2- Senhor urso.

Eu aceitei, não tive escolha. Ou passaria a noite inteira ali… lutando com aquela fantasia ridícula.

Me levantei, sem falar nada. 

Não conseguia nem olhar para aquele homem, apertei depressa o botão do elevador, que chegou rápido, para o meu alívio.

Ele seguiu para o outro, com passos largos e apressados, nem olhou para trás. Nem eu. 

No elevador, vi meu estado. Passei as mãos nos cabelos, em vão, as patas grandes e fofas não ajudavam em nada.

No térreo, desci e olhei para todos os lados, o saguão estava vazio. Eles tinham ido, respirei aliviada.

Ia saindo com a cabeça do urso sob o braço, mas parei, coloquei a cabeça de volta e caminhei até a saída.

Parei diante da porta giratória, espiando o lado de fora, então vi a garotinha, de novo, cabelos loiros, encaracolados, correndo em direção à porta… à rua.

— Ei!

Corri atrás dela, a agarrei pela cintura antes que alcançasse a saída. Ela se debateu, assustada, mas parou no instante em que me viu de urso.

Alguns homens chegaram logo depois, ofegantes. Pararam ao me ver com ela.

— Me ajuda… Ela sussurrou, se agarrando em mim. — Eles querem me levar, senhor urso…

Apertei-a contra meu corpo, instinto.

— Fica tranquila.

Ela escondeu o rosto no meu pescoço, pequena e fofa demais.

Os homens se aproximaram, apressados, quase em pânico, então...

— Amy.

A voz cortou o ar, grave e fria.

E foi ai que tudo mudou.

— Desça. Já. Ele disse, se aproximando.

Ela se agarrou mais forte.

— Coloque-a no chão.  Ele ordenou.

Eu não me movi, por pânico.

— Quem é você? Perguntei, mesmo com a voz falhando.

— O pai dela. Respondeu, seco, direto, sem espaço para dúvida.

Olhei para a menina.

— Pode ir com ele… querida. É seu pai.

— Não! Ela sussurrou, desesperada. — Senhor urso, ele vai me levar para a bruxa…

Meu coração apertou, mas eu não tinha escolha. Ele era o pai e eu… só uma fugitiva.

Então olhei para a rua, sem saber o que fazer, então os vi, o coiote e seus homens, de novo. Me esperando.

Não era mais sobre dinheiro, mesmo que fosse…Eu não tinha mais nada. Eles estavam vindo e, dessa vez…

Era sobre mim, sem saída, respirei fundo. Decidi.

— Vamos, Amy. Apertei-a contra mim.

— Eu vou com você.

Encarei o homem à minha frente, embora ele não pudesse ver meus olhos, graças a Deus.

Inclinei a cabeça, falando baixo no ouvido dela:

— Me diz em que andar você está. 

Sem esperar resposta, comecei a caminhar, calma por fora, tremendo por dentro. A fantasia, dessa vez, ajudou.

No elevador, Amy ainda estava agarrada a mim, ela esticou o braço e apertou o botão da cobertura. Claro, aquilo fazia sentido. Aquele homem parecia o tipo que mora acima de tudo… e de todos.

— Você não é um senhor urso… Ela disse, tocando o focinho da fantasia. — Você é uma garota, não é?

— Sou, Amy. Uma garota como você. 

Ela inclinou a cabeça, curiosa.

— Como você é de verdade?

Sorri, mesmo escondida.

— Quer ver?

Ela assentiu, animada. Coloquei-a no chão, tirei a cabeça do urso.

Por um segundo ela só me olhou, como se eu fosse outra pessoa.

— Você é linda… Murmurou, tocando meu rosto.

Aquilo me pegou desprevenida.

— Você é mais. Apertei de leve a bochecha dela.

Plin.

O som do elevador me fez gelar, coloquei a cabeça de volta rápido. As portas se abriram.

E ele já estava ali, parado, esperando.

A expressão fechada, que suavizou no instante em que Amy correu até ele, que se abaixou e a pegou no colo com naturalidade.

Meu olhar estreitou. Como ele chegou antes? Como pode?

— Ela não é um senhor urso, papai! Amy contou animada. — É uma garota!

— Hum. Ele murmurou, sem surpresa, sem reação.

Virou-se para sair.

— Espera! Amy apertou o pescoço dele. — A senhora urso pode ficar comigo hoje?

Ele parou e respirou fundo. Paciente…mas claramente no limite.

— Não, Amy. A senhora urso precisa ir para casa.

— Mas eu queria uma história…

— Amy. O tom mudou, sutil. — Já está tarde.

Dei um passo para fora do elevador, Amy estendeu os bracinhos para mim, os olhos brilhando, marejados.

E, lá embaixo…

Aqueles homens ainda estavam lá, me esperando. Minha bolsa…havia ficado na loja, estava sem dinheiro e sem saída.

Respirei fundo.

— Eu não tenho pressa. Falei. — Posso te contar uma história… se você prometer não fugir mais.

— Eu prometo! Ela disse rápido. — Se você ficar!

— Você já tem babás. Ele disse, agora ele me olhava, olhos frios. Avaliando.

— Não são babás… Amy sussurrou. — São bruxas. Elas comem criancinhas.

Quase ri.

— Amy… Ele a repreendeu.

— Certo. Falei, entrando no jogo. — Eu fico hoje. E amanhã seu pai descobre se elas são bruxas.

Ela sorriu, com um sorriso, daqueles que desmontam qualquer defesa.

Fiz joinha e ela me imitou.

Ele observava, em silêncio, me medindo, calculando. Então olhou para os homens ao fundo.

— Podem ir.

Eles hesitaram, mas foram.

Ele voltou o olhar para mim, senti um frio na espinha.

— Está bem, Amy...— Só hoje.

Entramos, o apartamento era enorme, rico demais, frio.

Amy me puxou.

— Vem!

 Ela quase me arrastou, não tive escolha. O quarto dela era branco e rosa, organizado. Bonito, sonho de toda garota.

— Estou com fome. Disse-me. — Vamos tomar banho e depois comer.

— Eu te ajudo. Encostei a porta, tirei a cabeça do urso e a fantasia.

Minha roupa estava encharcada de suor, respirei fundo. Ar, finalmente.

Enquanto ela tomava banho, fui até o espelho. Quase não me reconheci, cansada, desgastada. Sempre alerta.

Lavei o rosto, sequei e arrumei os cabelos, não por mim, por ele, porque eu tinha certeza…

Ele reparava em tudo.

Amy saiu, ajudei com o pijama, ela me olhou.

— Eu não tenho roupa pra você… mas talvez...

E saiu correndo.

— Amy?

Tarde demais, suspirei e fui atrás, sem jeito.

No corredor…

Ele apareceu, vestindo calça preta e camiseta branca, simples, só que não, nada ali era simples.

Meu olhar demorou, no peito dele. Quando percebi, ele já estava me olhando, silencioso.

Sabendo exatemente o que eu estava olhando.

O calor subiu pelo meu rosto.

— Ela saiu… foi buscar alguma coisa. Gaguejei...

Péssimo.

— Eu estava com ela e...Hesitei, foi pior.

— Eu... Qualquer coisa que eu dissesse só piorava. Calei a boca.

Por dentro…

Só conseguia pensar no quanto aquilo estava ridículo.

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