Capítulo 8

🌕🐺 Saphira D’Argenn,

A minha consciência voltou devagar. Meus olhos ainda estavam fechados, mas eu já sentia o toque áspero em minha pele. Estava sendo arrastada. O som das portas se abrindo com violência foi o que me despertou por completo.

Acordei confusa. O chão sob mim era de madeira polida, fria, e o cheiro não me era familiar. Meus membros ainda estavam pesados, o corpo dormente. Tentei reagir, mas só consegui abrir os olhos de vez quando fui jogada ao chão.

Foi quando ouvi a voz grave, poderosa e cortante.

— Não faça isso com um ser humano, não diante de mim. Eu poderia rasgar suas gargantas agora só por essa atitude grotesca.

Aquela voz me atravessou literalmente. Um choque percorreu todo o meu corpo, da base da espinha ao fundo da garganta. Foi como se um raio tivesse sido disparado dentro de mim, me obrigando a me levantar.

Cambaleei.

Minhas pernas tremiam, mas encontrei força onde não havia nada.

Meus cabelos caíam sobre o meu rosto, e por um instante, tudo o que existia era o pulsar do meu coração. Mas havia uma energia, um chamado. Um pulso magnético que me atraía.

Instintivamente, soube para onde olhar. E quando afastei os fios do rosto, vi ele. Nada mais existia.

A sala, as pessoas, o som, o mundo. Tudo escureceu, silenciou. Tudo desapareceu. Só havia ele.

Moreno. Queixo quadrado. Olhos quase dourados, intensos como o sol antes de desaparecer no horizonte. Ele era o tipo de homem que nunca se esquece. Mas mais do que isso, ele era um Alfa. Cada fibra do meu ser gritava a imponência dele.

Meu corpo congelou. Mas, ao mesmo tempo, se acendeu.

Era como estar na bruma de novo, mas com muito mais intensidade. E eu não estava na bruma. Ainda assim, meu corpo gritava por ele. Queria o toque dele, queria ser marcada, queria ser dele. Senti meu baixo ventre aquecer. E aquilo me enfureceu.

Minha garganta secou. Meu coração perdeu o ritmo, como se tivesse esquecido como bater sem o comando do dele. Minha respiração era a sombra da dele.

E mesmo sem dar um passo, sentia algo me empurrando. Me puxando. Uma força invisível que me levava para ele.

— A ligação. Somos dele.

A voz da minha loba, Élira, uivou dentro da minha mente. E foi nesse momento que o pânico e o orgulho falaram mais alto.

Eu não sou de ninguém.

Com uma força absurda, reuni cada pedaço da minha vontade e sussurrei:

— Eu rejeito você.

Foi fraco. Quase inaudível. Mas ele ouviu. Seus olhos dourados se arregalaram. E então ele recuou. Um passo. Depois outro. Até sair correndo.

Correu como se fugisse de mim. Como se eu fosse o perigo. Como se aquilo tivesse sido real.

Eu sorri.

Por um segundo apenas. Um único segundo de vitória. Mas então meus olhos se voltaram para o outro homem. O que estava ao lado dele o tempo todo.

Ele me olhava. Diferente. E a fúria nasceu dentro de mim. Eu queria respostas. E ia começar por ele.

Olhei para o homem que havia permanecido ali. O outro, o que ficou. Ele me observava como se me conhecesse. Como se estivesse prestes a dizer algo que mudaria tudo. E talvez estivesse.

Endireitei a postura e perguntei, com a voz fria como gelo.

— Quem é você? Quem é o gigante que fugiu correndo, e por que estou aqui?

Ele não respondeu de imediato. Apenas virou o rosto e, com um tom que não deixava margem para contestação, ordenou:

— Todos estão dispensados. Nos deixem sozinhos.

Aqueles que estavam no salão se retiraram em silêncio absoluto.

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