Mundo ficciónIniciar sesiónJulia Davenport
— Como assim? — Perguntei, quase sussurrando, bastante ciente de que deixei cada traço de tristeza transparecer na minha voz.
Ouvir Dean se referir a mim daquela maneira, quando eu o escolhi a cima de tudo, ao contrário do que ele fez, doeu mais do que eu esperava.
A narizinho me encarou, andando até o homem dela para marcar território. Percebi, pelo tamanho das unhas, que seja lá por qual portal aquele cachorro dos infernos saiu, o esqueceu aberto e a vaca saiu pelo mesmo lugar.
— Parece que a agência não tem uma substituta para você nesse exato momento. O que significa que, ou cancelo meus planos, ou terei que confiar minha filha a você, Julia. Meu bem mais precioso. Como posso confiar em alguém como você, me diga?
— Dean, você não pode fazer isso. A quantos meses você tem tentado conseguir essa reunião. Por que deixaria tudo por ela? — Os olhos da infeliz se estreitaram, mas os dele ainda estavam em mim, fixos, raivosos. — O que está acontecendo?
Não consegui encarar o desprezo na maneira como Dean me olhava. Mesmo quando eu ainda era uma criança, e ele o adolescente mais lindo que sequer notava a existência da minha paixonite, a forma como me olhava tinha algum tipo de ternura que variou de “nossa, como ela é fofa”, para “você está começando a parecer uma mulher”, então, como agora ele podia me olhar como se eu fosse o ser humano que ele mais odiava no planeta? Sério, tinha que ser cara de pau em um nível astronômico para tanta audácia.
— Estou aqui por que passei na verificação do Noblenannies. — Mentirosa! — Como você provavelmente leu, tenho experiencia com crianças, e sei lidar com qualquer tipo de emergência. Não sou uma inútil fútil, ao contrário do que pensa, Dean. — Vou para o inferno...
Os passos dele eram letais em me alcançarem, não importou que eu tenha recuado a mesma distância, assim como toda a aura tensa que ele carregava nos ombros largos. Os olhos caindo diretamente para o meu rosto, e por ele me encurralar ao colocar as mãos contra a parede e me encarar fixamente, sei que foi a coisa mais patética do mundo, mas por um mísero segundo, pensei que ele fosse me beijar. Claro, foi uma fantasia absurda, mas cretina o bastante para me fazer fechar os olhos por cinco segundos.
— Vou deixa-la com a Lily, Julia. Não por que confio em você, longe disso. — Ele passou a língua entre os lábios. — Não tenho muita escolha. Não é o tipo de compromisso que posso adiar, por que, acredite, eu o faria só para te ver bem longe da minha casa. — O homem afastou as mãos como se empurrasse tanto quanto desejava chutar minha bunda para fora da mansão. — Quando eu voltar, Julia, nós vamos resolver isso. Quero que pense no seu preço, para que suma. Quero que escolha com atenção, porque se te demitir agora, eu estarei fora da maldita lista de babas, e não quero ter que lidar com procurar outra agência agora. Mas quero deixar bem claro que, não importa qual seja a sua decisão... — Ele encostou a boca no meu ouvido e meu coração patético errou todas as batidas. — Você não vai ficar. Vou tira-la da minha vida, não importa o quanto isso me custe.
Ao recuar, ainda me olhando fixamente enquanto caminhava até a mulher elegante, Dean beijou a namorada bem na minha cara, e eu simplesmente não consegui olhar.
Por fim, ele a segurou pela cintura, conduzindo-a para a porta que alguém abriu como se ele fosse um maldito lorde inglês que não podia sujar as mãos com trabalhos mundanos.
Permaneci em pânico no meio da sala, encostada em uma parede qualquer. Era quase noite, o que esperava que significasse que a filha do Dean estivesse dormindo e aquele fosse o trabalho mais fácil do mundo. Poderia ir embora sem que ele ao menos voltasse, mas, por mais que eu fosse meio louca, sabia que deixar uma criança tão pequena sozinha seria bem absurdo.
Escorreguei até o chão, sentindo a frieza da parede. Me sentia dentro de uma geladeira bem chique enquanto enfiei as mãos no cabelo, encolhi as pernas para que o meu rosto ficasse entre os joelhos e chorei como se meu gato tivesse morrido.
Só que eu não tinha gatos...
Deus, o que eu fiz da minha vida?
Só o amor para doer essa droga. Por isso mesmo que nunca voltei a namorar.
— Oi, tia. Meu nome é Lily, e o seu?
Um arrepio percorreu até a base da minha coluna. Era só o que faltava, ter que cuidar de uma criança agora. Ah, é, é o meu trabalho!
Ergui o rosto, disfarçando as lagrimas ao enxuga-las com as costas das mãos. — Sou Julia.
Os olhinhos brilhantes eram bem grandes e me fariam lembrar de um anime, se ela não fosse ruiva. —Você tá cholando?
Vasculhei a criança. Ela parecia ter uns quatro anos, e tinha dentinhos tão pequenos, que faziam par com as bochechas gordas. Eu precisava admitir que ela era realmente muito fofa. Droga! Uma parte bem egoísta dentro de mim desejava que ela não fosse assim.
Anos tentando não pensar na vida que Dean havia construído, e me policiando para não voltar a ser sua maior stalker, e quando volto, descubro que ele agora é estupidamente bilionário, e nem é casado...
— Chorando? Eu? Não, claro que não. É que eu espirrei para dentro. Nunca faça isso, é horrível.
Ela riu, colocando a mãozinha em frente a boca. — Você é estlanha.
E você é fofa. Mas que droga!
— Oh tia, eu tô com fome. Cadê o meu papai?
Olhei para os lados. Aquele cretino me deixou com a filha dele, sem nem fazer um tour pela casa. Eu não fazia ideia de onde ficava qualquer lugar da casa, quem dirá a cozinha.
Segurei a vontade de me desfazer em lagrimas até perder a consciência, e tentei disfarçar que havia um nó insistente preso à minha garganta.
— Claro, claro. Eu só... onde fica a geladeira, hein?
O dedinho indicador se ergueu no ar. Era rechonchudo e eu quase o peguei e mordi bem de leve. A outra mão segurava um urso surrado de unicórnio que parecia muito, muito sujo.
Esfreguei a mão na parte de trás da calça e andei até onde a pequena coisinha fofa havia indicado. Abri a geladeira e fiquei um pouco assustada, por que aquilo parecia mais o jardim botânico do que um lugar que deveria guardar refeições. Juro que nunca vi tanto verde na vida. Mas ao vasculhar, encontrei manteiga, tomates e um pouco de queijo. Agora eu só precisava de macarrão e estaríamos salvos de comer tanta clorofila que adotaríamos o tom de pele do Hulk.
Aliviada por não ter o cachorro imenso tentando me matar, pude deixar que minha mente se desviasse rapidamente para a angústia de estar no ambiente dele, olhando a filha que Dean teve com outra mulher. As lembranças reviraram meu estomago, e de repente, perdi o apetite.
A pequena fofura se sentou na ilha da cozinha e ficou parada quando coloquei a comida pronta diante dela. Estava tão cheio de queijo derretido que ela arregalou os olhos
— Você não come sozinha?
— Papai não deixa comer isso.
Não? E o que essa criança come, então?
— Mas o papai não está aqui agora.
Sorri cínica. Se eu estava fora, então que se danem as regras!







