Mundo de ficçãoIniciar sessão🌕🐺 Saphira D’Argenn,
Meu pai abriu o coração tarde demais. Tarde demais para ele, tarde demais para a minha mãe e infinitamente tarde demais para mim. Durante anos, vi o Alfa da nossa alcateia caminhar pela casa como um deus de pedra, fingindo que não sentia o puxão inevitável da vida, fingindo que não era guiado pela Deusa da Lua como todos os outros. Para ele, o amor era uma falha no sistema, uma brecha na armadura. Alegava com a voz cheia de arrogância que sentimentos eram fraquezas, e que fraquezas jamais pertenceriam a um verdadeiro Alfa. Ele só cedeu quando o seu próprio lobo, exausto de lutar contra a própria natureza, o forçou a se render. Mas a redenção veio acompanhada do estrago. Quando ele finalmente decidiu olhar para a minha mãe como sua companheira, já não havia nada inteiro para ser amado. Minha mãe já era apenas uma sombra do que um dia fora. Uma mulher apagada pelo desprezo, silenciada pela espera, reduzida à trágica função de procriar para dar um seguidor à linhagem. E nem isso ela "fez direito", como ele costumava gritar pelos corredores do casarão quando a bebida pesava em seus ombros. Ela não lhe deu um filho homem. Eu fui essa decepção. A única cria. A filha. O erro de cálculo do Alfa. Cresci encurralada entre duas vozes totalmente contraditórias. De um lado, o rosnado do meu pai, que me olhava como se eu fosse um fardo incômodo, uma promessa quebrada de grandeza. Do outro, o sussurro doloroso da minha mãe, que segurava meus braços com dedos frios e me alertava como quem tenta salvar alguém de um incêndio: — Não confie nos homens, Saphira. Não confie nos lobos. E, acima de tudo, nunca entregue seu coração a um Alfa. Eles não sabem amar. Eles só sabem possuir. A primeira vez que ouvi aquela frase, eu devia ter uns oito anos. Era uma noite clara e congelante. Minha mãe estava sentada no pálio da janela, com a saia do vestido espalhada pelo chão de madeira, o rosto pálido banhado pela luz fria da lua. Havia tanta dor acumulada em seus olhos, uma solidão tão profunda e irremediável, que algo dentro de mim se partiu e gravou aquelas palavras a fogo na minha alma. E eu obedeci. Tornei aquela dor a minha única regra de sobrevivência. Fugi da ideia do amor como se ele fosse uma armadilha mortal escondida sob flores. Cresci treinando meu corpo para ser uma arma e minha mente para ser um escudo. Aprendi a controlar cada pulsação, a bloquear meus desejos mais primitivos, a me fechar em um casulo de gelo onde ninguém pudesse me alcançar. Jamais participei de uma noite de celebração. Jamais dancei sob a bruma. Jamais me entreguei a toque algum. Ninguém jamais colocou as mãos na minha pele com intenção de permanecer. As temporadas de bruma vieram como uma avalanche inevitável, mas eu resisti a todas. Quatro vezes. Quatro luas cheias seguidas que rasgaram minha alma e transformaram meu corpo em um campo de batalha interno. A bruma não é apenas um fenômeno do céu; é um chamado no sangue. Ela faz a pele queimar, o ar faltar e a alma gritar por uma metade. Na última temporada, eu quase morri. O fogo febril da rejeição deliberada queimou por dentro, derretendo minhas forças, exigindo contato, exigindo outra pele, exigindo a liberação que minha mente recusava. Fiquei trancada no meu quarto durante três dias, cravando as unhas nas próprias coxas para não sair correndo em direção à floresta. Sofri em silêncio até expelir o calor do meu organismo, preferindo a dor da quase morte à submissão de pertencer a alguém. Minha loba, Élira, tentou me convencer a ceder em cada segundo daquela agonia. Élira tinha surgido para mim na minha primeira transformação, quando eu tinha quinze anos. Lembro-me de acordar no meio de um campo de lavanda, com os sentidos aguçados e o cheiro de terra molhada impregnado no meu focinho. Ela era linda: uma loba de pelagem prateada, tímida no olhar, mas de uma intensidade avassaladora. Forte, selvagem e indomada, exatamente como eu. Élira tem uma voz doce e firme ao mesmo tempo. É a voz da sabedoria que meu pai nunca teve. Paciência não falta a ela para me aguentar, mas ela também sabe ser severa quando me vê caminhando para a beira do abismo. — Você está se destruindo, Saphira — ela sussurrava dentro da minha cabeça enquanto eu morde o travesseiro para sufocar os gemidos de febre da bruma. — Isso que você está fazendo não é coragem. É orgulho. É uma punição que você está impondo a si mesma por causa dos erros dele. Mas eu me recusei a ouvir. Tapei os ouvidos da minha alma. Como eu poderia amar um macho quando o primeiro homem da minha vida, aquele que deveria ter me protegido, dizia todos os dias com o olhar que eu era um erro? Como eu poderia confiar em outros lobos quando o Alfa mais respeitado e temido da nossa alcateia cuspia o meu nome como se fosse um veneno amargo? Meu pai nunca fez questão de esconder. Deixou claro para o conselho e para quem quisesse ouvir que eu jamais herdaria o seu trono. Dizia que a linhagem de grandes guerreiros se encerrava ali, de forma miserável, comigo. Dizia com todas as letras que uma loba jamais seria capaz de governar uma alcateia forte. Na última vez em que ele disse isso na minha cara, o sangue subiu à minha cabeça com a força de um vulcão. Meu peito inflou de uma raiva tão antiga e acumulada que perdi o controle. Olhei no fundo dos olhos frios daquele homem que me deu a vida e gritei, com a voz embargada de raiva e ferida: — Pois saiba que você tem razão, meu pai! A sua linhagem morre aqui! Eu jamais lhe darei um neto. Nunca irei gerar uma cria para carregar o seu nome, e nunca, escute bem, nunca serei parte da sua maldita herança!






