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Você não vai se livrar de mim.

Julia Davenport

Colocar a criança para dormir foi a parte mais fácil. Difícil foi descobrir como se colocava uma fralda, e depois de quatro tutoriais do YouTube, tinha quase certeza de que a coloquei do lado errado. Mas quem se importa? Vai ter o mesmo efeito, eu espero...

Puxei o cobertor até a altura dos braços, surpresa por ter sobrevivido a essa noite. Estava bem tarde, mas ainda parei para observar a chupeta escorregando de leve dentro da boca meio aberta. Era bem bonitinho de se ver, mas eu não podia me acostumar com isso. Foi meu primeiro dia e já me sentia esgotada.

Sem contar que já fui demitida...

Saí do quarto, me certificando de manter um pequeno foco de luz no quarto porque se eu estivesse no lugar dela, teria medo de dormir nesse mausoléu!

Parei de repente no corredor. A vontade de vasculhar a casa me consumindo a ponto de quase roer as unhas, mas me contive, de toda forma. Não ficaria tempo suficiente para ter um quarto nessa casa, o que significava basicamente que eu teria que me virar no sofá que parecia melhor que meu colchão me esperando em casa com as molas mais barulhentas que as minhas articulações subindo escadas.

Desci os degraus e assim que pisei no tapete da sala, encarei as paredes. Havia fotos da criança, mas não dele ou da mulher, ex mulher... a mãe de Lily. Me perguntei o que tinha acontecido com os dois, ou onde ela estava, mas por fim, me convenci de que não adiantaria tentar especular o que não era problema meu. Ou eu perguntava, ou esquecia a história, e sinceramente, a opção dois era bem viável considerando que nos odiávamos agora.

Me enterrei no sofá branco imenso, sob a supervisão do cão do inferno de olhos amarelos me encarando no ambiente meio escuro. Ele estava parado perto da lareira, o que tornou tudo bem mais assustador.

— Quietinho aí, viu, filhote de cruz credo! Nem pense em me devorar enquanto eu durmo. Seu patrão não vai gostar de ter que lidar com meus restos mortais manchando esse sofá branco perfeito.

O infeliz mostrou os dentes, ainda em silêncio, eu juro. Arregalei os olhos, me tremendo da cabeça aos pés. Ainda nem havia decidido se seria melhor deixar que me comesse ou enfrentar o meu ex namorado, por quem eu ainda suspirava como a maior idiota do mundo.

Nem um, nem outro, por que no fim, eu estava tão cansada que meus olhos se fechavam sozinhos, pesados. Quem diria que cuidar de uma criança fosse algo tão exaustivo assim? Ela ainda usava chupeta e pedia colo, embora eu acredite que ela deva pesar uns dezessete quilos. Sério? Minha coluna não lidaria bem com isso por muito tempo. Pelo amor de deus, eu só peso cinquenta quilos...

Liguei a televisão, e a música infantil preencheu a sala, fazendo o guardião do inferno latir bem alto. Droga, pulei para baixar o volume e trocar de canal, sentindo meu coração bater na garganta. Por fim, me deitei no sofá de um jeito bem torto e permaneci tentando prestar atenção ao filme, mas era um romance.

Que legal... tudo o que eu precisava agora.

Xinguei a protagonista por quase uma hora, por ela ser tão burra. Mas assistir noiva em fuga parecia mais uma piada do universo. Então levantei o dedo do meio bem para o alto. — Vai se ferrar, filho da mãe!

— Porque você está xingando o teto?

Aff, que ótimo...

Já entendi, universo, você manda!

Os olhos dele desceram até a minha barriga. A pequena tatuagem na cintura que havia feito com Adrian no nosso último show de bebedeira. Mas é como dizem, nunca desafie uma pessoa bêbada...

Quando percebeu que eu o havia flagrado, os olhos se voltaram para o meu rosto, mas não havia nenhuma mudança na forma como ele me encarava desde o encontro de horas mais cedo.

— Você ainda não respondeu a minha pergunta. — A voz áspera me pegou pelos cabelos e me arrastou de volta a realidade.

Levantei do sofá como se ele já não fosse a nuvem confortável e eu preferisse as molas assassinas comedoras de rins me esperando no meu quarto. — Não que seja da sua conta, mas só estava desabafando.

A sobrancelha arqueada indicava que ele estava bem confuso. Bom, não era para menos, considerando que eu parecia uma maluca completa. — Isso faz parte de alguma fase de rebeldia? —  Os dedos dele seguraram uma mecha do meu cabelo. — Essa cor de cabelo, a tatuagem? Um protesto contra seu pai perdedor, Julia? Não acha que está muito tarde para tentar chamar esse tipo de atenção agora?

Dei um tapa na mão dele, encarando aqueles olhos perfeitos que agora pareciam mais maduros. O desgraçado exalava testosterona, e meu corpo sabia reconhecer isso, por que meus olhos passearam da boca bem delineada para os olhos em um percurso que se repetiu duas vezes, até que ela se esticou em um sorriso meio suave, meio arrogante.

Por que ele notou o que eu estava sentindo, o que era uma droga.

— Lily está alimentada e dormindo. Tudo está em ordem, e eu nem coloquei fogo na casa sem querer. Viu? Eu disse que podia confiar em mim.

Brinquei, para quebrar aquele clima esquisito entre nós, muito embora soubesse que nada resolveria nosso problema, a não ser eu ir embora o mais rápido possível. Por isso, olhei em volta procurando onde havia deixado minha bolsa.

— Bom, já vou embora. Quanto a sua proposta ridícula sobre o dinheiro, não há necessidade disso. Não tem que me pagar para que eu fique bem longe de você, Dean. Faço isso com o maior prazer, e de graça!

O homem segurou meus ombros, prensando meu corpo contra a parede e me encarando como um devorador. — Fico feliz que não há a necessidade de dinheiro, Julia, por que essa seria a primeira vez que eu não poderia cumprir uma promessa.

O encarei surpresa. — O que isso quer dizer?

Uma parte idiota sabia que se decepcionaria, mas ainda esperava que ele se declarasse.

— Não consegui outra pessoa para te substituir, o que significa que você fica até que eu encontre alguém adequado para cuidar da Lily.

Acabei rindo alto. — Se não vai me demitir, senhor Sinclair, não se preocupe, por que eu posso fazer isso!

— Mesmo? — As mãos dele pairaram ao lado da minha cabeça, espalmadas contra a parede. — E como pretende pagar a multa de cinquenta mil dólares?

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