ANALU
A primeira coisa que me acorda não é o despertador estridente da mansão, nem o silêncio opressivo que vinha antes do caos. É o cheiro de café passado na hora, misturado com o pão que está começando a torrar. Um cheiro simples, caseiro, de verdade.
Abro os olhos devagar, deixando a luz do sol que entra pelas cortinas finas de voil me acostumar com o dia. A cama é menor, o colchão mais simples, mas nunca, em todos os meus anos naquela fortaleza de mármore, eu dormi tão profundamente.
Estou no nosso apartamento, meu e do Cayo. Não é uma mansão. Tudo pequeno, tudo simples. E tudo meu, pela primeira vez na vida. Pela primeira vez, o silêncio não pesa. Ele é só silêncio. A paz é um bicho estranho, que chegou devagar e agora está se aninhando aqui dentro de mim, entre uma costela e outra, ocupando o espaço que antes era só medo e obrigação.
Levanto, e os pés descalços encontram o piso frio. É um frio bom, real. Caminho até a porta do quarto e espio. Cayo está na cozinha, de costas para