Capítulo 4 Momento importante

A dor era sufocante. Ela abaixou o aparelho, encerrando o vídeo. O peso da realidade era imenso. Ela não era boa o suficiente? Era apenas uma fachada?

Charlotte não pensou; apenas se moveu. Saiu do apartamento sem fechar a porta direito, sem pegar as chaves. Desceu rápido, chamou um carro e pediu que o motorista a levasse ao único lugar onde poderia descansar: a casa de Clara Harth, sua amiga de muitos anos e seu único porto seguro naquela cidade. Desde a morte dos pais, tinha se estabelecido em Richmond depois de conhecer George, apenas Clara permaneceu ao seu lado como uma boa amiga.

Clara sempre fora contra o relacionamento de Charlotte com George. Dizia que ele não a valorizava, mas sempre respeitara as escolhas da amiga, evitando confrontar o homem, mas também nunca se convenceu de que ele era uma boa escolha.

Ao chegar ao apartamento de Clara, Charlotte entrou em silêncio, encharcada pela chuva. A amiga a levou direto ao banheiro, insistindo para que tomasse um banho quente, as lágrimas vieram.

Depois de contar tudo, com o celular ainda quente em mãos, o choro de Charlotte cessou, substituído por um silêncio assustador. Enquanto estava deitada na cama com Clara já adormecida. As palavras de Clara ecoavam em sua mente como gritos:

— George é um cretino! Ele não te ama, para ele você é apenas um conforto! Pare com isso!

— Ele me acha uma "tola apaixonada" — Charlotte murmurou para o vazio.

— Como você pode se reduzir dessa maneira? Aceitar as migalhas desse estúpido! — Clara insistira.

Charlotte sempre fora a personificação da elegância controlada, espirituosa. Com sua postura impecável e passos firmes, exalava uma confiança que muitos demoravam anos para construir. O cabelo negro, liso e brilhante, parecia uma cortina de seda. Seus olhos verdes eram vívidos e profundos. Aos vinte e quatro anos, era considerada uma promessa no mundo literário, embora ninguém realmente conhecesse seu pseudônimo. Escrevia histórias enquanto trabalhava como professora de Literatura, apenas para encobrir sua verdadeira vocação.

Ela sempre acreditara que sua vida caminhava para o ápice. Era elegante, disciplinada, e seu noivado parecia apenas mais uma peça perfeitamente encaixada na engrenagem de seus sonhos, era o plano. Eles se conheceram na faculdade, a avó de George amou Charlotte desde o primeiro dia em que se conheceram.

George era tudo o que se esperava de um futuro advogado influente. Loiro, dono de olhos verdes que pareciam sempre banhados de luz, tinha uma beleza tranquila que encantava a todos. Com porte atlético e um sorriso generoso — daqueles que transmitem a impressão de que tudo está bem no mundo —, possuía uma postura impecável e um charme herdado de gerações que viveram entre comícios e acordos silenciosos.

Ao longo dos anos, o namoro seguiu para o compromisso. Houve jantares, aparições em eventos, promessas veladas e fotos perfeitas. No início, ele era gentil e amável. Charlotte acreditara naquele futuro com a convicção de quem finalmente encontrara um lugar seguro. George era educado e cuidadoso. Nunca explosivo, nunca arrebatador... mas era seu. E ela se permitira acreditar que aquela estabilidade era o tipo de amor que duraria para sempre. Abriu mão de muito para acompanhar ele.

O quarto de Clara era preenchido apenas pelo som rítmico da chuva batendo contra o vidro e o calor do edredom que envolvia as duas. Deitadas lado a lado, Charlotte parecia uma estátua de mármore, enquanto Clara a abraçava de lado, oferecendo o conforto de quem conhece cada cicatriz da alma da amiga.

- Charlie? Ainda não dormiu?

— Eu vou embora, Clara — sussurrou Charlotte, a voz desprovida de qualquer tremor, o que a tornava ainda mais assustadora.

— Richmond não tem mais nada para mim.

Clara sentou-se na cama de súbito, o rosto inflamado de indignação.

— Você vai o quê? Você não vai simplesmente sair pela porta dos fundos como se fosse a culpada de algo! E o seu trabalho? — Clara segurou os ombros da amiga, forçando-a a olhar para ela.

— Você viu o que eu vi naquele vídeo. Eles estavam na sua cama. Se você apenas for embora, ele vai inventar uma mentira, dizer que você enlouqueceu.

Charlotte fechou os olhos por um momento. A imagem de George ofegando o nome de Gabriela queimava em sua mente.

— Eu não quero mais olhar para a cara dele, Clara. A náusea é insuportável. Eu... posso trabalhar de qualquer lugar...

— Não deixe que esse advogado de fachada escreva o seu final. Você vai embora, tudo bem... mas não antes de incendiar o palco dele.

Charlotte sentiu uma faísca de algo que não era dor. Era o gelo da vingança começando a cristalizar.

— Você tem razão.

Ela pegou o celular sobre o criado-mudo. A tela brilhou, mostrando a miniatura do vídeo que mudaria tudo.

— Eu não vou deixá-los impunes, Clara. George ele vai ter exatamente o que merece. Será a minha despedida.

Um sorriso mínimo, desprovido de qualquer alegria, surgiu nos lábios de Charlotte. Clara arqueou uma sobrancelha, começando a entender a resolução da amiga.

- Estou aqui para o que você precisar Charlie!

O resfriado veio forte, um presente indesejado daquela noite sob a chuva do lado de fora do teatro. O corpo de Charlotte reagiu à tensão e ao frio com febre baixa e uma congestão nasal incessante. No entanto, a doença, que em outros tempos teria sido um desastre, tornou-se uma bênção estratégica.

Ela se refugiou no quarto de hóspedes de Clara, usando o mal-estar como um escudo protetor. Charlotte ligou para George no dia seguinte, cedo e contou estar resfriada.

- Vou ficar aqui, não contaminá-lo. É um momento importante, não quero prejudicar seus compromissos no escritório.

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