Analu
A rotina mudou. E mudou de um jeito que coloca um nó na minha garganta só de pensar. Antes, o silêncio daqui tinha o peso do medo. Agora, tem o som do Zyon. Dos passinhos dele correndo da sala pro quarto, das perguntas que não param, do riso que é um negócio solto, gostoso, que enche o apartamento todo.
Ele é um doce.
Não é só uma palavra.
É verdade.
Acorda com o cabelo todo espetado, vem pra cozinha onde eu tô tentando não queimar o café, e pergunta, sério:
— Posso ajudar, Analu?
A gente arruma a mesa juntos, ele carrega os pires com um cuidado de quem tá transportando ouro. À tarde, a gente faz a lição da escola dele no sofá. Ele se concentra com a língua pra fora, igual ao Cayo quando tá focado numa moto complicada. E quando termina, me dá um abraço surpresa, do nada, e diz “obrigada”.
Antes de dormir, é sagrado. Ele escova os dentes fazendo careta, veste o pijama do Homem-Aranha, e vem pra cama dele – um colchão no chão do quarto, do lado do nosso, que ele chama de “nossa