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CAPÍTULO 2: Bem-vinda ao Inferno

Lívia ficou olhando para a tela do celular por tempo demais, como se aquelas palavras pudessem mudar se ela piscasse ou respirasse fundo o suficiente, como se fosse possível reinterpretar aquela frase de alguma forma menos ameaçadora, menos pessoal, menos… direcionada a ela, mas não havia margem para dúvida, não havia ironia, não havia ambiguidade — apenas uma certeza fria e direta que parecia atravessar o vidro da tela e se instalar dentro do peito dela.

Bem-vinda ao inferno, Lívia.

O nome dela ali, escrito com tanta naturalidade, foi o que mais incomodou, porque confirmava algo que ela já começava a suspeitar desde o momento em que Arthur Valença cruzou aquela porta mais cedo: aquilo não era um acordo qualquer, não era uma negociação desesperada entre duas partes em desvantagem, era algo muito mais calculado, muito mais pessoal, e, acima de tudo, muito mais perigoso do que ela estava pronta para enfrentar.

Ela travou a tela devagar, como se aquele simples gesto pudesse encerrar o assunto, e apoiou o celular sobre a mesa, mas não conseguiu afastar a sensação incômoda de que já estava sendo observada, avaliada, conduzida para dentro de um jogo cujas regras ela não conhecia — e isso, mais do que qualquer outra coisa, fazia o estômago dela se revirar.

A assinatura ainda estava fresca no contrato, a tinta quase brilhando sob a luz suave da sala, e por um instante ela teve um impulso irracional de rasgar o papel, de fingir que nada daquilo tinha acontecido, de voltar algumas horas no tempo e simplesmente não atender o telefone do pai, mas a realidade era mais sólida do que qualquer vontade momentânea, e a verdade era simples demais para ser ignorada: ela tinha assinado, e aquilo mudava tudo.

O silêncio da casa parecia mais pesado do que o normal, como se as paredes tivessem absorvido a decisão e agora devolvessem aquele peso em forma de um vazio opressor, e foi nesse silêncio que ela começou a perceber o quanto estava sozinha naquele momento, porque, apesar de tudo, aquela escolha — ou falta dela — era exclusivamente dela, e as consequências também seriam.

Ela não sabia quanto tempo ficou ali, parada entre o contrato e o celular, entre a realidade e a sensação crescente de que tinha acabado de entrar em algo que não conseguiria controlar, mas foi o som da porta principal se abrindo que a trouxe de volta, abruptamente, como se alguém tivesse puxado ela de um lugar distante.

— Lívia? — a voz do pai veio carregada de uma expectativa que a fez fechar os olhos por um segundo antes de responder.

— Estou aqui.

Ele entrou na sala devagar, como se já soubesse o que iria encontrar, como se estivesse preparado para qualquer resposta — exceto talvez aquela que realmente importava — e os olhos dele foram direto para o contrato sobre a mesa, parando ali por um tempo que pareceu longo demais, antes de subir lentamente até o rosto dela.

— Você… — ele começou, mas não terminou.

Não precisava.

Ela apenas assentiu.

Simples assim.

E naquele pequeno gesto, tudo foi dito.

O alívio que atravessou o rosto dele foi imediato, quase doloroso de assistir, porque era puro, era sincero, e ao mesmo tempo era o lembrete mais claro possível do preço que ela tinha acabado de pagar por aquilo, e Lívia sentiu algo apertar dentro dela, algo entre culpa e resignação, algo que ela não queria nomear naquele momento.

— Eu sei que não foi fácil — ele disse, a voz mais baixa agora, mais humana, mais próxima — mas você fez a coisa certa.

Ela quase riu.

Quase.

Mas não havia humor na situação, não havia leveza em absolutamente nada daquilo, então ela apenas desviou o olhar, incapaz de sustentar aquela validação, porque não se sentia certa, não se sentia forte, não se sentia nada além de… presa.

— Ele mandou uma mensagem — disse de repente, sem olhar para o pai.

— O quê?

Ela pegou o celular novamente, destravou a tela e mostrou para ele, sem dizer mais nada.

O silêncio que se seguiu foi diferente do anterior.

Mais tenso.

Mais consciente.

O pai dela franziu o cenho enquanto lia, e por um instante Lívia viu algo mudar na expressão dele, algo próximo de preocupação real, mas foi rápido, rápido demais para se sustentar, e logo ele devolveu o celular com um suspiro controlado.

— Deve ser só… uma forma de pressão — ele disse, tentando parecer convincente.

