Capítulo 06

Olivia Castelli

Ver Henry pelo retrovisor era quase um exercício de silêncio e paz.

Ele dirigia com atenção como se a estrada exigisse mais cuidado do que realmente precisava. Os ombros tensos, o maxilar travado, os olhos sempre atentos, não apenas ao caminho, mas a tudo que envolvia a adorável Caterine.

Havia algo profundamente bonito nisso. Um homem tentando manter o controle quando, na verdade, estava aprendendo a confiar.

A confiar sua filha a uma estranha.

Não é faácil deixar uma pessoa desconhecida se aproximar desse jeito, e eu entendo a desconfiança dele.

Eu reconheço esse olhar na expressão impassivel desse homem.

Era o mesmo que eu usava quando eu precisava acreditar que estava tudo bem. Ou, precisava fingir que estava bem.

Caterine, por outro lado, não fingia nada.

Ela era inteira. Intuitiva. Pequena demais para carregar o peso que carregava, mas ainda assim… firme. Quando apoiou a cabeça em meu ombro, não pediu permissão porque não precisava. Era como se soubesse, desde o início, que eu não a rejeitaria.

E eu não rejeitei.

Fiquei tensa por segundos, sim. Não por ela, mas por mim. Pelo medo de sentir algo que eu vinha evitando há anos. Pelo receio de permitir proximidade quando meu corpo ainda se lembrava da dor de rejeição.

Algo que não é sobre a menina, era sobre mim.

Mas Caterine era diferente.

Ela não invadia. Ela simplesmente ficava.

O carinho que fiz em seus cabelos saiu quase sem que eu percebesse. Natural. Necessário. E, naquele instante, entendi que não era eu quem estava sendo forte ali.

Era ela.

Por outro lado, aquele homem não dizia nada, mas eu senti seu olhar pelo retrovisor. Havia surpresa, cuidado… e algo mais profundo. Algo que ele ainda não tinha nomeado. Talvez gratidão. Talvez esperança.

Ele não precisava entender agora.

Nem eu.

Tudo o que eu sabia era que, naquele carro, entre o silêncio da estrada e a respiração tranquila de Caterine, algo em mim havia cedido.

E, pela primeira vez em muito tempo, isso não me assustou.

Em meio a um suspiro, o carro parou e então o homem quebrou o silencio.

      — Vamos deixar Cat aqui com a minha mãe, e eu ajudo você.

Engoli em seco enquanto confirmava com um gesto, incapaz de negar sua gentileza, pois a essa altura, ele já havia saido do carro.    

A consulta foi mais rápida do que eu imaginava.

O médico fez perguntas, pediu exames simples, aferiu a pressão, ouviu o coração. Aquele homem insistiu em um check-up e permaneceu ao fundo da sala, atento a tudo enquanto eu era examinada.

       — Apesar do hematoma, está tudo bem com ela, Senhor Rouxx.

O médico concluiu, finalmente, com um sorriso tranquilo  enquanto passava os olhos pela prancheta em suas mãos.

Por que ele esta falando diretamente para ele e não para mim?

     — Mas indico que reponha vitaminas, pois ela esta bem fraca.

Soltei o ar que nem percebi que estava prendendo. Eu sabia que não havia acontecido nada grave, mas estou tensa demais enquanto sinto a atenção desse homem em mim e ver o medico falar de mim como se eu não estivesse aqui, não ajuda muito.

Por fim, o doutor levantou e se direcionou para o homem que agora sei que se chama Roux e disse.

    — Recomendo descanso, boa alimentação e… as vitaminas.

Engoli em seco enquanto eu observei ele confirmar com um gesto e responder ao médico.

      — Vou me certificar de que ela tome as vitaminas, Doutor.

Estendendo a mão num cumprimento, o homem disse.

        —  Obrigado, Doutor. 

Logo que nos despedimos, saí do hospital me sentindo mais leve. Nada d epior aconteceugraças a Deus.

Com um sorriso, Caterine correu em nossa direção e murmurou.

         — Café? 

Ao meu lado, Rouxx me ajudou a descer os degraus da escadaria e confirmou.

       — Agora sim, Olivia merece um café.

