Mundo de ficçãoIniciar sessãoO primeiro raio de sol cortou a penumbra do quarto como uma lâmina, iluminando a silhueta de Maia sentada à escrivaninha. O peso das lembranças ainda pulsava em suas têmporas. Quando Ana entrou, o som do lacre de cera quente sendo pressionado contra o papel foi a única saudação.
— Senhorita, o desjejum — anunciou Ana, depositando a bandeja de prata com movimentos precisos. — O que me pediu já está pronto. A carruagem está sendo preparada para quando precisar.
Maia levantou-se, com os dedos ainda levemente manchados de tinta. Seus olhos, antes doces, agora carregavam a dureza do metal. Ela estendeu um envelope selado com seu brasão pessoal.
— Entregue esta carta pessoalmente à criada de minha avó. Não deixe que ninguém a intercepte, Ana.
Ana assentiu com uma reverência silenciosa e retirou-se. Maia ficou sozinha com o silêncio e o vapor do chá, perdida em pensamentos e planos, até que a porta se abriu sem o aviso de batidas.
— Maia! — A voz de Juliana entrou no quarto, carregada de uma falsa doçura. — Que bom que já lhe serviram!
Juliana sentou-se com uma intimidade que, na vida anterior, Maia chamaria de irmandade, mas que agora fedia a audácia. Ela pegou uma torrada, agindo como se fosse a dona do aposento. Maia a observou por cima da borda da xícara. O contraste era doloroso: as lembranças da traição e do calabouço ainda queimavam em sua mente, enquanto ali, diante dela, Juliana sorria com pura falsidade.
Maia percebeu, com uma clareza cortante, o quão profunda fora sua ingenuidade. Ela não havia sido apenas traída; havia permitido que uma serpente se alimentasse em sua própria mão.
— Você parece distante… — comentou Juliana, arqueando uma sobrancelha. — Aconteceu algo?
— Pelo contrário, Juliana — Maia respondeu, sua voz saindo tão calma e fria quanto uma lâmina. — Finalmente comecei a enxergar algumas coisas que antes não percebia.
Juliana parou com a torrada a meio caminho da boca. O sorriso vacilou por apenas um milésimo de segundo antes de se recompor.
— Que coisas? — perguntou ela, forçando uma risada leve. — Você fala como se tivesse tido uma revelação divina durante a noite. É por causa do evento dos pretendentes? Fiquei sabendo que seu amigo Ricardo também virá à festa.
Maia pousou a xícara no pires sem fazer um único ruído. O silêncio que se seguiu foi pesado. Ela inclinou o corpo ligeiramente para a frente, fixando o olhar no rosto da mulher que um dia chamou de irmã.
— É apenas uma festa, Juliana. O que eu percebi é que estava andando de olhos fechados — Maia sorriu, mas o brilho em seus olhos não alcançava o rosto. — Decidi ir à fazenda hoje. Preciso resolver algumas coisas.
Juliana arregalou os olhos, surpresa.
— Hoje? Mas… o senhor Ricardo está esperando que você o acompanhe ao conselho da Majestade amanhã!
Maia levantou-se com elegância, caminhando até a janela para observar o movimento das carruagens lá embaixo.
— Ricardo terá que aprender a se apresentar sozinho perante a Majestade — Maia virou-se, e o olhar cortante fez Juliana encolher os ombros instintivamente. — Antes de partir, preciso que me faça um favor. Preciso de algumas ervas raras de difícil acesso. Como você está aprendendo sobre flores e botânica, deixo essa tarefa em suas mãos. É para um novo tônico que descobri.
Maia aproximou-se, entregando-lhe o papel com a lista. Em seguida, caminhou até a porta, onde Ana já a aguardava com as malas de mão.
— Ana irá comigo para a fazenda agora. Você, Juliana… não volte sem as ervas. Se conseguir, eu lhe ensino a fórmula. Esse tônico é vital para a vovó e também quero mandar um pouco para os meus pais.
Juliana engoliu em seco, claramente desconfortável com a nova aura imperiosa de Maia, mas forçou um aceno.
— Claro… eu nunca falho em uma missão.
— Eu sei que não — murmurou Maia para si mesma, cruzando o batente da porta sem olhar para trás.
O som dos passos de Maia e Ana ecoou pelo corredor até sumir. Sozinha no quarto, o sorriso de Juliana desmoronou, dando lugar a uma expressão de confusão e irritação. Ela caminhou até a escrivaninha, batendo os dedos nervosamente na madeira, até que seus olhos pararam sobre um objeto: o envelope selado com o brasão pessoal de Maia.
— É impressão minha… ou ela ficou louca? — murmurou Juliana para as paredes vazias.
Seus dedos deslizaram sobre o papel. Maia nunca esquecia nada. Com um olhar rápido em direção à porta, Juliana pegou o envelope. Ela não sabia, mas naquele exato momento, estava mordendo a primeira isca que Maia acabara de lançar.
Dentro da carruagem, o balanço constante era o único som, até que Maia notou o desconforto da criada. Ana torcia as mãos, com os olhos fixos nos próprios joelhos.
— Pergunte o que está pensando, Ana — disse Maia, sem desviar o olhar da estrada.
— Não é nada demais, senhorita… mas é que a senhorita Juliana era quem sempre a acompanhava. Desculpe, não queria ser intrometida — falou Ana, sem graça.
Maia olhou para a criada com uma expressão que Ana ainda não conseguia decifrar completamente.
— Ana, antes eu estava cega. Agora, preciso fazer algumas mudanças. — Ela pegou um saco de moedas de ouro e uma carta. — Avise o cocheiro para fazer uma parada na entrada da Torre do Oráculo. Entregue isto ao gerente. Seja rápida.
Ana assentiu e cumpriu a ordem com eficiência. Assim que deixaram a área residencial de Telrion, o caminho se abriu para o campo até chegarem à fazenda da família. A atmosfera ali era diferente, mais leve e propícia para o que Maia precisava planejar.
Assim que se alojaram, Maia se trancou em seu aposento. Horas se passaram enquanto ela se debruçava sobre seus frascos de alquimia. O cheiro de ervas frescas e flores raras começou a escapar pelas frestas da porta, preenchendo o corredor. Ao final da tarde, ela saiu do quarto, já vestida com trajes de montaria.
— Vou dar um passeio, não se preocupe comigo — avisou Maia, ajustando a roupa ao corpo. — Procure um mensageiro de confiança, alguém que seja rápido, e mande entregar esta carta diretamente nas mãos de meu pai. Seja extremamente discreta.
— Não quer levar ninguém para acompanhá-la? — Ana perguntou, preocupada.
— Vou sozinha. Não sairei dos limites da fazenda — respondeu Maia, dirigindo-se ao estábulo sem esperar que a criada pudesse protestar.
Montando seu cavalo, Maia disparou pelos terrenos da fazenda. Ela não estava ali para apreciar a bela vista. Deixou o animal correr com toda a força, como se pudesse voar através da paisagem, deixando o vento apagar os últimos vestígios da garota ingênua que havia morrido no futuro.







