CAP. 5 - Sem emoções, apenas logica

POV/ Killian

Volto-me para o terceiro homem. Barba rala, ruivo, olhos claros. Ele se parece com o meu gestor, Noah. Se eu pudesse sentir algo, diria que me compadeci; talvez não seja a palavra certa, mas é a que vem à mente.

— Qual o seu nome?

— Leonardo... — ele diz, a voz falhando. 

Este é o homem que falou demais. Ele viu os outros dois morrerem. O choque o deixou estático. Pego-o pelo cabelo, puxando a cabeça para trás com força.

— Leonardo — testo o nome. — Eu gostei de você. Sabia?

Ele desaba. As lágrimas se misturam ao sangue seco no rosto.

— Killian, não faz isso — Ethan me diz, encostado na parede fria.

— Estou fazendo um amigo aqui, Ethan. Olhe, ele se parece com o Noah. — Agarro o cabelo de Leonardo e sacudo sua cabeça para que Ethan veja melhor o ângulo do rosto. — Não acha que o nariz é igual?

Ethan apenas balança a cabeça negativamente enquanto me olha com o olhar de quem desistiu de procurar lógica na minha loucura.

Volto meus olhos ao rosto do prisioneiro.

— Eu tento ser bom com as pessoas, mas elas raramente são boas comigo. Eu estou quebrado, não sinto nada, Leonardo. Mas aprecio a lealdade. Mas aprecio a lealdade. Lealdade é o que mantém uma família unida, e nós somos uma família. Você vai ser leal?

Ele balança a cabeça positivamente, frenético.

— Por quê?

— Eu tenho mãe... uma irmã... — ele soluça, o muco do nariz descendo. — faço tudo por elas e sou tudo o que elas têm.

O cálculo na minha cabeça muda. Ele não roubou. Não estuprou. Só não soube calar a boca.

— Vou te poupar.

Leonardo desaba de vez, o peito subindo e descendo em espasmos.

— Você sabe dirigir?

— S-sim... mestre — ele balbucia, tentando se arrastar para beijar meus pés.

Eu levanto o pé. Pressiono a sola da minha bota de couro italiana contra o rosto dele, empurrando sua cabeça contra o concreto frio. O peso do meu corpo o obriga a deitar.

— S-sim... mestre — o som sai abafado, espremido entre o chão e o meu sapato.

— Se contar para alguém sobre isso... eu mato você. E depois torturo sua mãe e sua irmã até elas pedirem para morrer. Entendido?

Mantenho o pé ali por um segundo, sentindo a resistência do osso da face dele. Um lembrete de quem manda. Depois, afasto-me.

— Não sou seu mestre. Sou apenas um empresário.

Ethan se aproxima e me estende um lenço branco de seda. Só então percebo o estado da minha mão direita; ela está pintada de um vermelho vivo e viscoso. Olho para o meu terno de cinco mil dólares e vejo os respingos.

— Merda. Sujou a porra da minha mão — murmuro, limpando os dedos com força antes de largar o pano sobre o peito de um dos homens que acabei de matar. — A gente se vê na próxima, Ethan.

Começo a caminhar, mas a voz de Ethan me trava antes que eu alcance a porta.

— E o evento amanhã? Está de pé?

Eu paro, mas não me viro.

— Eu posso, não ir?

— Não — Ethan responde, caminhando até ficar ao meu lado. — O Conselho não vai aceitar outra ausência. Para te oficializarem como Capo, você precisa circular. A festa de amanhã é a vitrine perfeita; metade da elite de São Paulo estará lá para ver os novos "brinquedos eróticos" da nossa subsidiária.

— Uma fábrica de vibradores — solto um riso seco, sem humor. — É irônico como o prazer alheio lava tão bem o nosso dinheiro sujo.

— É eficiente, Killian. E o Conselho quer ver se você consegue manter a postura de homem sério e... — ele faz uma pausa, escolhendo as palavras — ... então, leve a namorada.

— Tá... Ela serve para as fotos — digo, revirando os olhos.

— E só? — Ethan me encara, arqueando uma sobrancelha. — Os velhos do Conselho estão em cima. Eles sabem que o testamento do seu pai é claro: você só assume o comando total da L’Eclisse se houver uma esposa. Sem casamento, sem título de Capo. Eles já estão comentando que você deveria oficializar com ela de uma vez. O tempo está acabando, Killian.

Eu reviro os olhos e encaro o vazio do galpão por um segundo.

— Casar-se? Para quê? O Conselho acha que uma esposa é um símbolo de estabilidade e seriedade, mas eu vejo como um alvo nas costas. Se eu sou o líder e todos sabem quem dorme comigo, os inimigos já sabem onde atirar. É uma vulnerabilidade. Não vejo vantagens.

— É o preço do poder. Você precisa seguir a regra para garantir o legado do seu pai e do nosso avô antes que meu pai decida reivindicar e contestar sua herança — Ethan retruca, cruzando os braços. — E além do mais, tenho certeza de que a morena não serve só para a foto. Aposto que é uma boa distração.

— Sim, ela serve e servirá para tampar o buraco nas fotos amanhã — respondo, voltando a andar. — Mas ela não é a minha. É só uma peça descartável que eu substituo no segundo em que encontrar quem eu realmente procuro.

Ethan suspira, o tom de voz ficando mais sério.

— Você ainda não desistiu, não é? Já se passaram quinze anos desde o acidente. Estamos há quase 10 anos revirando tudo atrás de uma sombra. Por que continuar?

Aperto o pingente do Nó de Prata que agora pende da corrente do meu relógio de bolso.

— Eu nunca vou parar de procurar, Ethan. Não é apenas obsessão. É uma dívida de sangue. — Saio para a luz do dia — Ela me deu a vida quando o mundo tentou me queimar dele. Eu não vou parar até devolver o favor, ou pelo menos saber se ela está bem.

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