Mundo de ficçãoIniciar sessãoOlivia Castelli
Respirei fundo para quebrar aquele frio na barriga que eu estava sentindo e beberiquei meu cappccino e murmurei.
— Henry, por que vocês ficaram tão surpresos quando a Caterine falou?
Seus olhos estavam em mim, enquanto sua xicara estava sendo levada aos lábios até que o movimento da sua mão cessou por um breve segundo.
— Ela falava. Muito. Cantava, fazia perguntas, não ficava um minuto em silêncio aos 4 anos de idade.
Meu peito apertou quando vi sua expressão mudar conforme ele lembrava.
— E então…?
Engolindo em seco, Henry prosseguiu.
— Caterine perdeu a mãe.
O silencio se instalou em nosso meio. Suas palavras foram simples, diretas e dolorosas.
— Não da forma que a morte leva alguém embora. Mas da forma que deixa marcas confusas e dolorosas.
Ele inspirou fundo antes de continuar.
— Depois disso, foram noites inteiras chorando e pedindo pela mãe.
O peso daquela informaçõ estava recaindo sobre mim conforme eu via a dor tomar sua face.
— Todo o choro foi substituido pelo silencio aos poucos. Primeiro com estranhos. Depois com conhecidos. Até restarem apenas gestos, olhares… e eu.
Olhei para Caterine, que agora soprava o chocolate quente com cuidado exagerado. Uma adoravel menina.
— Mutismo seletivo.
Ele completou, com um meio sorriso cansado. Um sorriso que demonstrou o tamanho da sua angustia.
— Os médicos explicam, os livros descrevem, mas…
Ele deu de ombros e prosseguiu.
— Ninguém ensina o que fazer quando o silêncio passa a ser a língua principal da pessoa que você mais ama no mundo.
Havia charme na forma como ele falava dela. Um cuidado quase poético, mesmo quando doía. Um amor cheio de zelo.
— E hoje…
Murmurei, com a voz baixa, já muito emocionada.
— Hoje ela falou.
Ele sorriu de verdade dessa vez. Um sorriso lento, emocionado, orgulhoso.
Um sorriso que eu ainda não havia visto em seus lábios.
— Hoje, sim.
Seus olhos voltaram para mim. Atentos, brilhantes e calorosos.
— Com você.
O silêncio que se seguiu não foi constrangedor.
Foi intenso.
Caterine ergueu o olhar para nós dois, como se percebesse a importância daquele momento, e sorriu.
E eu entendi, enfim, o que Henry tinha me pedido sem palavras.
Ele pedia ajuda.
O pedido silencioso ainda pairava entre nós quando Caterine pigarreou baixinho, chamando atenção para si.
— Olivia… — disse, com esforço, mas sem medo.
Meu coração quase parou.
— Oi, Pequena.
Respondi de imediato, sorrindo enquanto minha atenção era direcionada interamente para ela.
Ela apontou para a xícara vazia de Henry.
— Café… acabou.
Henry piscou, surpreso, e depois soltou uma risada baixa, desacreditada.
— Acabou mesmo.
Ele coçou a garganta e disse.
— E eu nem percebi.
Assentindo, Caterine murmurou.
— Então... quer mais?
Sissi, que observava de longe com um sorriso curioso, apareceu ao nosso lado como se tivesse sido convocada.
— Pedido recebido.
Disse ela fazendo graça.
— Mais um café para o papai da menina mais linda da cidade.
Henry agradeceu, ainda rindo, e quando Sissi se afastou, ele voltou o olhar para mim.
— Ela nunca disse uma unica palavra nos ultimos anos.
Seus olhos estavam levemnte brilhantes enquanto ele entrelçava seus dedos sobre a mesa.
— E agora eu entendi que você a fez falar. Ela confia em você. Na sua presença.
Assenti devagar entendendo o que ele dizia.
— Faz sentido — murmurei. — Algumas pessoas acalmam. Outras… fazem a gente se esconder.
Ele inclinou levemente a cabeça, interessado de repente.
— Você fala por experiência própria, não é?
Sorri de canto e confirmei. Seria obvio para Rouxx, considerando a humilhação que ele presenciou mais cedo.
— Digamos que eu também aprendi a ficar em silêncio por muito tempo.
Os olhos dele suavizaram quando ele perguntou.
— E o que te fez voltar a falar?
Pensei por alguns segundos antes de responder.
— Alguém que não me pressionou. Que ficou. Mesmo quando eu não sabia como explicar o que sentia.
Henry sustentou meu olhar.
— É exatamente isso que eu quero ser para ela.
Eu confirmei com um gesto, desejando pela primeira vez em toda a minha vida, dizer que eu também queria ficar para ela e em meio a um suspiro, ele prosseguiu.
— Alguém que fica.
Caterine estendeu a mão pequena e segurou dois dedos dele, como se confirmasse aquela promessa.
— Você fica, papai.
A voz dela saiu clara. Simples. Firme.
Henry fechou os olhos por um instante, respirando fundo, e quando os abriu, havia algo brilhando ali.
Eu sorri, sentindo o peito aquecer.
Talvez aquela tarde não fosse apenas sobre um café depois do médico.
Talvez fosse o começo de algo que nenhum de nós havia planejado.
Mas que, estranhamente, parecia certo desde o primeiro silêncio compartilhado.
A nova etapa que estava prestes a surgir para a pequena estava começando e eu estava muito feliz por ter ajudado ela, ao menos um pouco.







