Mundo de ficçãoIniciar sessão
Perdi meus pais cedo em um acidente e acabei ficando com meu irmão mais velho. Foi ele quem decidiu minha vida dali em diante… Não tive escolha, até o dia que decidi sair da Russia.
Fui levada à força para um abrigo. A única diferença de lá para o inferno… é que no inferno, pelo menos, é quente, o frio da Sibéria não perdoa. Mas, eu sobrevivi, sobrevivi a tudo, a todos os castigos e trabalho forçado, traições e fugas no meio da noite. E foi com essa determinação que me trouxe até aqui a América, a tal terra da liberdade e das oportunidades. Não foi uma viagem fácil, tão pouco bonita. Passei um mês dentro de uma cabine minúscula, escura e a pertada, um homem me trazia um prato de comida uma vez por dia. O mar… eu só vi uma vez, por uma escotilha pequena, mas aguentei, pois acreditava que, quando chegasse aqui, tudo ia mudar. Mas parece que não mudou muita coisa…não ainda. Foi nesse caos, entre fugir e sobreviver, que eu encontrei Amy... e o pai dela. Mas, antes disso, você precisa entender o que aconteceu na noite anterior a este encontro. Eu estava indo para casa, quando desci para a plataforma do metrô, o corpo pesado depois de mais um dia de trabalho em dois empregos diferentes. Eu quase arrastava meus pés de tão cansada então, meu caminho foi bloqueado. Levantei os olhos devagar. O coração disparou antes mesmo de eu reconhecer. Era ele, o homem que eu havia pago para me tirar da Russia, não entendia o que ele estava fazendo ali, diante de mim. — Então você achou que podia fugir. Ele disse. Minha garganta secou, estava confusa, paguei com muito esforço o que ele havia pedido. — O que você quer? — Você me deve. Apertei a bolsa contra o corpo. — Eu paguei o que você pediu. Por que eu te devo? Ele inclinou a cabeça, me observando como se estivesse analisando um objeto. — Loirinha… olha só pra você. Roupas novas. Trabalhando bastante… O nojo subiu pela minha garganta, mesmo não devendo achei melhor dar o que tinha para me livrar dele. Abri a bolsa com pressa. — Eu não ganho muito… mas pago o que falta. Quanto é? Tirei todo o dinheiro que tinha e entreguei. Ele pegou e na minha frente, contou devagar. E riu alto. Primeiro me assustei depois meu estômago afundou. — Isso? Você está brincando comigo? Não passa de trocados. — É tudo que eu tenho… — Seu irmão me deve muito mais. — Meu irmão? O que eu tenho a ver com ele? Ele se aproximou ainda mais, baixou a voz. — Ele nos deve, é umvagabundo. Me ofereceu você como pagamento… então... O chão sumiu sob meus pés e o ar faltou. — Isso aqui? Ele ergueu o dinheiro, não é nada perto do que ele me deve. O desespero me atingiu como um soco. — Eu não posso pagar a dívida dele! Fique com a casa! Raiva, dor e vergonha, tudo misturado, mas ele não se moveu. Só sorriu, como se aquilo já estivesse decidido. — Seu irmão não tem mais nada… além de você, eu poderia matá-lo… Ele deu mais um passo. — …Mas você é melhor que dinheiro. A mão dele tocou meu rosto, deslizando lentamente de forma suja. Meu corpo inteiro reagiu. — Não toque em mim! Subi meu joelho com força, quase que inconsciente e o atingi com força. Ele se curvou na hora, o ar saindo num som seco, não esperei, só corri. O trem já estava fechando as portas. Empurrei pessoas. — Sorry… desculpa… Sai dizendo. Entrei no último segundo. A porta bateu. Ele ficou do lado de fora, batendo no vidro. Mancando e me olhando como se soubesse… Que aquilo ainda não tinha acabado. E, no fundo…Eu também sabia. Encostei a cabeça na parede do