Mundo ficciónIniciar sesiónPOV: ALESSIA LOMBARDI
A primeira coisa que senti foi o frio impiedoso do chão de concreto contra as minhas costas. A segunda foi a dor de cabeça latejante, uma herança maldita daquela droga que o "Cosplayer do Michael Myers" injetou no meu pescoço.
Abri os olhos devagar. Uma cela. Paredes de pedra úmida que exalavam mofo, uma janela alta demais para alcançar e uma porta de ferro reforçado que parecia selar meu destino. O vestido de seda marfim, agora rasgado, manchado de pólvora e sujo de poeira, parecia uma piada de mau gosto naquele lugar.
— Ótimo — resmunguei para o teto, minha voz saindo rouca e arranhada. — Doze mil euros de aluguel e eu vou devolver essa merda parecendo que sobrevivi a um naufrágio.
Levantei-me, ignorando a tontura que fazia o mundo girar. Verifiquei minha coxa por puro instinto; o coldre estava vazio. Meus dedos tatearam o tecido em busca de qualquer grampo, fio de metal ou fragmento de osso. Nada. Caminhei até a janela, calculando a distância e o ângulo. Se eu tivesse um apoio, talvez...
O som metálico do ferrolho correndo me fez virar instantaneamente, assumindo uma postura defensiva apesar do vestido pesado.
Um rapaz entrou. Ele usava a mesma farda preta dos outros, mas estava sem a máscara. Ele era jovem, bonito de um jeito perigoso, com cabelos louros claros e olhos castanhos âmbar que pareciam analisar cada centímetro das minhas curvas.
— Bem-vinda ao seu novo lar — ele disse, com um sorriso que morria antes de chegar aos olhos.
— "Lar"? — Soltei uma risada seca, cruzando os braços sobre o espartilho que ainda esmagava minhas costelas. — Vocês são péssimos decoradores. E quem é você? O estagiário do sequestrador?
Ele arqueou uma sobrancelha, aproximando-se com passos lentos, predatórios. — Eu sou Lorenzo. E eu acho que você deveria ser mais cordial. Você está em território inimigo, cercada por pessoas que, com certeza, não dão a mínima para a sua integridade física.
— Cordial? — Soltei uma risada sem graça, dando um passo à frente até ficar a centímetros dele, desafiando seu espaço pessoal. — Você está perdendo seu tempo. Meu estoque de gentileza acabou no altar.
Lorenzo se aproximou mais. Ele estendeu a mão e segurou meu queixo com uma força desnecessária, forçando-me a encarar o abismo nos olhos dele. Eu não desviei. Não pisquei. Eu queria que ele visse que a "princesinha" tinha dentes.
— Você é... diferente do que ele descreveu — ele sussurrou, parecendo genuinamente confuso.
— Ele quem? O psicopata com fetiche em máscaras? — ironizei. — Diga a ele que ele estragou meu vestido. Eu deveria ser a noiva mais deslumbrante da Itália hoje, e agora sou só uma prisioneira faminta em um porão úmido.
Lorenzo soltou meu rosto, parecendo perturbado pela minha falta de medo.
— Não tente nada, Alessia. Meu irmão não é um homem paciente. Se você tentar algum joguinho, ele vai garantir que você nunca mais caminhe por conta própria.
— Seu irmão, é? Mal posso esperar para conhecer o dono dessa zona.
Lorenzo suspirou, parecendo mais um carcereiro exausto do que um carrasco.
— Venha comigo. Vou te tirar desse buraco.
Ele me guiou por corredores de pedra que pareciam uma masmorra saída de um filme de terror. O lugar era úmido e asfixiante, mas Lorenzo mantinha um passo calmo. Ele me levou até um quarto no andar de cima. Não era uma cela, mas a porta de madeira maciça e as grades reforçadas na janela deixavam claro: eu mudei de gaiola, mas continuava presa.
— Tem um banheiro ali — ele apontou. — Deixei roupas limpas na cama. Não são de luxo, mas você precisa se livrar desse vestido. Ele está chamando atenção demais e dificultando seus movimentos.
Segui-o com os braços cruzados, observando cada movimento dele, analisando seus pontos fracos. Lorenzo sentiu meu olhar e parou, arqueando a sobrancelha. — Por que está me olhando assim?
— Você não parece ser um cara mau — confessei, sendo sincera pela primeira vez. Havia algo nele que não era puramente sombrio, ao contrário do monstro da máscara.
Ele deu um sorriso sem humor, balançando a cabeça.
— Nem todo mundo que faz coisas horríveis é tecnicamente mau, Alessia. Às vezes, você só precisa de um motivo forte o suficiente para sufocar a sua moralidade.
Ele se virou para sair, mas o espartilho estava me matando. As barbatanas cravavam na minha pele a cada respiração, deixando marcas vermelhas que eu já podia sentir arder.
— Espere... você pode me ajudar com isso? Está apertado demais, eu mal consigo respirar.
Lorenzo hesitou, o olhar vacilando por um segundo, mas se aproximou. Ele foi surpreendentemente respeitoso, mantendo os olhos baixos enquanto desatava os nós do espartilho com dedos ágeis. Assim que a pressão cedeu, soltei um suspiro de alívio tão profundo que pareceu ecoar pelo quarto. Pela primeira vez em horas, meus pulmões se expandiram por completo.
— Daqui a pouco eu volto — ele disse, recuando rapidamente, como se estivesse fugindo de uma tentação.
— Eu estou com fome — lembrei, minha barriga roncando para enfatizar que eu ainda era humana e vulnerável.
— Vou providenciar algo.
Ele saiu e o som da chave virando na fechadura. Eu estava trancada. Comecei a revistar o quarto imediatamente. Debaixo da cama, dentro das gavetas vazias, atrás do espelho... nada. Nenhuma arma, nenhum grampo de cabelo. Olhei para a janela: alta demais. Se eu pulasse, só encontraria o chão e ossos quebrados.







