Mundo de ficçãoIniciar sessãoMaia Moura tinha tudo para ter uma vida perfeita no reino de Telrion. Filha única do poderoso marquês, ela escondia sua inteligência e treinamento militar atrás do disfarce de uma jovem que apenas entendia de tônicos e licores. Ela acreditava que seu futuro estava garantido ao lado de Ricardo, o sobrinho ambicioso do rei, mas tudo não passava de uma armadilha cruel. Em uma única noite, o mundo de Maia desabou. Ela descobriu que seus pais foram assassinados e que as duas pessoas em quem mais confiava — seu noivo, Ricardo, e sua prima, Juliana, a quem amava como irmã — planejaram sua ruína. Usando uma fórmula de transmutação criada em segredo pela própria Maia, Juliana roubou seu rosto e sua identidade. Para piorar, antes de ser envenenada e abandonada à própria sorte, Maia ouviu o plano final de Ricardo: matar Caspian, o filho bastardo, verdadeiro herdeiro do trono. Só que o destino tinha outros planos. Em vez de morrer, usa seu último recurso sombrio. Maia abre os olhos de volta aos seus dezessete anos, exatamente dias antes de sua família começar a procurar um pretendente para ela — o ponto de partida que deu início à sua desgraça na sua vida. Agora, com memórias do futuro e o coração transformado em gelo, a garota ingênua ficou no passado. Maia sabe quem são os traidores dentro da sua própria casa e o que precisa fazer para sobreviver. Determinada a mudar o roteiro da história, ela decide ir atrás de Caspian para destruir os planos de Ricardo. Maia planejou cada passo dessa nova etapa com frieza, sem espaço para arrependimentos. O trono está em jogo e, desta vez, ela não veio para perdoar. Ela só não contava com uma falha em sua armadura: seu próprio coração.
Ler maisO frio do porão não era nada comparado ao gelo que subiu pela espinha de Maia ao sentir o metal das correntes pressionando seus pulsos. Rígido, cruel e definitivo, o aperto parecia anunciar, sem qualquer piedade, o destino que a aguardava. O ar era pesado, úmido e carregado de um cheiro antigo de pedra e abandono. A dor latejante em seu corpo e o gosto metálico em sua boca traziam de volta fragmentos confusos do que havia acontecido — memórias ainda desconexas, distantes demais para formar uma verdade completa.
— Acordou? — A voz carregada de ironia cortou a penumbra, ecoando pelo espaço estreito como um aviso de que nada ali era por acaso.
Maia piscou várias vezes, lutando contra a visão turva até conseguir focar no rosto que emergia das sombras. Quando finalmente o reconheceu, algo dentro dela pareceu se partir de forma irreversível. Era ele. O homem que até poucas horas antes ela chamava de “meu esposo” estava diante dela com um olhar frio, vazio e completamente distante de qualquer sentimento que um dia ela acreditou existir.
— Ricardo? O que significa isso? Por que estou acorrentada? — Sua voz saiu embargada, tomada pela confusão e por um medo crescente que se infiltrava em cada palavra.
Ricardo não respondeu de imediato. Preferiu avançar lentamente, saboreando cada segundo daquele momento. Então, sem qualquer aviso, cravou os dedos nos cabelos dela e puxou sua cabeça para trás com força, obrigando-a a encará-lo enquanto a dor se espalhava pelo seu couro cabeludo.
— Considere um presente de despedida — disse ele, com os olhos brilhando de desprezo. — Diga-me, Maia… você foi mesmo ingênua o bastante para acreditar que eu a amava?
A gargalhada que se seguiu ecoou pelas paredes úmidas. Distorcida e cruel, ela arrancou de Maia qualquer resquício de negação.
— Eu não entendo… por que está fazendo isso? — Ela tentou se debater, mas as correntes se cravaram ainda mais em sua pele, arrancando dor a cada movimento inútil.
A resposta veio em forma de violência. Um impacto seco atingiu seu rosto com brutalidade, fazendo sua cabeça girar para o lado. O estalo ecoou no silêncio do porão, seguido pelo gosto quente e amargo do sangue que inundou sua boca, tornando tudo dolorosamente real.
— Como não preciso mais de você, a verdade se torna um luxo que posso conceder — disse Ricardo, com a voz fria como uma lâmina. — Por um ano inteiro, tive que engolir sua presença e fingir sentimentos que nunca existiram, enquanto escondia quem realmente importava. Mas agora posso descartá-la. Você é um lixo, Maia. Já temos tudo o que precisamos.
