Mundo de ficçãoIniciar sessão(POV: Sophie)
A luz do sol que atravessava as cortinas do quarto de Aline parecia um ataque direto aos meus olhos. Cada fresta de claridade era como uma agulha perfurando meu cérebro, acompanhada por uma batida rítmica e dolorosa nas têmporas. — Bom dia, bela adormecida. Ou deveria dizer, "bela embriagada"? — A voz de Aline soou perto demais, carregada de um sarcasmo que eu não tinha forças para rebater. — Por favor, fale mais baixo... — murmurei, cobrindo o rosto com o travesseiro. — Minha cabeça vai explodir. — É o preço que se paga por beber sem estar acostumada, Sophie. O que deu em você? — Ela se sentou na beira da cama, estendendo-me um copo de água e um comprimido. — Você nunca bebe assim. Sentei-me com dificuldade, sentindo o estômago protestar. A memória da noite anterior era um mosaico borrado de luzes neon e um perfume amadeirado que ainda parecia impregnado na minha pele. — O Caleb me deixou lá, Aline. Sozinha. — A mágoa na minha voz era real, superando até a náusea física. — Ele foi levar a Evellyn embora e simplesmente sumiu. Eu liguei, mandei mensagem... e nada. Fiquei lá como uma idiota, esperando por alguém que só foi aparecer horas depois. — Ele é um imbecil — Aline sentenciou, cruzando os braços. — E você foi uma tonta de ficar esperando. Devia ter vindo embora. — Eu sei. Mas eu não acreditava que ele teria coragem de me deixar. Eu estava chateada, com raiva... e aqueles drinks pareciam tão inofensivo e bonito. — Suspirei, lembrando-me vagamente do trajeto até ali. — Ele nem se desculpou quando chegou. Quer dizer... ele me trouxe, mas foi tudo tão estranho. — Estranho como? — Aline arqueou uma sobrancelha. — Não sei. Ele estava diferente. O perfume, o jeito de falar... até o beijo. — Toquei meus lábios, sentindo um formigamento residual. — Foi... intenso. Antes que Aline pudesse questionar mais, o som estridente do meu celular cortou o ar. Ela esticou o braço, pegou o aparelho na mesa de cabeceira e me entregou com um olhar significativo. — Falando no diabo — disse ela. Respirei fundo, endireitando a postura. A raiva começou a suplantar a ressaca. Eu estava pronta para descarregar toda a minha frustração. Atendi no segundo toque. — Onde você está? — A voz de Caleb do outro lado soou tensa, mas não da forma que eu esperava. Não havia culpa, apenas uma urgência. — Estou na Aline, ainda. Onde mais eu estaria? — disparei, sem dar espaço para ele respirar. — O que aconteceu ontem, Caleb? Por que você demorou tanto? Por que não atendeu minhas ligações? Você tem noção do quanto eu me senti humilhada naquela festa? — Sophie, para. — O tom dele me calou instantaneamente. Era seco, desprovido de qualquer emoção que não fosse choque. — Esse não é o momento para isso. — Como não é o momento? Você me deixou... — Meu pai acabou de falecer — ele me interrompeu, a voz falhando levemente. O mundo pareceu parar por um segundo. A raiva que eu sentia evaporou, substituída por um frio súbito que percorreu minha espinha. — O quê? — sussurrei, sentindo o sangue fugir do meu rosto. — Caleb... eu sinto muito. Onde você está? — Não importa agora. — Ele não respondeu às minhas perguntas, parecendo apressado e distante. — Só... vá para casa, troque de roupa e me encontre na casa funerária. Preciso de você lá. A ligação caiu antes que eu pudesse responder. Olhei para o celular, estática, enquanto Aline me observava com preocupação. A ressaca ainda estava lá, mas a realidade do que acabara de acontecer era um peso muito maior. O pai de Caleb, meu sogro, estava morto. E eu, ainda mergulhada na névoa da noite anterior, teria que enfrentar uma das famílias mais poderosas da cidade em meio ao luto.






