Ponto de Vista: VALENTINA
O cheiro de suor, fumaça de charuto e perfume barato era o meu ar diário. Mais uma noite no Stardust, a boate que era meu palco e minha prisão. O dinheiro era a única razão para eu vestir o traje minúsculo e a máscara que cobria meu rosto, um último resquício de dignidade para Valentina Rossi. Para a clientela, eu era apenas "A Pantera", a dançarina morena de 1,60m, 29 anos, que se movia com a ferocidade de uma felina. Solteira e decidida a permanecer assim, a máscara era meu escudo contra os olhares possessivos e as propostas nojentas.
Fui tirada do transe rotineiro pela voz grave de Murilo, o dono e meu salvador.
— Pantera, sonhando acordada de novo? Você é a próxima, o palco te espera!
Murilo era mais que um chefe; era o amigo que me deu emprego quando eu não tinha como pagar os remédios da minha mãe ou o material escolar do meu irmão.
— Já vou, Murilo. Só um minuto... — Tentei soar casual, mas minha voz falhou. — Me sinto tão exposta nessa roupa...
Ele me olhou com a ternura que só um irmão mais velho poderia ter.
— Você é linda, Valentina. E seu trabalho é digno. Agora vá, o público está impaciente.
Revirei os olhos de brincadeira e coloquei a máscara. O palco. Respirei fundo e entrei.
Ignorei o mar de homens e fechei os olhos. A música me engoliu. Envolvi a barra de pole dance, sentindo a melodia guiar meus movimentos. Girei, desci, e rastejei pelo palco até parar em frente a uma figura imponente.
Ele era robusto, de terno perfeitamente cortado, e tinha um olhar tão hipnotizante que por um instante me fez esquecer que estava trabalhando. Sentei-me em seu colo. A dança, que era sempre mecânica, tornou-se algo mais. Senti sua mão firme na minha cintura, e um calor perigoso subiu. Notei o volume crescente sob o tecido de sua calça. Por um momento fugaz, naquele abraço forçado, existia apenas a intensidade entre nós.
Mas o fim da música chegou. Disparei para o camarim.
— Impressionante, Pantera! Você arrasou, é a atração principal desta boate! — Murilo comemorou.
— Obrigada, Murilo. Até amanhã! — Agradeci, sentindo o desconforto me atingir.
Tirei a roupa de palco e vesti minha máscara de rua. Antes que eu pudesse sair, ouvi a batida.
Abri a porta e lá estava ele. O homem do colo.
— Quem é você e o que está fazendo aqui no meu camarim?
— Assim você atende seus clientes? Essa atitude arrogante não combina com a mulher que estava se esfregando em mim há pouco. — O cretino arrogante entrou sem ser convidado e se sentou.
— Primeiro, não tenho clientes. Segundo, não me esfreguei em você por prazer; faz parte do meu trabalho dançar para idiotas como você. Agora, saia!
— Posso te levar para casa, ou a um lugar onde você possa terminar aquela dança sensual.
Olhei para ele com puro desprezo.
— Saia do meu camarim imediatamente ou chamo a segurança.
— Sou um cliente que apreciou sua performance erótica. Estou aqui para contratar uma noite com você.
A humilhação me atingiu em cheio. Ele achava que eu me vendia. Num impulso cego, levantei a mão e acertei-lhe um tapa no rosto.
Ele se levantou, os olhos escuros ardendo de raiva, e agarrou meu braço com força.
— Quem diabos você pensa que é para me agredir, sua vagabunda? Você não faz ideia de quem eu sou.
— De maneira alguma sou uma vagabunda. E você se comporta como um troglodita. Dançar não me torna menos digna. Sua arrogância é desnecessária. Eu jamais deitaria com você por dinheiro.
— Você é uma dançarina de boate, vestida assim, esfregando-se em homens. Que impressão espera que eu tenha?
— Sou apenas uma dançarina. Se procura algo mais, procure outra mulher.
— Você não faz ideia do que sou capaz para conseguir o que quero. E esse tapa, sua vagabunda, terá consequências.
Ele me encarou. Tentei odiá-lo, mas aqueles olhos negros eram hipnotizantes.
— Já terminou de me analisar? — perguntou, com um tédio perigoso.
— Na verdade, não. — Respondi, me aproximando. — Nem todos têm sua facilidade financeira. Não gosto deste trabalho, e odeio homens como você, que acham que o dinheiro pode comprar tudo. — Sussurrei em seu ouvido antes de me afastar, pegar minha bolsa e fugir.
Ponto de Vista: DAMIAN
Ninguém nunca havia levantado a mão para mim. Nenhuma mulher.
A dançarina mascarada me pegou desprevenido. A proximidade de seus lábios, a mistura do perfume dela com o cheiro de raiva... Foi impressionante. Ela seria minha. Custasse o que custasse, essa mulher terminaria na minha cama.
Saí do camarim, a frustração fervendo na minha pele. Aquele tapa não seria esquecido.
Meu nome é Damian Valmont, 39 anos. Sou o CEO de um império de transporte marítimo, herdado do meu pai. Meu irmão mais novo, Enrico, é meu vice-diretor.
Foi Enrico quem me arrastou para cá. Para minha boate, aliás.
— Damian, onde você estava? Estava te procurando!
— Me deixa, Enrico. Você me trouxe para cá para quê? Se não é para conseguir a garota. Você sabe que odeio vir às minhas boates, odeio essa gente bajulando.
— Como eu ia saber que você se interessaria logo pela Pantera, a mais difícil? Ela não se envolve com ninguém. Eu tentei, irmão, mas ela não aceita.
— Você tentou. Agora acabou. Preste atenção: aquela dançarina mascarada é minha prioridade. Mantenha distância, entendeu?
— Uau, fascinado pela mascarada! Relaxa, eu não tenho mais interesse.
— Enrico, preciso de tudo sobre ela. Onde mora, se trabalha só aqui, cada detalhe. E descubra se ela realmente não se envolve por dinheiro.
— O que você vai fazer? Ela é discreta. Só dança e vai embora. Não perca tempo com ela, há muitas mulheres atraentes por aí!
— Você sabe que eu sempre consigo o que quero. A dançarina será minha, não importa o preço. Mas, por enquanto, vamos deixar a fera selvagem em observação. Preciso de outra dançarina para me satisfazer. Vá lá, pague uma garota gostosa e leve-a para o meu apartamento.