Mundo de ficçãoIniciar sessão🌕🐺 Saphira D’Argenn,
Diante das minhas palavras, foi a primeira vez que meu pai me bateu. Não com as mãos, não com a força bruta que ele costumava usar contra os inimigos da alcateia, mas com os olhos. O olhar de um Alfa ferido em seu orgulho é mais profundo e firme do que qualquer garra rasgando a carne. Ele me olhou como se eu fosse um verme que ousou erguer a cabeça diante do rei. As brigas entre nós, que antes eram veladas, explodiram abertamente naquele dia. E nunca mais pararam. O casarão virou um campo de batalha, carregado de uma tensão pesada que sufocava a todos. Nem mesmo Élira conseguia me acalmar quando a raiva me cegava. — Eu sei que você sofreu, minha menina... — ela sussurrava com tristeza na minha mente, tentando acariciar os cantos feridos da minha alma. — Eu sei o quanto doeu ver tudo isso. Mas não deixa seu coração virar pedra por causa do ódio que ele plantou. Mas era tarde demais. Meu coração já era pedra. Ou, no mínimo, estava se petrificando a cada dia que se passava sob aquele teto. Eu realmente acreditava que podia sobreviver assim: fria, trancada, imune a qualquer um. Até a tarde em que ele me chamou para um chá. Aquilo, por si só, já soou como um alarme de perigo. Meu pai nunca me chamou para nada. Ele não olhava na minha cara se pudesse evitar, e quando a vida o forçava a falar comigo, era sempre através de ordens ríspidas, nunca convites. — Saphira, venha tomar um chá comigo. Quero conversar — disse ele, parado na porta da minha sala de treino. Eu pensei duas vezes antes de mover um único músculo. O tom da voz dele era doce. Muito gentil. Falso e polido demais para o homem que me desprezou a vida inteira. E ainda assim, tomada por uma curiosidade amarga, eu fui. Aceitei o convite. Sentei-me à mesa de madeira maciça, exatamente à frente dele, observando suas mãos pesadas derramarem o líquido quente na minha xícara de porcelana. Aquele homem, cujas mãos sempre tremeram de raiva reprimida na minha presença, agora exibia dedos perfeitamente firmes e calmos. Isso me assustou mais do que qualquer berro que ele já tivesse dado. Ele olhou para mim e sorriu. — Confie em mim, minha filha — ele murmurou, empurrando a xícara na minha direção. Fitei o líquido escuro e engoli com extrema desconfiança. Dei o primeiro gole. Tinha gosto pronunciado de jasmim... e algo mais. Um sabor metálico e raspante que desceu queimando o fundo da minha garganta. Poucos minutos depois, o salão começou a oscilar. O mundo girou em um carrossel grotesco de sombras e luzes. Minhas pálpebras pesaram, e o fôlego simplesmente começou a faltar nos meus pulmões. — O que... o que o senhor fez? — tentei falar, mas a voz saiu arrastada, fraca, quase inaudível. Tentei me levantar, apoiando as mãos na mesa, mas minhas pernas viraram gelatina. Meu pai me olhou com uma expressão estranha, uma mistura de alívio e uma ponta de dificuldade, como se disser aquilo custasse um resto de humanidade que ele ainda tentava fingir que tinha. — Isso é necessário, Saphira — ele disse, com a voz ecoando como se estivesse no fundo de um poço. — Espero que saiba que fazemos sacrifícios por esta alcateia. Hoje, você está fazendo o seu. Honre nosso nome e o nosso povo. Não me faça passar vergonha. — Pai... o que... Mas a escuridão não esperou pela minha pergunta. Minha visão se apagou por completo. Caí em um abismo sem fundo. Apaguei sem saber para onde estava sendo levada, sem saber quem ou o que me esperava do outro lado daquele envenenamento, e sem saber que a minha vida, dali em diante, nunca mais me pertenceria. 