Mundo de ficçãoIniciar sessãoO relógio da sala de jantar marcava 20h em ponto quando a porta se abriu.
Valentina entrou. O som dos saltos ecoou no mármore, e, por um instante, o salão inteiro pareceu parar. As conversas cessaram. O tilintar dos talheres morreu. O olhar de todos Vittoria, Helena, Enzo, até o velho Augusto voltou-se para ela. Ela usava um vestido bege de corte reto, discreto demais para a pompa Montenegro, mas elegante o bastante para incomodar quem esperava vê-la tropeçar. O cabelo estava liso, preso em um coque preciso; o rosto, sereno e pálido, moldado pela nova máscara que Clara ajudara a construir. Rafael, à cabeceira, segurava uma taça de vinho tinto. Os dedos dele se fecharam com força no cristal quando a viu. Nenhuma palavra, mas o gesto bastava algo nele vacilou por dentro, ainda que o rosto permanecesse imóvel. Vittoria foi a primeira a quebrar o silêncio. — Ora, ora... — murmurou, inclinando a taça e avaliando a nora de cima a baixo. — Parece que a advogada... ficou interessante. O sorriso dela era cortante, feito de vidro. Helena inclinou-se na cadeira, o olhar felino. — Realmente. — completou, num tom carregado de veneno doce. — Quem diria que um contrato faria tão bem a uma mulher? Enzo soltou uma risadinha debochada. — Confesso, primo, esperava mais. — comentou, sem cerimônia. — A italiana era mais... atraente. Essa tem cara de quem nunca pecou. Combina com você. Rafael ergueu o olhar, lento, perigoso, mas não disse nada. Valentina sentiu o sangue subir às bochechas, mas respirou fundo, dominando o tremor que ameaçava a voz. — Boa noite. — disse, simples. — Desculpem o atraso. A resposta foi o silêncio. Ela caminhou até seu lugar, sentou-se e abaixou a cabeça. Os talheres voltaram a se mover, o som metálico enchendo o espaço que ninguém ousava preencher com conversa. O jantar seguiu em um desconforto meticulosamente polido. O garçom servia vinho e pratos como se pisasse sobre gelo fino. Vittoria e Helena trocavam olhares, Enzo sorria sozinho, e Rafael comia em silêncio, o olhar preso na taça como se cada gole fosse um escudo. Valentina manteve os olhos baixos. O garfo nas mãos, o prato intocado. A comida parecia pedra na garganta. Ela ouvia fragmentos de conversas negócios, política, futilidades e se sentia invisível, deslocada, um erro bem-vestido. De vez em quando, arriscava levantar os olhos e o encontrava. Rafael. O olhar dele estava lá, fixo, estudando, mas indecifrável. Nem reprovação, nem ternura só um cálculo silencioso, o tipo que faz uma pessoa se sentir despida por dentro. Quando o relógio marcou 21h, Rafael colocou os talheres sobre o prato. O som seco ecoou como um tiro. Ninguém se mexeu. Ele limpou os lábios com o guardanapo e se levantou. — Com licença. — disse, a voz baixa, mas firme. O gesto bastou para que todos largassem os talheres. Era o código Montenegro: se o patriarca falava, os demais se calavam. Ele deixou o salão sem olhar para trás. Valentina permaneceu sentada por um instante, o coração acelerado, o corpo inteiro tenso. Depois pousou o guardanapo sobre o prato e se levantou também. — Boa noite. — murmurou, antes de sair. Subiu as escadas em silêncio. Cada degrau parecia mais alto que o anterior. Quando chegou ao quarto, trancou a porta e encostou-se nela, respirando com dificuldade. O espelho a esperava, refletindo a mulher perfeita que Rafael queria mostrar ao mundo. Mas a perfeição pesa. A maquiagem disfarçava a exaustão, o penteado escondia o desespero, e o vestido era uma prisão costurada com seda. Ela tirou os brincos, depois o colar. O som do zíper ecoou como um suspiro quebrado. E então, finalmente, chorou. Não o choro bonito das novelas. Mas o choro engasgado, silencioso, de quem tenta não desmoronar porque sabe que ninguém virá acudir. O relógio do escritório marcava 22h15. A casa dormia — ou fingia dormir. Rafael estava sentado na poltrona do quarto, o paletó jogado sobre o braço do móvel, a gravata frouxa, a camisa aberta no colarinho. O brilho azul do tablet iluminava o rosto dele. A imagem mostrava o quarto ao lado. Valentina. Sentada na beira da cama, o vestido bege amarrotado, os ombros curvados, a mão tapando a boca enquanto chorava sem som. O corpo inteiro dela tremia, mas o choro era contido, como se até a dor precisasse obedecer às regras da casa. Rafael passou o dedo devagar sobre a tela, acompanhando a imagem. O toque parou sobre o rosto dela. Por um instante, respirou fundo, e o maxilar travou. O som da respiração dela pela gravação estava fraco, quase imperceptível. Mesmo assim, cada soluço parecia atravessar o silêncio e atingir o peito dele com força. O dedo dele tremeu sobre a tela. A imagem congelou por meio segundo. E então, sem aviso, o estalo: CRASH. O soco que ele deu no tablet ecoou pelo quarto. A tela rachada refletiu o rosto dele os olhos cinzentos, o sangue escorrendo dos nós dos dedos. Rafael ficou parado, observando o corte aberto. O sangue subiu rápido, manchando o branco da camisa. Ele não sentiu dor só raiva. Raiva do que via, do que sentia, do que não conseguia controlar. — Maldição. — rosnou entre os dentes, jogando a cabeça para trás. A respiração estava descompassada, e o peito, pesado demais. O som do próprio coração ecoava no silêncio do quarto. Ele se levantou, foi até a janela e abriu as cortinas com um puxão brusco. A cidade estava viva lá fora faróis, ruídos, vida. Acendeu o cigarro com um isqueiro de prata, tragou fundo. A fumaça saiu lenta, densa, e se misturou ao brilho frio de São Paulo. — Você não devia ter voltado. — murmurou, encarando o reflexo no vidro. — Eu devia ter deixado você fora disso. Mas ela estava lá, no quarto ao lado. A mulher que ele transformou em uma sombra, o lembrete vivo do erro que não podia consertar. Mais uma tragada. Mais um silêncio. O sangue escorria da mão até o pulso, pingando no chão, formando pequenas manchas que ele nem tentou limpar. Do lado de fora, um trovão distante cortou o céu. Rafael fechou os olhos e soltou o ar devagar, como quem tenta se convencer de algo impossível. O telefone vibrou sobre a mesa uma notificação das câmeras. Ele olhou de relance, mas não atendeu. Não queria ver mais nada. A cidade o fitava com o mesmo desprezo que ele sentia por si mesmo.






