Mundo de ficçãoIniciar sessãoFiquei ali alguns segundos a mais aproveitando o calor, o cheiro do gel de banho… apenas aproveitando aquela sensação tão boa.
Quando saí, Amy já me esperava, animada. Insistiu em me ajudar com o secador. Ela penteava enquanto eu segurava o aparelho, como se estivesse brincando com uma boneca. Sorri sem perceber. Ela abriu uma gaveta, escolheu uma presilha e prendeu no meu cabelo com delicadeza. Depois pegou um brilho labial e passou em mim, sem pedir, de forma tão natural que me pegou desprevenida. Peguei da mão dela… e passei um pouco nela também, ela sorriu, feliz, daquele jeito puro que não pede nada em troca. Quando saímos do quarto, passei pelo espelho e parei, o pijama de cetim dourado, com detalhes pretos, caiu melhor do que eu esperava. Era macio, leve… e caro. Muito caro. O cheiro do sabonete ainda estava na minha pele. Fechei os olhos por um instante, era fácil. Perigosamente fácil… se acostumar com aquilo. A culpa veio rápido, mas eu a afastei, não estava pegando nada, só… existindo ali, por algumas horas, uma troca doava um pouco de tempo a Amy e em troca escapava dos homens que estavam lá fora. Amy e eu seguimos pelo corredor, eu descalça, ela de pantufas. Quando entramos na sala de jantar, o desconforto voltou imediatamente. Ele já estava lá, sentado, olhos sempre em mim. A sensação era quase física, como se eu estivesse exposta, nua. Como se ele pudesse ler cada pensamento meu. Endireitei a postura, tentando disfarçar o incômodo, parecer à vontade, então o olhar dele desceu para meus pés descalços e subiu lentamente pela roupa, avaliando. O pijama estava um pouco largo, mas servia. Ele soltou o ar devagar, cansado… ou se controlando, não sei dizer, ele não disse nada, apenas se levantou e saiu. Fiquei tensa, sem saber o que esperar. Voltou segundos depois com um par de chinelos e os deixou perto dos meus pés, sem me encarar diretamente. A esta altura Amy já estava sentada à mesa, animada, sorrindo. Percebi que sempre que ele olhava para ela… mudava, suavizava, era quase outra pessoa. Duas versões no mesmo homem. Observei em silêncio, ainda em pé, sem saber onde sentar ou o que fazer, mas com os chinelos nos pés. Ele se sentou à cabeceira, Amy claramente já sabia o lugar dela, sentou-se ao lado dele. — Não vai se sentar, senhora urso? Disse ele. O tom era leve, mas havia algo ali. Uma ironia sutil, quase provocação. Assenti, sem jeito, dei um passo na direção de Amy, mas ele apontou para a cadeira ao lado dele, de frente para ela. Hesitei, aquele não deveria ser o lugar da esposa? Onde ela estava? Me sentei e afastei o pensamento, não era da minha conta, eu só precisava passar aquele tempo… e ir embora. Só isso. A mesa estava impecável, com talheres e taças demais. Por um instante, lembrei das aulas da senhora americana que conheci quando fugi do abrigo na Rússia. Respirei, eu sabia o suficiente para não me expor ainda mais. — Espero que goste do jantar, senhora urso. Disse Amy, animada. — É o meu favorito. Levando uma garfada generosa à boca. Ele a observava, atento. Sorri e peguei o garfo também e levei à boca. E…Meu Deus! Era incrível. — Hm… Deixei escapar. — Amy, isso está delicioso. Acho que também vai virar o meu prato favorito. Ela abriu um sorriso orgulhoso, como se tivesse feito aquilo sozinha, soltei um riso leve e mais uma vez por alguns segundos… esqueci tudo. Onde estava, quem eu era e o que me esperava lá fora. Então senti o olhar dele: Direto. Analítico. Levantei os olhos por um instante, prendendo a respiração, mas sustentei o olhar. Amy estava feliz e provavelmente, eu nunca mais veria nenhum dos dois, então, se aquelas horas podiam ser leves… eu faria valer a pena. Por ela...E, talvez… um pouco por mim também. O silêncio se instalou, quebrado apenas pelo som dos talheres. — Acredito que a senhora urso tenha um nome… não é? Ele falou com calma, erguendo a taça e tomando um gole de vinho. Elegante, controlado, até o gesto parecia calculado. Engoli em seco, minha voz saiu mais baixa do que eu gostaria. — Irina. Amy levantou o rosto imediatamente. — Irina! Repetiu, animada. — É bonito! Sorri e agradeci. — Obrigada. — Irina… Ele repetiu também. Mas, diferente dela, não havia leveza. O nome saiu lento, quase soletrado, como se ele pensasse sobre. Os olhos dele permaneceram em mim, fixos. A sobrancelha levemente arqueada, como se já soubesse algo, ou desconfiava. Meu coração falhou uma batida… e quando voltou, voltou fora do ritmo. Peguei a taça de água e bebi, quase engasgando. — Nina. Amy disse de repente. Ele olhou para ela. Eu também. — Nina? Repeti. — Sim. Ela assentiu, satisfeita. — Vou te chamar de Nina. Fiquei surpresa, Nina era mais fácil. Mais leve. Menos perigoso. — Tudo bem. Concordei sorrindo. Amy já falava de outra coisa, distraída e eu prestava atenção, mas ainda senti. Mesmo sem olhar para ele, a atenção dele sobre mim não tinha desaparecido. Só tinha recuado por um instante...Como alguém que espera, paciente, o momento certo. O predador versus a presa.






