Mundo ficciónIniciar sesiónA voz dele veio cheia de uma preocupação que soava completamente artificial aos ouvidos de Charlotte.
— Eu vou aí... - Não precisa! - Tem certeza de que não quer que eu vá te buscar? Posso passar aí na Clara, levar uma sopa... — Não precisa, mesmo, George. — a voz dela saiu fraca e rouca, um efeito natural do resfriado que se encaixava perfeitamente em sua performance. Pelo tom de voz ao telefone, ele parecia estranhamente insistente. Charlotte sabia bem o porquê, a culpa o estava roendo, e ele precisava de uma demonstração de cuidado para provar a si mesmo — e talvez tentar convencê-la — de que ainda era um bom noivo. O ego dele não permitiria uma imagem falha de si mesmo. Acima de tudo, ele estava desesperado para garantir que ela estivesse recuperada a tempo e não desistisse do casamento, mantendo as aparências para todos. — Mas, querida, você parecia tão bem ontem... Deixe-me pelo menos te dar uns mimos — ele insistiu pelo aparelho. Charlotte deixou escapar uma tosse sutil antes de responder, adotando um tom cirúrgico e distante. — George, você está agindo de forma muito estranha. Você sempre ficava irritado quando eu ficava doente e pedia sua atenção? O tom de George ficou cauteloso do outro lado da linha. Uma confusão parecia ter se instalado em sua mente. — Bem, eu... eu só estou preocupado. Você parece... diferente. "Ela estava diferente", Charlotte pensou, fechando os olhos como se estivesse exausta. Ela precisava lhe dar uma explicação que fizesse sentido para o ego previsível dele. — Eu era imatura, George — declarou ela, forçando uma voz mansa. — Eu usava as minhas doenças para conseguir atenção. É ridículo. Eu estou resfriada, não morrendo. Você tem trabalho a fazer. Eu me viro. Ela manteve a voz tomada por um desinteresse polido, escondendo a tempestade de nojo que se agitava dentro de si. — Eu entendi que as coisas estão sérias agora. O casamento, o contrato... Por favor, vá trabalhar. O pai da Gabriela está pressionando, não está? Não estrague tudo por minha causa. A menção ao trabalho e à pressão do escritório o atingiu em cheio. O nervosismo sobre os negócios o dominou. A necessidade de George de provar que era indispensável para o escritório superou o ímpeto de fingir ser um noivo dedicado. Ele suspirou, frustrado pelo telefone, mas visivelmente aliviado por ela o ter "libertado". — Tudo bem, Charlotte. Mas, juro, eu não entendo o que está acontecendo com você. Mas se você diz... — Ele guardou o que precisava na maleta de couro, preparando-se para sair de onde estava. — Eu vou para o escritório. Por favor, me ligue em caso de qualquer emergência. Qualquer coisa. Eu largo tudo e vou para você imediatamente. — Eu ligo — prometeu ela, com um sorriso que parecia perfeitamente doente e inofensivo, mas que carregava o peso de sua promessa de vingança. Assim que desligou, o celular vibrou. Pensou que era George de novo mas não, era a cuidadora de Vovó Luiza. " A vovó não está muito bem você pode vir vê-la?". Naquele momento Charlotte decidiu para onde iria. Três dias foram o suficiente para que a febre cedesse e o gelo na alma de Charlotte se solidificasse por completo. Quando finalmente colocou a chave na fechadura do apartamento que dividia com George, não havia mais espaço para a tristeza em seu peito. Havia apenas uma frieza cirúrgica. Durante as últimas setenta e duas horas, ele não havia ligado nenhuma vez. Limitara-se a enviar mensagens curtas, mecânicas e espaçadas. "Melhoras", "Como você está?", "Preciso esticar o horário no escritório hoje". Era como se a culpa dele tivesse evaporado no instante em que Charlotte lhe dera permissão para focar no trabalho. Ele se sentia livre, seguro em sua mentira arrogante. Mas Charlotte sabia exatamente o que ele vinha fazendo. Sentada na poltrona do quarto de hóspedes de Clara, ela testemunhara a audácia dos dois através da tela do celular. As atualizações de Gabriela em sua rede social tornaram-se um retrato diário e ultrajante dos encontros do casal. Gabriela não tinha escrúpulos, e George se sentia intocável. Na primeira noite, uma foto de duas taças de vinho em um restaurante sofisticado na zona sul, com o relógio de prata de George aparecendo discretamente no canto da imagem. Na tarde seguinte, um breve vídeo dos dois rindo na fila do cinema, a câmera cortando rápido antes que o rosto dele ficasse totalmente nítido. Na noite anterior: uma foto de Gabriela vestindo uma camisa social masculina claramente grande demais para ela, com a janela da sala de estar do apartamento ao fundo. Eles transformaram o lar dela em um motel particular. Fotos, vídeos, horários. Provas irrefutáveis de uma traição meticulosa e desavergonhada. Charlotte caminhou até o quarto do casal. O cheiro do perfume de Gabriela ainda parecia flutuar suavemente no ar, uma herança da audácia deles. - Vamos acabar com isso! Charlotte não chorou. Em vez disso, abriu o guarda-roupa e começou a selecionar as suas peças de roupas. Ela fechou o zíper da primeira mala, ainda sem fôlego pela força de sua decisão. Ela entrou na sala, seu olhar pousando em cada detalhe conhecido. Cada objeto havia sido escolhido com cuidado por ela, criando a ilusão reconfortante de um lar. Após remover todos os vestígios de sua antiga vida em comum, ela terminou de embalar tudo em sacos descartáveis, movendo-se com uma eficiência fria e metódica. Deixou o lixo na calçada e voltou para dentro, havia muito a arrumar. Imersa nos próprios pensamentos, no planejamento de onde iria e como faria a mudança, Charlotte não percebeu o som dos passos que se aproximavam. George estava à porta do quarto, parado no limiar. O rosto dele estava marcado por um misto de choque e incredulidade, os cabelos alinhados como sempre, mas levemente úmidos. Ele havia voltado, provavelmente da casa de Gabriela. - Charlotte, o que diabos você está fazendo?