vagão, fechei os olhos. Meu irmão, queria perguntar por quê. Quando foi que deixei de ser família… e virei moeda de troca? O que eu fiz? De repente, eu ri, incontrolável...Não era alegria, era um riso estranho, cansado. Algumas pessoas olharam, mas eu não conseguia parar. Era absurdo, eu tinha fugido, de novo. E, agora, estava sem nada, nem um centavo. — Ótimo… Murmurei. O riso morrendo devagar. Só sobrou a realidade, eu precisava de dinheiro. No dia seguinte, saí cedo, precisava encontrar qualquer trabalho, qualquer coisa que pagasse comida e o aluguel. Caminhava na Quinta Avenida, onde tudo parecia caro, foi quando vi o cartaz. Uma loja de brinquedos, luxuosa. Hesitei, mas entrei. Duas mulheres elegantes vieram até mim. — O cartaz…eu apontei sem jeito. — Tem experiência? — Não… mas aprendo rápido, eu precisava do emprego de qualquer jeito. Elas trocaram um olhar. — Venha. Fui levada até um escritório. Lá um homem me analisava dos pés a cabeça, me causando uma sensação estranha. — Você vai servir. Meu corpo travou. — Servir? A palavra ecoou, eu pisquei, meu coração parou, mas ele saiu… e voltou arrastando algo, grande, fofo e marrom. Uma cabeça de urso. Demorei um segundo, imóvel. — Pode se vestir. Respirei fundo, aliviada. A fantasia era pesada e quente, mas serviu perfeitamente. — Pode começar. Eu o ouvi dizer. — Mas ainda não falamos do pagamento. Disse eu apressada. Ele me estendeu um papel, o valor era alto o suficiente para eu não recusar. E então… Eu virei um urso, no começo, tímida. Depois…pensei eu não era mais a Irina, agora era um urso, não tinha passado, não tinha medo. Vesti o personagem. Dancei, fingi tropeçar. As crianças riam, seguravam minha mão e pediam fotos. E, depois de muito tempo… eu ri de verdade, leve, quase feliz. Até que eu o vi, aquele homem novamente, o coiote, do outro lado da rua com dois homens. Meu corpo congelou. Voltei para dentro da loja, na vitrine. Eles estavam atravessando, então a porta abriu. Plin. Entraram, observando. Um deles me encarou. Acenei, como um urso bobo. Minhas pernas tremiam. Saí, rápido, distribuindo os panfletos, tentando manter a calma. Olhei para trás, um apontou em minha direção. Então corri, virei a esquina, a rua estava vazia. Ruim para esconder, mas boa para correr. Então vi um prédio, alto e luxuoso. Entrei, o cheiro de riqueza me atingiu primeiro, depois o frio do mármore, a luz. Olhei pelo vidro, eles vinham rápidos. Olhei em volta vi o elevador, corri e entrei. Apertei o último andar. As portas fecharam, meu coração batia acelerado. O elevador mal começou a subir e as portas abriram.Uma garotinha entrou correndo.
— Segura ela! Uma voz soou no corredor. Ela me empurrou para fora e tudo virou caos, tropecei no pé da fantasia. Caí. Não no chão, em alguém. — Sai de cima de mim! A voz grave veio irritada. Mas levantar… era impossível, a fantasia atrapalhava. Eu tentava sair, mas escorregava, minha mão batia no peito dele. Ele tentava me afastar. — Você tá fazendo isso de propósito?! Eu o ouvi dizer, furioso. Nem consegui responder, a cabeça do urso virou e caiu, rolou pelo chão. Silêncio. Por um segundo. Nossos olhos se encontraram e os olhos dele…Verdes, intensos e erigosamente lindos.
Passos no corredor, assustada olhei, eram homens vestidos em ternos pretos. — Ela desceu. Ele falou, seco. Autoritário. Eles correram e se levantou primeiro. Eu ainda lutando com a fantasia, ridícula. Cabelo colado no rosto pelo suor. Ele hesitou, então estendeu a mão. Frio, controlado.






