Mundo de ficçãoIniciar sessãoYAKOV MIKHAILOV-BREC
Chegamos à casa dos meus pais e a sensação de nostalgia me invade imediatamente. Era véspera de Natal e a casa estava decorada com luzes piscantes, guirlandas vermelhas e douradas penduradas nas janelas e na porta, um pinheiro enorme na sala de estar coberto de bolas coloridas e estrelas prateadas, e um aroma delicioso de biscoitos recém-assados misturado com canela e chocolate quente que saía da cozinha. A neve fina começava a cair lá fora, deixando tudo ainda mais mágico. Vasily foi direto para a casa do seu sogro, buscando a família de Mia para virem passar o Natal conosco. Audreen está ao meu lado, percebo-a apertando as mãos nervosamente. Tudo é novo para ela — o país, a cidade, o idioma, o frio cortante de dezembro que ela nunca sentiu antes —, e será a primeira vez que ela conhecerá minha família. De verdade.
Quando entramos pela porta principal, o calor da lareira e o barulho das vozes nos recebe como um abraço. Minha mãe, dona Faina, está na entrada da sala, vestindo um suéter vermelho natalino e um avental manchado de farinha, segurando uma bandeja de biscoitos quentes. Ela nos vê e seu sorriso caloroso se abre imediatamente — mas logo muda para uma mistura de surpresa e curiosidade quando nota Audreen ao meu lado, de mãos dadas comigo, ainda com o vestido simples que usou no casamento horas atrás.
— Yakov, quem é a bela moça ao seu lado? — minha mãe pergunta, olhando diretamente para Audreen, antes do seu olhar focar na aliança em nossos dedos. Audreen me olha rapidamente, um flash de pânico nos olhos, antes de voltar para minha mãe e sorrir, tímida.
Respiro fundo, sabendo que aquele era o momento de revelar tudo.
— Mãe, esta é Audreen… minha esposa.
Há um silêncio momentâneo, seguido por um suspiro coletivo de surpresa. Minha mãe deixa a bandeja na mesinha mais próxima, os olhos arregalados. Os quíntuplos — Finnian, Alexander, Yelena, Alice e Damon —, que estavam espalhados pela sala brincando com as luzes do pinheiro, param tudo e viram para nós. Darya aparece atrás da minha mãe, com uma taça de vinho na mão, olhos enormes.
— Esposa? — Darya exclama, com os olhos arregalados. — Como assim, esposa? Você se casou e nem nos contou, não mencionou a mim… sua gêmea? Vasily sabe sobre isso?
Quando não respondo imediatamente, ela dá as costas e se volta para dentro da casa de nossos pais, murmurando algo como “incrível”. Merda.
Audreen, visivelmente desconfortável com a situação, tenta sorrir novamente enquanto é cercada pelos abraços e carinhos da minha grande família assim que entramos na sala. Tenho sete irmãos: meus trigêmeos Darya e Vasily que ela já conheceu (embora só Vasily estivesse no casamento), além dos quíntuplos mais novos — Finnian, Alexander, Yelena, Alice e Damon. Meus pais são Luther, Lohan, Zedekiah, Heros, Noah e, claro, minha mãe Faina, que está grávida de gêmeos (mais uma vez). Vou apresentando todos a ela que fica um pouco assustada pelo tanto de pessoas.
— Esse é Finnian, o mais bagunceiro dos quíntuplos — digo, apontando para o loiro que já está tentando roubar um biscoito da bandeja da mãe. — Alexander, o quieto que lê o dia inteiro. Yelena, a que não cala a boca. Alice, a dançarina. E Damon, o que acha que é o mais velho.
Audreen sorri educadamente, apertando minha mão com mais força.
— Prazer em conhecer todos vocês — diz ela, voz baixa, sotaque mexicano suave contrastando com o russo carregado da família.
Deixo-a com as gêmeas mais novas — Yelena e Alice —, que já a puxam para ver as decorações do pinheiro, e vou até a cozinha encontrar minha outra metade. Darya está lá, conversando com o marido dela e minha mãe, tomando um gole da sua taça de vinho, braços cruzados.
— Foi tudo muito rápido, Darya — tento explicar, notando os olhares magoados de Darya e de minha mãe.
— Isso é loucura, Yakov — Darya diz, cruzando os braços mais forte. — Nem sequer tivemos a chance de conhecer a Audreen antes. E agora você aparece casado, sem nenhum aviso? Sem me contar? Sem contar pra mamãe? Pra família?