🌕🌕🌕🌕🌕🌕🌕 Quando voltei a ter qualquer vestígio de percepção, não havia dor. A iluminação ao meu redor era fraca, banhada por um tom azul-claro, calmo e etéreo. Meus olhos pareciam pesados, mas minha consciência flutuava em uma atmosfera serena. O corpo não doía, o peito não queimava, o coração não gritava. Não havia medo, não havia a raiva que consumia meus dias. Apenas uma estranha e desconcertante paz. Foi quando ela apareceu. Uma mulher de beleza indescritível emergiu da névoa azulada. Sua pele parecia feita de marfim cintilante, e seus cabelos fluíam como prata viva em brasa. Seus olhos não tinham pupilas comuns: eram duas luas cheias brilhando na penumbra. Sua presença era infinitamente doce. Ela não disse seu nome. Não precisou. Eu sabia exatamente quem estava diante de mim. A Deusa da Lua. Atrás dela, caminhando com passos leves, graciosos e solenes, surgiu uma loba enorme de pelagem prateada e olhos violeta reluzentes. Majestosa. Serena. O impacto de vê-la fez meu espírito estremecer, pois soube no mesmo instante que aquela era a minha própria alma refletida. Era Élira. Mas não era como nas outras vezes. Não era uma projeção, não era apenas aquela voz suave falando nos cantos da minha mente. Ela estava ali. Presente. Inteira. Tão real quanto a própria Deusa. — Você está entre dois lugares, Saphira D’Argenn — a voz da Deusa ressoou, parecendo vir de todas as direções ao mesmo tempo. — Um espaço onde mente e espírito se encontram, despidos das amarras do corpo. Tentei articular uma pergunta, saber em que inferno ou paraíso eu tinha sido jogada pelo meu pai, mas minha garganta parecia petrificada. — O desgosto e a revolta que você sente pelos machos é compreensível diante do que viveu — a Deusa continuou, dando um passo calmo na minha direção. — Mas a lua não erra, Saphira. Quando duas almas são ligadas pelo sangue e pela bruma, isso não é um castigo. É uma bênção. É a chance de recomeçar. É a sua cura. Cura? A palavra queimou na minha mente como ácido. Eu me curei sozinha! Levantei-me sozinha de cada queda, engoli meu próprio sangue a vida inteira! Ninguém nunca me amou ou me protegeu, a não ser a minha mãe e a loba que nasceu comigo. Élira deu um passo à frente, aproximando o focinho, seus olhos violeta suaves como a névoa da manhã. — Você resistiu a todas as brumas por medo, Saphira, não por força — disse Élira, rompendo o silêncio da minha alma. — Eu senti cada fibra do seu ser. Eu estive presente em cada segundo da sua agonia. Você se trancou para não ser ferida. — Dor essa que foi causada por eles! — cuspi as palavras, sentindo a fúria rasgar a paz daquele lugar. — Sempre eles! Machos! Alfas! Com seus egos gigantescos, suas regras idiotas e suas promessas quebradas! Vocês duas querem me dizer que um deles é o meu destino? Que eu devo simplesmente me curvar e aceitar ser de alguém? A Deusa não se irritou. Apenas me observava com um olhar de profunda compaixão que me irritava ainda mais. — Pois ouçam bem as duas! — gritei para o vazio azulado, a voz embargada de ódio. — Eu não quero parceiro nenhum! Não quero amor, não quero laço, não quero nada disso! O amor é uma fraqueza ignorante, uma perda de tempo! Machos são uma perda de tempo! A raiva acumulada por anos explodiu de mim como lava fervente, quebrando a harmonia daquele espaço. Élira abaixou a cabeça devagar, tomada por uma tristeza. A Deusa da Lua apenas soltou um suspiro suave, quase imperceptível. E então... o cenário começou a se desfazer. A luz azul, a iluminação prateada, a clareira, a loba magnífica e a mulher de cabelos de prata, tudo começou a desaparecer. O vazio absoluto me envolveu novamente, frio e denso. E, no fundo, eu não me importei. Afinal de contas, com o vazio, eu já estava mais do que acostumada.