Eu sorri com aquele tom de voz tão convidativo. Apesar de tudo, estou me sentindo feliz. O dia revelou coisas dolorosas, mas não me sinto tão mal como pensei que me sentiria.

A cafeteria que eu tanto gosto ficava a quatro quadras do consultório. Próxima da empresa onde eu trabalhei por longos 5 anos.

Pequena, aconchegante, com cheiro constante de grãos moídos e bolo fresco. Assim que Rouxx empurrou a porta, o sino acima tilintou e, antes mesmo que eu dissesse qualquer coisa, uma voz conhecida ecoou atrás do balcão.

       — Olivia?!

Sorri antes mesmo de vê-la.

        — Sissi.

Ela largou o que estava fazendo e contornou o balcão em segundos, me puxando para um abraço apertado.

         — Eu procurei você logo que soube do acidente e agora você aparece com uma comitiva inteira e não me avisa nada?

Reclamou, me analisando da cabeça aos pés com sua expressão carregada de preocupação e alivio.

         — Está tudo bem?

Assentindo, eu sorri para minha melhro amiga e respondi.

        — Está, sim. Depois de hoje, com certeza me torno imortal.

Sissi então percebeu Rouxx e sua mãe e Caterine. Os olhos dela brilharam imediatamente ao focar na menina.

       — E quem é essa coisa linda?

Caterine se escondeu parcialmente atrás de mim, mas espiou com curiosidade.

       — Eu... sou Caterine.

Pude ver a expressão de surpresa dos dois a minha frente quando a menina prosseguiu.

        — E ela vai tomar café com a gente....

Sissi arregalou os olhos e depois abriu um sorriso enorme.

       — Ah, então é uma cliente VIP — declarou. — Nesse caso, temos chocolate quente, bolo de cenoura com cobertura e um cantinho especial.

Caterine assentiu, satisfeita, como se estivesse fechando um grande negócio.

Rouxx observava a cena em silêncio, claramente deslocado, até Sissi virar-se para ele.

       — E você deve ser o pai dessa princesa.

Concluiu, estendendo a mão.

        — Sissi. Melhor amiga dela.

Ela apontou o dedo para mim e prosseguiu.

      — Guardiã oficial de segredos e fornecedora de cafeína nos dias urgentes.

Talvez seja coisa da minha cabeça, mas consegui ver o vislumbre de um sorriso no rosto de Roux quando ele estendeu a mão e disse.

        — Henry. E… obrigado.

Naquele momento me espantei por saber o nome completo desse homem. Ele de fato era o poderoso Ceo que Carolina tanto falava.

Henry Rouxx, o Ceo do grupo Rouxx, a comrporação mais poderosa do país.

Engolindo em seco, a voz da minha melhor amiga me trouxe de volta.

       — Pelo café ou por cuidar dela?

Sissi perguntou na maior cara lavada e eu já sabia muito bem o que ela estava fazendo, mas para minha suspresa, Henry pensou por um segundo e disse.

        — Pelos dois.

Arregalei os olhos, fingindo que não havia escutado aquela conversa enquanto me direcionava pelas mesas vazias dessa hora. Sentamos perto da janela. Caterine ganhou seu chocolate quente, eu ganhei meu café cappuccino com chocolate, Henry ficou com algo que parecia café preto sem acuçar.

      — Desculpe me intrometer...

Murmurei não sabendo se deveria falar e depositando a xicara sobre a mesa, Henry me analisou por alguns segundos e murmurou.

        — Fique a vontade em perguntar, Olivia.

Engoli em seco e perguntei sem graça.

        — Onde está a sua mãe?

Ele negou com um getso de cabeça e disse.

        — Minha mãe saiu as pressas enquanto nos apresentavámos para sua amiga.

Assentindo com um gesto, segurei minha xicara com as duas mãos e murmurei sme graça.

        — Eu nem consegui me despedir.

Acariciando a mão de sua filha, Henry disse.

        — Você terá tempo para isso, Olivia.

Ele falou isso sem afastar os olhos de mim e naquele momento, eu senti como se ele estivesse me pedindo algo que eu não conseguia compreender o que era.

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