CAYO
Acordo antes dela. Sempre acordo.
É um instinto de quem viveu na corda bamba a vida inteira – dormir profundamente é um luxo que meu corpo não conhece. A luz do posto ainda tá acesa, pintando o rosto dela de laranja enquanto ela dorme. Ela tá virada de lado, um punho fechado perto do queixo, como se até no sonho ela estivesse se defendendo de algo.
Meu coração aperta.
Esse aperto já virou companheiro.
É medo. Medo de tudo que pode tirar ela de mim.
Saio da cama sem fazer barulho, dou a volta na cama e dou um beijo na testa dela, visto um macacão velho e saio. O ar da manhã é frio e cortante. Minha oficina – se é que pode chamar aquilo de oficina – fica a três quarteirões. É um box num galpão velho, dividido com um cara que conserta geladeira. Cheiro de óleo queimado, gasolina e mofo. Mas é meu. É o chão que eu piso e ninguém me tira.
Ligo o rádio velho, pego uma moto que tá com o carburador entupido e começo a trabalhar. É no serviço braçal que minha cabeça sossega. Cada ferr