Minha mãe suspira, colocando a taça na bancada.
— Yakov… você sabe o quanto eu sou contra casamentos assim. Depois de tudo que passei, tudo que lutei para que vocês tivessem liberdade… você faz isso?
Eu baixo a cabeça.
— Eu sei, mãe. Mas era necessário. A aliança com o Capucha Santiago é importante. E eu… eu acho que posso fazer dar certo.
Luther, um dos meus pais, intervém, aparecendo na cozinha e abraçando nossa mãe, tentando aliviar a tensão.
— Bem, o importante é que agora estamos todos juntos, não é? Proponho aproveitarmos a noite de Natal. E tentarmos conhecer a nova integrante de nossa família, além de desejar felicidades ao nosso filho.
Agradeço ao meu pai com um olhar silencioso por interceder por mim.
Quando voltamos para o meio da sala onde se encontra Audreen, ela está cercada pelos quíntuplos ao redor dela, assim como o resto dos meus pais. Os quíntuplos, sempre animados e brincalhões, começam a fazer piadas sobre a situação quando nos aproximamos deles. Finnian, com seu sorriso travesso, comenta, brincalhão:
— Yakov, você realmente deu sorte! Audreen é tão bonita quanto Mia, a garota do Vasily.
— É verdade — Alexander concorda, rindo. — Nunca imaginei que você traria uma esposa tão bonita e jovem para casa!
Audreen cora e tenta se esconder atrás de mim, claramente desconfortável com a atenção, assim que sento ao lado dela no sofá.
— Por favor, pede para eles pararem — ela me pede baixinho no meu ouvido. — Estou me sentindo num circo onde sou a palhaça e todos me observam.
Eu rio baixo, passando o braço ao redor da cintura dela.
— Eles são assim mesmo. Você vai se acostumar.
Minha mãe, ainda tentando esconder sua decepção por ter me casado sem que ela soubesse, finalmente fala:
— Bem, Audreen, você é muito bem-vinda à nossa casa. Peço desculpa pela minha reação com a notícia inesperada, então por favor, sinta-se à vontade.
— Obrigada, senhora Green — Audreen responde educadamente.
— Me chame de Faina, querida. Somos todos família agora — minha mãe insiste, tentando sorrir.
Meus irmãos mais jovens continuam a se divertir, mas a tensão entre minha mãe, Darya e eu é palpável. Sei que preciso ter uma conversa mais calma com elas para resolver isso, mas nesse momento, tudo que quero é dar um pouco de paz a Audreen.
— Vamos, Audreen — digo, segurando sua mão. — Vou te mostrar a casa.
Enquanto caminhamos pelos corredores decorados da casa dos meus pais — luzes piscantes nas escadas, guirlandas nas portas, fotos de família emolduradas nas paredes —, ela segura minha mão com força.
— Sinto muito — ela sussurra. — Acho que sua mãe e irmã não gostaram muito de mim. Não quero causar problemas.
— Não se preocupe — respondo, tentando confortá-la. — Vai levar um tempo, mas elas vão entender e logo estarão roubando você de mim.
Quando voltamos para a sala de estar, a atmosfera parece um pouco mais leve. Meus pais e irmãos estão rindo e conversando entre si. Audreen e eu nos sentamos no sofá, e logo minha mãe traz uma bandeja com chá e biscoitos.
— Então, Audreen — começa Noah, um dos meus pais —, conte-nos mais sobre você. Como foi que você e Yakov se conheceram?
Audreen olha para mim, hesitante, sobre o que contar. Antes dela responder, eu tomo a frente da palavra.
— Bem, foi uma situação um pouco complicada — começo. — A verdade é que nosso casamento foi arranjado por um contrato de aliança que fiz com a Máfia Mexicana, com o pai dela.
Houve um silêncio pesado na sala enquanto todos processam a informação. Darya é a primeira a falar:
— Você está brincando, certo? — ela me encara, esperando eu concordar com ela. — Posso até entender o fato de você ter se casado com uma pessoa que eu, sua melhor amiga e gêmea, nunca soube existir, quando contamos tudo um para o outro desde sempre. Uma paixão tão intensa que vocês decidiram logo se casar, algo que por mais que não consiga engolir totalmente… mas okay, coloquei a culpa toda no seu ato impensado na paixão louca… mas isso?
— Eu gostaria que fosse brincadeira — respondo, suspirando. — Mas é a verdade. Foi uma decisão que tomei para o melhor de nossas Máfias.