Nesse instante, a porta do porão rangeu lentamente. O som arrastado preencheu o ambiente com uma tensão ainda mais densa. Maia ergueu os olhos, sentindo o ar abandonar seus pulmões. A figura que se aproximava parecia um reflexo distorcido de si mesma: os mesmos traços, o mesmo porte, a mesma postura. No entanto, o olhar era completamente diferente — calculista e carregado de uma inveja silenciosa.
Com um atraso doloroso, Maia reconheceu Juliana. Ela vestia suas roupas e ocupava, sem hesitação, o lugar que sempre fora seu.
— O que… — A voz de Maia falhou, incapaz de sustentar o peso daquela cena.
Juliana se aproximou sem pressa e se sentou em uma cadeira de carvalho, cruzando as pernas com elegância impecável, como se já pertencesse àquele lugar. Então, exibiu um sorriso que não carregava calor algum, apenas triunfo.
— Surpresa? — disse ela suavemente. — Em que momento você imaginou que a “pobre prima” tomaria tudo o que é seu? Glória, poder, riqueza e cada um dos seus títulos… agora tudo será meu.
— Juliana… por quê? — Lágrimas quentes começaram a escorrer pelo rosto de Maia, misturando-se ao sangue. — Você era como uma irmã… eu sempre te dei o melhor…
Juliana se levantou abruptamente. Por um instante, a máscara de elegância se rompeu, revelando o ódio acumulado por anos.
— Com que direito você me cobra algo? Você sempre teve o mundo aos seus pés, enquanto eu era obrigada a viver na sua sombra, mesmo tendo o sangue dos Moura correndo nas veias!
— Como assim? Você é…
— Cale a boca! — Juliana explodiu. — Você não sabe de nada! Fui aceita nessa família como sua dama de companhia, mas sou sua prima, a marca viva da filha bastarda do seu tio. Uma mancha que precisava ser escondida! Eu também tenho direitos…
O mundo girou ao redor de Maia.
— Por que não me contou? Eu teria enfrentado todos por você…
— Eu não quero as suas migalhas — rebateu Juliana, com os olhos brilhando. — Eu quero tudo. E com a pílula de transmutação que você mesma criou em segredo, eu vou assumir o seu lugar permanentemente. Para que não haja falhas… você precisa desaparecer.
— Juliana, não faça isso! Eu confiei em você, isso vai te destruir! Meus pais vão perceber, a vovó vai saber!
— Não se preocupe com eles — disse Juliana com frieza, caminhando até Ricardo e envolvendo o pescoço dele com os braços. — Já cuidei de cada detalhe.
Ricardo segurou a mão dela e a beijou lentamente, encarando Maia com um prazer cruel.
— Seus pais… sofreram um terrível acidente. A carruagem caiu no despenhadeiro. A notícia só chegará daqui a uma semana, quando eu e a minha “esposa” já estivermos livres dos protocolos. Sem lutas. Sem atrasos. Apenas o poder.
— NÃOOOOO! — O grito de Maia rasgou o porão.
Juliana avançou e apertou sua garganta com força letal, despejando todo o seu ódio.
— Isso é o que você me deve por cada ano de humilhação. Você foi burra demais.
Ricardo retirou um pequeno frasco de cristal do bolso, girando-o entre os dedos com satisfação.
— Eu devo te agradecer, Maia. Suas pílulas secretas foram meu maior trunfo. Com elas, posso reinar tranquilo. O General Caspian era o único espinho no meu caminho, o verdadeiro filho de sangue do rei. Mas com a morte dele, o trono é meu. Surpresa? Caspian é o bastardo real escondido no exército… e ele não vai reivindicar nada. Eu, o filho adotado, serei o Rei.
— Vocês são monstros… não temem a justiça? — Maia tentou dizer, já sem ar.
— Querida, eu serei a justiça — Ricardo sorriu. — Eu serei a lei.
Juliana forçou a mandíbula de Maia, empurrando o comprimido amargo goela abaixo.
— Vocês não merecem viver… — Maia reuniu suas últimas forças, encarando-os com puro rancor. — Nem que eu volte do inferno… eu vou destruir vocês…
Os dois riram, frios e cruéis.
— Vamos — disse Ricardo, virando-se de costas. — Não há mais nada para nós aqui. Vamos assumir o trono.
Na porta, ele ordenou aos guardas:
— Esperem até a noite. Livrem-se do corpo e queimem tudo. Não quero vestígios.
