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Contrato Após Traição
Contrato Após Traição
Por: Nena Abrahão
Capítulo 01: O Gosto Amargo da Traição.

O frio do porão não era nada comparado ao gelo que subiu pela espinha de Maia ao sentir o metal das correntes pressionando seus pulsos. Rígido, cruel e definitivo, o aperto parecia anunciar, sem qualquer piedade, o destino que a aguardava. O ar era pesado, úmido e carregado de um cheiro antigo de pedra e abandono. A dor latejante em seu corpo e o gosto metálico em sua boca traziam de volta fragmentos confusos do que havia acontecido — memórias ainda desconexas, distantes demais para formar uma verdade completa.

— Acordou? — A voz carregada de ironia cortou a penumbra, ecoando pelo espaço estreito como um aviso de que nada ali era por acaso.

Maia piscou várias vezes, lutando contra a visão turva até conseguir focar no rosto que emergia das sombras. Quando finalmente o reconheceu, algo dentro dela pareceu se partir de forma irreversível. Era ele. O homem que até poucas horas antes ela chamava de “meu esposo” estava diante dela com um olhar frio, vazio e completamente distante de qualquer sentimento que um dia ela acreditou existir.

— Ricardo? O que significa isso? Por que estou acorrentada? — Sua voz saiu embargada, tomada pela confusão e por um medo crescente que se infiltrava em cada palavra.

Ricardo não respondeu de imediato. Preferiu avançar lentamente, saboreando cada segundo daquele momento. Então, sem qualquer aviso, cravou os dedos nos cabelos dela e puxou sua cabeça para trás com força, obrigando-a a encará-lo enquanto a dor se espalhava pelo seu couro cabeludo.

— Considere um presente de despedida — disse ele, com os olhos brilhando de desprezo. — Diga-me, Maia… você foi mesmo ingênua o bastante para acreditar que eu a amava?

A gargalhada que se seguiu ecoou pelas paredes úmidas. Distorcida e cruel, ela arrancou de Maia qualquer resquício de negação.

— Eu não entendo… por que está fazendo isso? — Ela tentou se debater, mas as correntes se cravaram ainda mais em sua pele, arrancando dor a cada movimento inútil.

A resposta veio em forma de violência. Um impacto seco atingiu seu rosto com brutalidade, fazendo sua cabeça girar para o lado. O estalo ecoou no silêncio do porão, seguido pelo gosto quente e amargo do sangue que inundou sua boca, tornando tudo dolorosamente real.

— Como não preciso mais de você, a verdade se torna um luxo que posso conceder — disse Ricardo, com a voz fria como uma lâmina. — Por um ano inteiro, tive que engolir sua presença e fingir sentimentos que nunca existiram, enquanto escondia quem realmente importava. Mas agora posso descartá-la. Você é um lixo, Maia. Já temos tudo o que precisamos.

Nesse instante, a porta do porão rangeu lentamente. O som arrastado preencheu o ambiente com uma tensão ainda mais densa. Maia ergueu os olhos, sentindo o ar abandonar seus pulmões. A figura que se aproximava parecia um reflexo distorcido de si mesma: os mesmos traços, o mesmo porte, a mesma postura. No entanto, o olhar era completamente diferente — calculista e carregado de uma inveja silenciosa.

Com um atraso doloroso, Maia reconheceu Juliana. Ela vestia suas roupas e ocupava, sem hesitação, o lugar que sempre fora seu.

— O que… — A voz de Maia falhou, incapaz de sustentar o peso daquela cena.

Juliana se aproximou sem pressa e se sentou em uma cadeira de carvalho, cruzando as pernas com elegância impecável, como se já pertencesse àquele lugar. Então, exibiu um sorriso que não carregava calor algum, apenas triunfo.

— Surpresa? — disse ela suavemente. — Em que momento você imaginou que a “pobre prima” tomaria tudo o que é seu? Glória, poder, riqueza e cada um dos seus títulos… agora tudo será meu.

— Juliana… por quê? — Lágrimas quentes começaram a escorrer pelo rosto de Maia, misturando-se ao sangue. — Você era como uma irmã… eu sempre te dei o melhor…

Juliana se levantou abruptamente. Por um instante, a máscara de elegância se rompeu, revelando o ódio acumulado por anos.

— Com que direito você me cobra algo? Você sempre teve o mundo aos seus pés, enquanto eu era obrigada a viver na sua sombra, mesmo tendo o sangue dos Moura correndo nas veias!

— Como assim? Você é…

— Cale a boca! — Juliana explodiu. — Você não sabe de nada! Fui aceita nessa família como sua dama de companhia, mas sou sua prima, a marca viva da filha bastarda do seu tio. Uma mancha que precisava ser escondida! Eu também tenho direitos…

O mundo girou ao redor de Maia.

— Por que não me contou? Eu teria enfrentado todos por você…

— Eu não quero as suas migalhas — rebateu Juliana, com os olhos brilhando. — Eu quero tudo. E com a pílula de transmutação que você mesma criou em segredo, eu vou assumir o seu lugar permanentemente. Para que não haja falhas… você precisa desaparecer.

— Juliana, não faça isso! Eu confiei em você, isso vai te destruir! Meus pais vão perceber, a vovó vai saber!

— Não se preocupe com eles — disse Juliana com frieza, caminhando até Ricardo e envolvendo o pescoço dele com os braços. — Já cuidei de cada detalhe.

Ricardo segurou a mão dela e a beijou lentamente, encarando Maia com um prazer cruel.

— Seus pais… sofreram um terrível acidente. A carruagem caiu no despenhadeiro. A notícia só chegará daqui a uma semana, quando eu e a minha “esposa” já estivermos livres dos protocolos. Sem lutas. Sem atrasos. Apenas o poder.

— NÃOOOOO! — O grito de Maia rasgou o porão.

Juliana avançou e apertou sua garganta com força letal, despejando todo o seu ódio.

— Isso é o que você me deve por cada ano de humilhação. Você foi burra demais.

Ricardo retirou um pequeno frasco de cristal do bolso, girando-o entre os dedos com satisfação.

— Eu devo te agradecer, Maia. Suas pílulas secretas foram meu maior trunfo. Com elas, posso reinar tranquilo. O General Caspian era o único espinho no meu caminho, o verdadeiro filho de sangue do rei. Mas com a morte dele, o trono é meu. Surpresa? Caspian é o bastardo real escondido no exército… e ele não vai reivindicar nada. Eu, o filho adotado, serei o Rei.

— Vocês são monstros… não temem a justiça? — Maia tentou dizer, já sem ar.

— Querida, eu serei a justiça — Ricardo sorriu. — Eu serei a lei.

Juliana forçou a mandíbula de Maia, empurrando o comprimido amargo goela abaixo.

— Vocês não merecem viver… — Maia reuniu suas últimas forças, encarando-os com puro rancor. — Nem que eu volte do inferno… eu vou destruir vocês…

Os dois riram, frios e cruéis.

— Vamos — disse Ricardo, virando-se de costas. — Não há mais nada para nós aqui. Vamos assumir o trono.

Na porta, ele ordenou aos guardas:

— Esperem até a noite. Livrem-se do corpo e queimem tudo. Não quero vestígios.

Maia tentou se mover uma última vez, mas seu corpo já não respondia. Enquanto o riso dos traidores ainda ecoava pelo corredor, ela usou, com muito esforço, seu último recurso… dando início a algo muito mais perigoso.

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