Mas não parecia.

— Não — Lívia respondeu, finalmente olhando para ele — não é.

Porque ela sabia.

Sentia.

Aquilo não era teatro.

Era aviso.

E a diferença entre os dois era exatamente o que a assustava.

Antes que o pai pudesse responder, o celular dela vibrou novamente, desta vez com um número desconhecido ligando diretamente, e o nome de Arthur não aparecia na tela, mas ela não precisou de confirmação para saber quem era.

Ela hesitou por um segundo.

Dois.

Mas então atendeu.

— Alô?

— Espero que você tenha uma boa noite de sono — a voz dele veio do outro lado, calma, controlada, como se estivesse comentando algo trivial — porque amanhã você deixa de ter qualquer tipo de tranquilidade.

Lívia sentiu o corpo inteiro enrijecer, mas manteve a voz firme.

— Você gosta de dramatizar, não gosta?

Um pequeno silêncio.

E então… um riso baixo.

Não alto.

Não exagerado.

Mas perigoso.

— Você ainda não viu nada, Lívia.

O nome dela novamente.

Sempre o nome.

— Se isso é uma tentativa de me assustar—

— Não é tentativa — ele cortou, agora mais direto — é uma garantia.

O coração dela acelerou, mas ela se recusou a demonstrar.

— Então por que eu? — a pergunta saiu antes que ela pudesse segurar.

Silêncio.

E dessa vez foi mais longo.

Mais carregado.

— Você realmente não sabe? — ele perguntou, e havia algo diferente na voz dele agora, algo mais escuro, mais profundo.

— Não.

Outra pausa.

E então, mais baixo:

— Melhor assim.

A ligação caiu.

Simples assim.

Sem explicação.

Sem resposta.

E isso foi pior do que qualquer ameaça.

Lívia ficou olhando para o celular por alguns segundos, tentando processar, tentando encaixar aquilo em algum tipo de lógica que fizesse sentido, mas quanto mais ela pensava, mais claro ficava que não havia lógica suficiente para explicar o comportamento dele, não sem uma peça que ainda estava faltando.

— O que ele disse? — o pai perguntou.

Ela hesitou.

Mas então respondeu:

— Que isso é só o começo.

E pela primeira vez desde que tudo começou, ela viu algo próximo de medo real no olhar dele.


A noite passou mais devagar do que deveria, arrastada, pesada, como se o tempo tivesse decidido desacelerar apenas para que ela pudesse sentir cada segundo daquela nova realidade se instalando dentro dela, e quando finalmente o dia começou a clarear, Lívia já estava acordada, sentada na cama, olhando para o nada, como se estivesse tentando se preparar para algo que ela ainda não compreendia completamente.

O som do celular interrompeu o silêncio novamente.

Mensagem.

Dessa vez, objetiva.

“Carro na porta em 30 minutos. Não se atrase.”

Sem assinatura.

Sem explicação.

Sem opção.

Ela soltou o ar devagar.

Então era assim.

Sem espaço.

Sem escolha.

Sem controle.

Levantou-se, caminhou até o guarda-roupa e parou por um instante, olhando para as roupas como se estivesse escolhendo uma versão de si mesma que ainda não existia, porque a verdade era que a Lívia de ontem já não servia mais, e a de hoje ainda estava sendo construída à força.

Optou por algo simples.

Elegante.

Controlado.

Se ele queria um jogo, ela não entraria despreparada.

Quando desceu, o pai já estava na sala, inquieto, andando de um lado para o outro, e parou assim que a viu.

— Você não precisa ir sozinha—

— Eu preciso — ela respondeu, antes que ele terminasse.

E ele soube.

Pelo tom.

Pela postura.

Que não adiantava insistir.


O carro estava lá.

Preto.

Impecável.

Esperando.

Como tudo na vida de Arthur Valença parecia ser.

Lívia respirou fundo antes de entrar.

E no momento em que a porta se fechou atrás dela, uma única certeza se instalou de vez:

não havia mais volta.

Quando o carro finalmente parou, minutos depois…

Lívia olhou pela janela — e o ar sumiu dos pulmões.

Ela não estava sendo levada para uma empresa.

Nem para uma reunião.

Nem para um cartório.

Era uma mansão.

Gigantesca.

Isolada.

Imponente.

E no topo da escadaria…

Arthur estava esperando.

Como se já soubesse exatamente quando ela chegaria.

E dessa vez…

ele estava sorrindo.

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