Maia tentou se mover uma última vez, mas seu corpo já não respondia. Enquanto o riso dos traidores ainda ecoava pelo corredor, ela usou, com muito esforço, seu último recurso… dando início a algo muito mais perigoso.
As palavras de Maia pairaram no ar fresco da manhã como uma névoa densa. A insinuação de que ele desconhecia coisas sobre si mesmo havia tocado em uma ferida invisível, e Caspian não era homem de recuar diante de enigmas ou provocações.Dando um passo lento e intimidador em direção a ela, ele estreitou os olhos, a voz descendo uma oitava, fria e direta:— Inclusive a você?Maia sentiu o peso da presença dele. Ela desviou o olhar por uma fração de segundo, fingindo ajustar a manga de seu vestido para disfarçar o próprio desconforto. A proximidade física de Caspian a lembrava de que, apesar de toda a sua mente calculista, ele ainda era uma força da natureza implacável — e que ela estava jogando um jogo perigoso ao atiçar o passado que ele sequer lembrava de ter.Ela caminhou alguns passos pelo pátio, afastando-se daquela pressão sufocante. Após alguns segundos de silêncio, onde apenas o farfalhar das folhas e o som distante de um cavalo podiam ser ouvidos, ela se virou para encará-lo co
Assim que a porta pesada se fechou após a saída de Caspian, o silêncio no salão principal durou pouco. Maia respirou fundo, contendo a descarga de adrenalina que aquela negociação exigira, e chamou Ana e Marcos imediatamente.— Tudo está acertado — anunciou ela, cruzando os braços. — Agora precisamos organizar o próximo passo. Marcos, vou precisar que contrate guardas de confiança para proteger esta propriedade. Eu, Ana e Caspian partiremos o quanto antes ao encontro de meus pais.— Continuo achando essa ideia um perigo sem tamanho — Ana interveio, com a franqueza habitual estampada no rosto preocupado.— Concordo com a Ana, senhorita — Marcos deu um passo à frente. — Sabemos que a senhorita possui um dom especial. Por que se arriscar dessa maneira se pode resolver as coisas de outra forma?Maia olhou para os dois, os únicos em quem realmente podia confiar naquele mundo de aparências.— Sim, eu tenho meus recursos. Mas tudo tem um preço nesta vida — explicou Maia, com a voz baixa e sér
O silêncio que se seguiu à pergunta de Caspian pesou no salão principal. Ele permanecia de pé, com os braços cruzados e o corpo tenso, esperando uma resposta que justificasse aquela aliança. Maia não se moveu. Mantendo os dedos entrelaçados sobre a mesa de madeira rústica, ela o encarou com a mesma tranquilidade de quem antecipava cada movimento do oponente.— Minha proposta é simples, senhor Caspian, embora exija coragem — Maia começou, a voz num tom baixo e firme que ecoou pelas paredes de pedra. — Você quer uma garantia de que meus homens o seguirão e de que terá os recursos necessários para erguer seu exército. Eu preciso de um escudo legal que impeça a corte de Telrion de confiscar os bens de minha família e o comando de nossas tropas através de um matrimônio forçado. A solução para ambos está diante de nós.Caspian inclinou a cabeça levemente, os olhos semicerrados em pura desconfiança.— E qual seria essa solução?— Nós dois vamos nos casar.A declaração caiu no ambiente com a
Os primeiros raios de sol da manhã invadem a cozinha, mas o calor não é suficiente para dissipar a tensão que paira sobre a mesa. Maia, agora com as feições descansadas, mas o olhar fixo e cortante, encara Ana e Marcos de forma resoluta.— Minha mente está mais lúcida hoje — Maia começa, a voz firme quebrando o silêncio. — Ontem cheguei exausta e falei coisas no calor do momento. Mas mudei os planos.— O que quer dizer com isso, Maia? — Ana pergunta, franzindo a testa com um pressentimento ruim.— Eu vou voltar para a capital.O anúncio cai como uma bomba na sala. Ana se levanta da cadeira em um salto, empurrando-a para trás com os olhos arregalados de puro espanto.— Ficou louca?! Isso é suicídio! Eles estão caçando você, não tem medo do que pode acontecer?— Medo? É algo que não pode interferir, Ana — Maia responde, sem sequer piscar. — Se os mercenários me procuram, significa que deixei um rastro escapar na capital. Ficar aqui sentada esperando que invadam minha casa não faz parte
Último capítulo