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Capítulo 02: O Despertar de Maia:

A escuridão não foi um fim, mas um mergulho sufocante onde o tempo deixou de existir, reduzido ao eco do riso de Ricardo e ao gosto de cobre do próprio sangue. Até que algo a puxou de volta.

O ar invadiu seus pulmões com força, queimando. Seu corpo reagiu em um solavanco, fazendo-a sentar-se na cama com o coração disparado. Seus olhos piscaram diante da luz suave que preenchia o quarto. Tudo era tão diferente do porão que, por um instante, pareceu irreal. Aos poucos seus sentidos se ajustaram, e ela reconheceu o perfume de lavanda e o aroma das velas, substituindo o mofo e a umidade que ainda assombravam sua memória.

Com as mãos trêmulas, tateou os lençóis de seda. Ao perceber seus pulsos livres e sem marcas, sentiu as lembranças voltarem de uma vez, trazendo o veneno, a traição de Juliana, o plano contra seus pais e o segredo envolvendo o General Caspian. Seu estômago se revirou. Maia levou a mão à boca, ainda sentindo o leve resquício da alquimia em sua língua.

Ela se levantou e foi até o espelho, encarando o próprio reflexo intacto e jovem. No entanto, seus olhos já não eram os mesmos; carregavam um brilho frio e afiado que não existia antes.

Ao olhar para o calendário sobre a escrivaninha, compreendeu tudo.

“Consegui! Realmente deu certo!”, pensou com clareza.

A realidade se organizou, transformando o medo de um erro em certeza absoluta. Agora ela conhecia cada passo dos traidores e cada mentira que eles tentariam repetir. Maia endireitou os ombros, sentindo a determinação vibrar sob sua pele, enquanto encarava o próprio reflexo com um olhar firme.

— Eles acham que podem me descartar como lixo? — murmurou para si mesma. — Mal sabem que já não sou mais a mesma.

Desta vez, não haveria piedade. Ela tinha tempo suficiente para desmontar a conspiração e garantir que, quando o contrato fosse assinado, o sangue derramado não seria o seu.

Um leve rangido na porta a colocou em alerta imediato. Seu corpo se enrijeceu instintivamente enquanto seus olhos se voltavam para a entrada, ainda carregados da tensão que não havia se dissipado por completo.

— Quem é? — Sua voz saiu mais firme do que esperava, embora ainda carregasse um resquício da inquietação que a dominava.

— Senhorita, sou eu, Ana… por que não me chamou? — respondeu a criada ao se aproximar com cuidado, a expressão marcada por uma preocupação genuína.

Ao vê-la, Maia sentiu um aperto inesperado no peito. Ana havia crescido ao seu lado, sempre leal, sempre presente. E, mesmo assim, fora afastada injustamente por influência de Juliana na outra vida, substituída sem que Maia tivesse percebido o erro a tempo. O arrependimento veio como uma pontada silenciosa. Ela se levantou e, quase sem pensar, estendeu os braços e puxou a criada para um abraço apertado, como se precisasse confirmar que ela realmente estava ali.

Ana, surpresa, demorou um instante para reagir. Afastou-se logo em seguida com um olhar confuso.

— Senhorita… o que houve? A senhora está diferente.

Maia respirou fundo, contendo a emoção que ameaçava transparecer, e levou a mão ao rosto para limpar discretamente a lágrima que havia escapado.

— Não foi nada… apenas tive um pesadelo — respondeu, tentando recuperar a compostura, embora sua voz ainda carregasse um peso que não passou despercebido. — Ana… não se afaste de mim.

A criada franziu levemente a testa, mas logo assentiu com naturalidade, sem questionar além do necessário.

— Claro que não! Deve ter sido um pesadelo assustador… venha, beba um pouco de água, isso vai ajudar — disse, guiando-a de volta até a cama com cuidado, enquanto pegava um copo e o estendia em seguida.

Maia aceitou, mais pelo gesto do que pela necessidade. Manteve o olhar atento a cada movimento de Ana, como se quisesse gravar cada detalhe.

— Quer que eu chame a Juliana? — perguntou a criada, sem qualquer malícia, apenas seguindo o hábito de sempre.

— Não — respondeu Maia de imediato, rápido demais para parecer natural.

Ana hesitou por um instante, coçando levemente a cabeça. Percebeu que algo estava diferente, embora atribuísse aquilo apenas ao efeito do pesadelo.

— Está bem… posso ficar aqui até a senhora se acalmar, depois a Juliana pode assumir.

Antes que ela pudesse continuar, Maia estendeu a mão e segurou o pulso de Ana, impedindo-a de se afastar. O gesto carregava uma urgência silenciosa.

— Prepare tudo para irmos à fazenda. Partiremos logo após o café. Leve minha roupa de montaria — disse com firmeza, já assumindo o controle da situação.

— Certo… vou avisar a Juliana e o cocheiro — respondeu Ana, automaticamente.

— Não — interrompeu Maia, agora mais controlada, porém igualmente decidida. — Iremos apenas nós duas. Juliana tem outros assuntos para resolver e não virá conosco.

Ana a encarou por um breve instante, surpresa com a mudança repentina, mas acabou concordando com um leve aceno, mesmo sem compreender totalmente.

— Como desejar, senhorita… então vou preparar tudo.

— Faça isso — completou Maia, soltando sua mão aos poucos.

Ainda estranhando o comportamento da patroa, Ana se retirou, lançando um último olhar curioso antes de fechar a porta com suavidade. O quarto mergulhou novamente em silêncio.

Maia sabia que precisava de provas e, acima de tudo, de aliados em quem pudesse confiar. Ela não podia se dar ao luxo de errar enquanto não soubesse quem mais, dentro da sua própria casa, estava jogando ao lado de Juliana e Ricardo. Era essencial fazer uma limpeza em seu espaço particular, eliminando cada sombra de dúvida antes de dar o próximo passo.

Ao sentar-se na escrivaninha, ela mergulhou em suas próprias lembranças em busca de qualquer detalhe útil. Forçou-se a reviver conversas, gestos e situações que antes pareciam sem importância, mas que agora gritavam a verdade. À medida que reconstruía esses momentos, sentiu o estômago revirar. As memórias vinham carregadas de traição e do gosto amargo do veneno, trazendo um mal-estar tão real que era impossível ignorar o peso de tudo o que tinha vivido.

Sentindo uma onda forte de enjoo, Maia se levantou abruptamente, sabendo que não conseguiria ficar parada nem mais um segundo.

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