Mundo de ficçãoIniciar sessãoPOV/ Killian
Volto-me para o terceiro homem. Barba rala, ruivo, olhos claros. Ele se parece com o meu gestor, Noah. Se eu pudesse sentir algo, diria que me compadeci; talvez não seja a palavra certa, mas é a que vem à mente.
— Qual o seu nome?
— Leonardo... — ele diz, a voz falhando.
Este é o homem que falou demais. Ele viu os outros dois morrerem. O choque o deixou estático. Pego-o pelo cabelo, puxando a cabeça para trás com força.
— Leonardo — testo o nome. — Eu gostei de você. Sabia?
Ele desaba. As lágrimas se misturam ao sangue seco no rosto.
— Killian, não faz isso — Ethan me diz, encostado na parede fria.
— Estou fazendo um amigo aqui, Ethan. Olhe, ele se parece com o Noah. — Agarro o cabelo de Leonardo e sacudo sua cabeça para que Ethan veja melhor o ângulo do rosto. — Não acha que o nariz é igual?
Ethan apenas balança a cabeça negativamente enquanto me olha com o olhar de quem desistiu de procurar lógica na minha loucura.
Volto meus olhos ao rosto do prisioneiro.
— Eu tento ser bom com as pessoas, mas elas raramente são boas comigo. Eu estou quebrado, não sinto nada, Leonardo. Mas aprecio a lealdade. Mas aprecio a lealdade. Lealdade é o que mantém uma família unida, e nós somos uma família. Você vai ser leal?
Ele balança a cabeça positivamente, frenético.
— Por quê?
— Eu tenho mãe... uma irmã... — ele soluça, o muco do nariz descendo. — faço tudo por elas e sou tudo o que elas têm.
O cálculo na minha cabeça muda. Ele não roubou. Não estuprou. Só não soube calar a boca.
— Vou te poupar.
Leonardo desaba de vez, o peito subindo e descendo em espasmos.
— Você sabe dirigir?
— S-sim... mestre — ele balbucia, tentando se arrastar para beijar meus pés.
Eu levanto o pé. Pressiono a sola da minha bota de couro italiana contra o rosto dele, empurrando sua cabeça contra o concreto frio. O peso do meu corpo o obriga a deitar.
— S-sim... mestre — o som sai abafado, espremido entre o chão e o meu sapato.
— Se contar para alguém sobre isso... eu mato você. E depois torturo sua mãe e sua irmã até elas pedirem para morrer. Entendido?
Mantenho o pé ali por um segundo, sentindo a resistência do osso da face dele. Um lembrete de quem manda. Depois, afasto-me.
— Não sou seu mestre. Sou apenas um empresário.
Ethan se aproxima e me estende um lenço branco de seda. Só então percebo o estado da minha mão direita; ela está pintada de um vermelho vivo e viscoso. Olho para o meu terno de cinco mil dólares e vejo os respingos.
— Merda. Sujou a porra da minha mão — murmuro, limpando os dedos com força antes de largar o pano sobre o peito de um dos homens que acabei de matar. — A gente se vê na próxima, Ethan.
Começo a caminhar, mas a voz de Ethan me trava antes que eu alcance a porta.
— E o evento amanhã? Está de pé?
Eu paro, mas não me viro.
— Eu posso, não ir?
— Não — Ethan responde, caminhando até ficar ao meu lado. — O Conselho não vai aceitar outra ausência. Para te oficializarem como Capo, você precisa circular. A festa de amanhã é a vitrine perfeita; metade da elite de São Paulo estará lá para ver os novos "brinquedos eróticos" da nossa subsidiária.
— Uma fábrica de vibradores — solto um riso seco, sem humor. — É irônico como o prazer alheio lava tão bem o nosso dinheiro sujo.
— É eficiente, Killian. E o Conselho quer ver se você consegue manter a postura de homem sério e... — ele faz uma pausa, escolhendo as palavras — ... então, leve a namorada.
— Tá... Ela serve para as fotos — digo, revirando os olhos.
— E só? — Ethan me encara, arqueando uma sobrancelha. — Os velhos do Conselho estão em cima. Eles sabem que o testamento do seu pai é claro: você só assume o comando total da L’Eclisse se houver uma esposa. Sem casamento, sem título de Capo. Eles já estão comentando que você deveria oficializar com ela de uma vez. O tempo está acabando, Killian.
Eu reviro os olhos e encaro o vazio do galpão por um segundo.
— Casar-se? Para quê? O Conselho acha que uma esposa é um símbolo de estabilidade e seriedade, mas eu vejo como um alvo nas costas. Se eu sou o líder e todos sabem quem dorme comigo, os inimigos já sabem onde atirar. É uma vulnerabilidade. Não vejo vantagens.
— É o preço do poder. Você precisa seguir a regra para garantir o legado do seu pai e do nosso avô antes que meu pai decida reivindicar e contestar sua herança — Ethan retruca, cruzando os braços. — E além do mais, tenho certeza de que a morena não serve só para a foto. Aposto que é uma boa distração.
— Sim, ela serve e servirá para tampar o buraco nas fotos amanhã — respondo, voltando a andar. — Mas ela não é a minha. É só uma peça descartável que eu substituo no segundo em que encontrar quem eu realmente procuro.
Ethan suspira, o tom de voz ficando mais sério.
— Você ainda não desistiu, não é? Já se passaram quinze anos desde o acidente. Estamos há quase 10 anos revirando tudo atrás de uma sombra. Por que continuar?
Aperto o pingente do Nó de Prata que agora pende da corrente do meu relógio de bolso.
— Eu nunca vou parar de procurar, Ethan. Não é apenas obsessão. É uma dívida de sangue. — Saio para a luz do dia — Ela me deu a vida quando o mundo tentou me queimar dele. Eu não vou parar até devolver o favor, ou pelo menos saber se ela está bem.







