Capítulo 07

Olivia Castelli

Respirei fundo para quebrar aquele frio na barriga que eu estava sentindo e beberiquei meu cappccino e murmurei.

      — Henry, por que vocês ficaram tão surpresos quando a Caterine falou?

Seus olhos estavam em mim, enquanto sua xicara estava sendo levada aos lábios até que o movimento da sua mão cessou por um breve segundo.

            — Ela falava. Muito. Cantava, fazia perguntas, não ficava um minuto em silêncio aos 4 anos de idade.

Meu peito apertou quando vi sua expressão mudar conforme ele lembrava.

         — E então…?

Engolindo em seco, Henry prosseguiu.

         — Caterine perdeu a mãe.

O silencio se instalou em nosso meio. Suas palavras foram simples, diretas e dolorosas.

        — Não da forma que a morte leva alguém embora. Mas da forma que deixa marcas confusas e dolorosas.

Ele inspirou fundo antes de continuar.

         — Depois disso, foram noites inteiras chorando e pedindo pela mãe.

O peso daquela informaçõ estava recaindo sobre mim conforme eu via a dor tomar sua face.

      — Todo o choro foi substituido pelo silencio aos poucos. Primeiro com estranhos. Depois com conhecidos. Até restarem apenas gestos, olhares… e eu.

Olhei para Caterine, que agora soprava o chocolate quente com cuidado exagerado. Uma adoravel menina.

       — Mutismo seletivo.

Ele completou, com um meio sorriso cansado. Um sorriso que demonstrou o tamanho da sua angustia.

        — Os médicos explicam, os livros descrevem, mas… 

Ele deu de ombros e prosseguiu.

        — Ninguém ensina o que fazer quando o silêncio passa a ser a língua principal da pessoa que você mais ama no mundo.

Havia charme na forma como ele falava dela. Um cuidado quase poético, mesmo quando doía. Um amor cheio de zelo.

         — E hoje…

Murmurei, com a voz baixa, já muito emocionada.

         — Hoje ela falou.

Ele sorriu de verdade dessa vez. Um sorriso lento, emocionado, orgulhoso.

Um sorriso que eu ainda não havia visto em seus lábios.

         — Hoje, sim.

Seus olhos voltaram para mim. Atentos, brilhantes e calorosos.

         — Com você.

O silêncio que se seguiu não foi constrangedor.

Foi intenso.

Caterine ergueu o olhar para nós dois, como se percebesse a importância daquele momento, e sorriu.

E eu entendi, enfim, o que Henry tinha me pedido sem palavras.

Ele pedia ajuda.

O pedido silencioso ainda pairava entre nós quando Caterine pigarreou baixinho, chamando atenção para si.

       — Olivia… — disse, com esforço, mas sem medo.

Meu coração quase parou.

         — Oi, Pequena.

Respondi de imediato, sorrindo enquanto minha atenção era direcionada interamente para ela.

Ela apontou para a xícara vazia de Henry.

          — Café… acabou.

Henry piscou, surpreso, e depois soltou uma risada baixa, desacreditada.

          — Acabou mesmo.

Ele coçou a garganta e disse.

         — E eu nem percebi.

Assentindo, Caterine murmurou.

          — Então... quer mais?

Sissi, que observava de longe com um sorriso curioso, apareceu ao nosso lado como se tivesse sido convocada.

         — Pedido recebido.

Disse ela fazendo graça.

         — Mais um café para o papai da menina mais linda da cidade.

Henry agradeceu, ainda rindo, e quando Sissi se afastou, ele voltou o olhar para mim.

        — Ela nunca disse uma unica palavra nos ultimos anos.

Seus olhos estavam levemnte brilhantes enquanto ele entrelçava seus dedos sobre a mesa.

        — E agora eu entendi que você a fez falar. Ela confia em você. Na sua presença.

Assenti devagar entendendo o que ele dizia.

          — Faz sentido — murmurei. — Algumas pessoas acalmam. Outras… fazem a gente se esconder.

Ele inclinou levemente a cabeça, interessado de repente.

         — Você fala por experiência própria, não é?

Sorri de canto e confirmei. Seria obvio para Rouxx, considerando a humilhação que ele presenciou mais cedo.

        — Digamos que eu também aprendi a ficar em silêncio por muito tempo.

Os olhos dele suavizaram quando ele perguntou.

     — E o que te fez voltar a falar?

Pensei por alguns segundos antes de responder.

   — Alguém que não me pressionou. Que ficou. Mesmo quando eu não sabia como explicar o que sentia.

Henry sustentou meu olhar.

       — É exatamente isso que eu quero ser para ela.

Eu confirmei com um gesto, desejando pela primeira vez em toda a minha vida, dizer que eu também queria ficar para ela e em meio a um suspiro, ele prosseguiu.

       — Alguém que fica.

Caterine estendeu a mão pequena e segurou dois dedos dele, como se confirmasse aquela promessa.

       — Você fica, papai.

A voz dela saiu clara. Simples. Firme.

Henry fechou os olhos por um instante, respirando fundo, e quando os abriu, havia algo brilhando ali.

Eu sorri, sentindo o peito aquecer.

Talvez aquela tarde não fosse apenas sobre um café depois do médico.

Talvez fosse o começo de algo que nenhum de nós havia planejado.

Mas que, estranhamente, parecia certo desde o primeiro silêncio compartilhado.

A nova etapa que estava prestes a surgir para a pequena estava começando e eu estava muito feliz por ter ajudado ela, ao menos um pouco.

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