— O melhor para as nossas Máfias?! — minha mãe repete, incrédula. Ela sempre foi contra casamentos assim, ainda mais quando meu avô quase a fez se casar dessa maneira, antes dela conhecer os meus pais. — Yakov, você se casou com alguém que nem conhecia devido a um contrato de aliança entre Máfias, algo na qual eu sempre fui contra e nunca desejei que nenhum de vocês tivesse?
— Sim — confirmo, sentindo o peso de minhas palavras. — E sei que parece insano, mas não foi um contrato tão ruim — pisco para Audreen.
— Isso é muito para processar — Lohan, outro dos meus pais, admite. — Mas se você acredita que é a melhor decisão, vamos confiar em você.
Audreen, finalmente, resolve falar.
— Sei que tudo isso é difícil de entender. Mas quero que saibam que estou aqui para fazer o meu melhor e ser parte desta família — ela tem um sorriso falso no rosto. E suas palavras parecem tão falsas para mim quanto o sorriso.
— Isso é tudo que podemos pedir — minha mãe diz tentando soar suavemente, finalmente se aproximando de nós. — E, Yakov, por favor, nunca mais nos deixe de fora de algo tão importante. Somos uma família, e deveríamos passar por tudo isso juntos.
Prometo a ela que nunca mais esconderia nada tão importante, e sinto um alívio ao ver o começo de uma aceitação por parte de todos.
A noite continua com risos e histórias, e lentamente Audreen começa a relaxar, se adaptando ao caos amoroso que é a minha família. Olhando para ela, rindo com os meus irmãos, percebo que talvez eu tenha feito a escolha certa. Não me parece tão ruim a ideia de me apaixonar por ela e tê-la como a mãe dos meus filhos.
Vasily chega trazendo sua noiva e a família dela. Eles passaram por muita coisa esse ano, e ela continua se recuperando, mas é bom ver que ele encontrou a sua felicidade ao lado dela e imagino se conseguirei ter isso ao lado de Audreen. Por mim estou disposto a descobrir.
— E aí, como foram as apresentações? Mamãe e Darya surtaram muito? — ele me pergunta, ao se aproximar de mim, assim que Mia, sua noiva, se aproxima de minhas irmãs.
— Um pouco, mas nada tão ruim quanto pensei que seria — digo a ele, aceitando a bebida que ele me estende.
— E o que fará sobre o que descobrimos sobre os esquemas do seu sogro? — ele sussurra a pergunta a mim, para que ninguém mais ouça.
— Infiltrei um dos meus homens entre os seus capangas e ele me manterá informado de todas as trocas e seus compradores e de como ele consegue as mulheres e crianças e quem está com ele nesses esquemas — contenho a minha fúria ao saber do que eles fazem com essas pessoas. — O que soube até o momento é que a próxima venda será daqui a duas semanas, o que é perfeito para que eu aja, enquanto estiver em minha lua de mel com a filha dele.
— Mas terá que ir por partes — ele me alerta. — Não poderá salvar todas elas de uma única vez.
— Começarei pelas crianças, dos menores para as maiores — tomo mais um gole da minha bebida. — Tenho nojo só de pensar que me uni à família daquele monstro pedófilo, filha da puta.
— Audreen não tem nada a ver com as coisas ilegais que o pai faz — ele me lembra ao olhar para a minha esposa, vendo-a se divertindo. É a primeira vez que a vejo sorrir desde que nos casamos. — Ela me parece inocente das ações dele, na Máfia e até mesmo temerosa ao pai. Quer um conselho? Faça dela não apenas uma esposa e mãe dos seus filhos, mas também uma amiga e uma aliada, alguém que esteja sentada ao seu lado no trono.
— Primeiro preciso saber se ela é de minha total confiança, ou se ela entrou nesse casamento sendo manipulada pelo pai para ter informações, da mesma forma que entrei nesse casamento. Não posso me arriscar em contar os meus planos para ela e ela arruinar tudo ao contar para o seu pai — ele assente. — Por enquanto, terei que manter ela no escuro. E algo me diz que ela não será uma garota fácil de conquistar.
Vasily ri baixo.
— Boa sorte, irmão. Você vai precisar.
Eu olho para Audreen do outro lado da sala. Ela ri de algo que Finnian disse. O sorriso dela é pequeno, tímido, mas real. Pela primeira vez desde que nos casamos.
Talvez Vasily tenha razão.
Talvez ela possa ser mais do que uma aliança.
Talvez ela possa ser minha.







