e havia entrado no carro e começado a dirigir porque dirigir era o único estado em que o corpo tinha uma função clara enquanto o resto se reorganizava. A cidade passava.
Borrões de vidro e concreto e luz artificial e o movimento constante de São Paulo que não para para ninguém — que existia completamente indiferente ao fato de que havia uma mulher dirigindo por suas ruas naquela noite com o casamento desmontado dentro do peito como destroços ainda quentes.
Ela tentou respirar de forma regular.
Contou — uma estratégia antiga, aprendida numa época em que havia precisado aprender estratégias para atravessar momentos que o corpo não queria atravessar. Inspiração, quatro tempos. Pausa, dois. Expiração, quatro. Repetição. Funcionou parcialmente.
Em algum momento — ela não havia marcado quando, havia perdido a noção do tempo em algum ponto entre o terceiro e o quarto quarteirão depois da mansão — estacionou.
O hotel era discreto com aquela discrição específica dos estabelecimentos que existem para receber pessoas que precisam existir em algum lugar sem ser reconhecidas. Nenhum letreiro exuberante. Nenhuma fachada que anunciasse o que havia dentro. Apenas aquela qualidade sólida de lugar que funciona sem precisar chamar atenção para o próprio funcionamento. Ela entrou.
Pagou em cartão com aquela eficiência automática de quem está executando protocolos enquanto a parte real de si mesma está em outro lugar. Pegou o cartão magnético do quarto sem ouvir completamente o que a recepcionista disse. Subiu. Sua mente estava longe, elaestava decepcionada, quebrada. Arthur brincou com ela todo esse tempo, ela o amou de verdade e ele a estava traindo desde o primeiro ano de casamento, divórcio foi a melhor decisão.
O quarto a recebeu com aquela impessoalidade específica dos quartos de hotel — tudo no lugar, tudo limpo, tudo sem história, sem nenhum rastro das pessoas que haviam estado ali antes. Ela havia escolhido aquilo deliberadamente, havia reconhecido enquanto estacionava: não queria as perguntas das amigas que teriam aquela expressão específica de quem está querendo ajudar e ao mesmo tempo querendo saber. Não queria ter que ser alguém para ninguém naquela noite. Ela só precisava ficar bem. O dinheiro que juntou todo aquele tempo a deixaria segura financeiramente até o fim de sua vida, mas sabia que o processo de divórcio talvez não fosse tão facil.
Queria apenas existir.
Largou os sapatos no canto — aqueles saltos que havia colocado naquela manhã com a vida ainda organizada, que haviam atravessado o dia e a chegada à mansão e o que havia encontrado lá — com aquele gesto que não foi descuido mas que foi o primeiro gesto completamente sem intenção que havia feito naquele dia.Ela continuaria trabalhando na empresa? Ela iria querer isso?
Ficou de pé perto da janela.
A cidade estava lá fora com aquela vastidão noturna que São Paulo tem — as luzes dos prédios, o movimento residual das ruas, aquela luminosidade que não desaparece completamente em nenhuma hora. Ela havia amado aquela vista quando era mais jovem. Havia amado a sensação de estar acima do barulho olhando para baixo — a sensação de que havia algo inteiro e compreensível que podia ser visto de um único ângulo se você ficasse alto o suficiente. Agora a cidade parecia apenas enorme. O corpo inteiro doía.
Não de cansaço físico — havia dormido o suficiente, havia comido no horário certo, havia feito todas as coisas que o corpo pede. Era outro tipo de dor. A dor que existe nos músculos que seguraram postura por tempo demais. Que existe nos olhos que escolheram não chorar quando havia chorar disponível. Que existe nos ombros que carregaram algo pesado sem poder pousar em nenhum momento. Ela sentia também que agora não precisava mais fingir estar bem, que agora não seria mais humilhada e não teria que fingir sorrir e esconder sua dor, talvez ela tenha se libertado, por mais que a dor ainda seja detruidora detro dela, ainda assim, ela também sabia que estava livre... de amar e não ser amada.
O celular vibrou.Ela olhou para a tela. Arthur. Ficou olhando por um segundo — para o nome, para o número que havia salvo com aquela simplicidade de quem nunca imaginou que um dia olharia para aquele nome e sentiria o que estava sentindo. Depois recusou. Vibrou de novo. Recusou de novo. Depois as mensagens começaram.
Arthur: Precisamos conversar.
Ela ficou olhando para aquela frase. Precisamos conversar — como se houvesse conversação disponível. Como se as palavras pudessem retroativamente desfazer a geometria daquele quarto com aqueles lençóis e aqueles corpos e aquele olhar que havia na expressão dela quando Valéria havia aberto a porta.
Arthur:Você está exagerando, eu pensei...que fosse somente contrato.
Aquela frase chegou de uma forma diferente.
Não com raiva — havia passado da fase da raiva fácil, havia passado dela ali na mansão quando havia dito aquelas cinco palavras e virado. O que havia nela agora quando leu você está exagerando era algo mais fundo e mais triste do que raiva. Era o reconhecimento de que aquele homem — aquele homem que havia dormido ao lado dela por três anos, que havia compartilhado refeições e decisões e os silêncios noturnos que existem quando dois corpos habitam o mesmo espaço — ainda não havia entendido o que havia acontecido. Ou havia entendido e havia escolhido aquela frase assim mesmo. E ela não sabia qual das duas opções era mais devastadora.
Arthur: Atende.
Valéria desligou o aparelho. Ela não precisava passar por isso, não mais, agora ela estava livre. Olhou para ele , seu aparelho, por um momento — aquele objeto que havia sido, durante dois anos, o fio condutor de uma vida que achava que estava construindo — e o lançou sobre a cama.
Depois ficou olhando para a cidade e sussurrou:
—Estou livre...







