Mundo de ficçãoIniciar sessãoNo dia seguinte, contratou um advogado. Doutor Henrique tinha aquele escritório de quem não precisava impressionar — livros reais nas prateleiras, mesa de trabalho com a organização de quem usa o espaço e não apenas o habita, aquela qualidade de lugar onde as coisas acontecem de verdade. Ele a ouviu.
Sem interromper. Sem aquela pressa de quem já sabe o que vai dizer antes de ouvir completamente. Com aquela atenção específica dos profissionais que entendem que ouvir é parte do trabalho e não apenas precede o trabalho.
— Se a senhora está decidida — disse ele, quando ela terminou —, iniciaremos imediatamente.
— Estou.
Assinou os documentos. Sem tremer. Se agarrando ao mantra, estou livre e ele me traiu todo esse tempo.Com aquela firmeza que havia encontrado no espelho do hotel e que havia trazido consigo para aquela manhã — não a firmeza construída, não a postura de esforço. A firmeza que existe quando a decisão foi tomada no nível correto e o que está acontecendo externamente é apenas o registro daquilo.
Ao sair do escritório, a luz do sol chegou primeiro. Depois os microfones. Havia imprensa na calçada — não muita, mas suficiente, com aquela presença específica de quem recebeu uma informação e chegou antes que qualquer um dos envolvidos houvesse tido a chance de preparar o próprio lado da história.
Alguém havia vazado. Sua mente cuspiu o nome dela "Rebecca".
— Senhora Valéria — um microfone. — Confirma o divórcio?
— Houve traição? — outro.
— Rebecca está envolvida?
Valéria ergueu o queixo. Seus olhos fitaram o carro preto que a esperava. Caminhou com elegancia. Não correu — corrida revelaria que havia algo para fugir. Não desviou de nenhum dos microfones com movimentos bruscos que revelavam a ansiedade que o movimento brusco está tentando esconder. Atravessou com aquela serenidade específica de quem descobriu que o silêncio, quando usado corretamente, é mais eloquente do que qualquer resposta. Ela queria sair dali, fugir, sua postura mostrava firmeza mas seu coração fraqueza, e então um homem loiro e alto apareceu , camisa preta e um olculos escuro ele a puxou e se colocou a frente dela, ela mandou que saissem todos da volta dela e aconduziu até o carro no qual ele abriu a porta e ela entrou, atonita , ela olhava para ele, ele parecia conhecido para ela, mas quem? Quem seria esse homem misterioso que a salvava da midia e dos abutres que estavam sugando a? Ele a deixou no carro e saiu dali. Ele a ajudou.
Dentro do carro, quando a porta fechou e o mundo de fora ficou do outro lado do vidro — o motorista entendeu sem precisar de instrução que era hora de partir — Seu olhar acompanhou o sujeito alto, forte de cabelos loiros bem amparados que se afastava e conseguia sumir na multidão, quem é ele?
De repente, aquela vontade de desabar que havia estado esperando pacientemente o momento certo desde o dia anterior, que havia sido adiada pela cama do hotel e o chuveiro e o espelho e a assinatura e os microfones, que havia ficado ali com aquela paciência das coisas que sabem que seu momento chegará. ela chorou em silêncio, limpou a garganta e as lagrimas, Valéria respirou. Fundo.
— Escritório — disse ela.
O motorista assentiu. Se a vida pessoal havia ruído, ao menos o trabalho ainda obedecia a regras claras. Ainda havia ações que produziam resultados previsíveis. Ainda havia uma linguagem que ela conhecia bem o suficiente para navegar sem que o chão cedesse embaixo dos pés. Precisava de chão firme. Mesmo que temporário.
Horas depois, Arthur apareceu sem aviso. Ela não havia esperado muita coisa daquele dia, havia antecipado várias formas possíveis de como as coisas poderiam se desenvolver, mas não havia calculado aquilo. Não havia calculado que ele viria pessoalmente, que atravessaria o andar inteiro com aquela expressão e aquele terno e aqueles passos que o andar inteiro havia silenciado para acompanhar. Ela ouviu o silêncio antes de levantá-los olhos.
Havia aprendido aquilo — que havia um tipo de silêncio que um ambiente produz quando algo ou alguém importante entra nele, uma qualidade de atenção coletiva que existe antes que qualquer pessoa individualmente decida prestar atenção. Arthur fechou a porta. Trancou.
E ficou de pé diante da mesa dela com aquela expressão — ela estava lendo, havia ficado boa em ler aquela expressão naquele dia — que era ao mesmo tempo o que havia esperado encontrar e algo que não havia antecipado completamente.







